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Por que raios uma startup levou 12 garrafas de vinho para o espaço?

Garrafas vão envelhecer por 12 meses na Estação Espacial Internacional (ISS) - skynesher/iStock
Garrafas vão envelhecer por 12 meses na Estação Espacial Internacional (ISS) Imagem: skynesher/iStock

Marcella Duarte

Colaboração para Tilt

06/12/2019 04h00

Sem tempo, irmão

  • 12 garrafas de vinho vão envelhecer por 12 meses na Estação Espacial Internacional
  • Startup Space Cargo Unlimited vai analisar como foi a maturação do vinho nesse tempo
  • Também devem comparar com garrafas da mesma safra que ficaram em Terra
  • Resultados podem ser usados em indústrias de alimentos, na agricultura e na biologia

Um carregamento inédito acaba de chegar ao espaço: 12 garrafas de vinho tinto. Mas não é para uma festa de astronautas, não. Elas vão envelhecer por 12 meses na Estação Espacial Internacional (ISS), como parte da pesquisa de uma startup europeia.

Acredita-se que são as primeiras garrafas de vidro da história a chegar lá. Elas foram lançadas em órbita por um foguete Antares, em uma nave de carga Cygnus, desenvolvida pela Northrop Grumman, e saiu da base de lançamentos comercial da Nasa, nas Ilhas Wallops, na Vírginia (EUA). Cerca de 43 horas depois, a nave foi agarrada pelo braço robótico da ISS e conectada para descarregamento.

O vinho é a chave de um grande projeto chamado Missão WISE (Vitis Vinum in Spatium Experimentia, em latim), que engloba seis experimentos em 26 meses —este é apenas o primeiro deles. A inspiração não podia ser melhor: a startup Space Cargo Unlimited é sediada em Bordeaux, a mais famosa região produtora de vinho da França.

In vino veritas

Mas o que dá para aprender com o vinho no espaço? Dois fatores que movem a vida na Terra são alterados quando em órbita.

  • Objetos na Estação Internacional existem em um estado de queda livre, que os cientistas chamam de microgravidade ("gravidade zero" é um termo incorreto --existe, sim, gravidade no espaço, inclusive impedindo que a Estação voe para longe).
  • Sem a atmosfera terrestre, objetos no espaço são expostos a muito mais radiação. Essas condições implicam mudanças nos processos biológicos e químicos, seja em humanos... ou em vinhos.

Ao final do ano em órbita, a Space Cargo, em parceria com cientistas da Universidade de Bordeaux, vai analisar como foi o processo de maturação do vinho e compará-lo com o de garrafas da mesma safra que ficaram em Terra.

A teoria é que o impacto da viagem seja positivo, com vinhos mais saborosos e que levam menos tempo para chegar a seu auge —um ano na Estação pode significar cinco anos em uma adega por aqui.

Os vinhos da Terra e do espaço estão em suas garrafas originais, mantidos a uma temperatura constante de cerca de 18ºC, sem perturbações, para deixar seu complexo ambiente biológico interno fazer todo o trabalho.

Se este primeiro projeto enólogo der certo, os resultados podem ser aplicados na indústria do vinho, de alimentos, na agricultura e na biologia e outras necessidades de nosso futuro.

Foi justamente no vinho que o cientista francês Louis Pasteur fez algumas de suas mais importantes descobertas de microbiologia e desenvolveu o processo de pasteurização, para matar bactérias e preservar a bebida para transporte e comercialização.

A missão também vai levar videiras para crescer no espaço, para ver como as plantas se adaptam a mudanças de temperatura, salinidade e patógenos. Isso poderia nos ajudar a resistir às futuras transformações dos ecossistemas terrestres.

O projeto

Desde 2014, a empresa tem realizado pesquisas biológicas envolvendo a microgravidade da órbita da Terra. Mais experimentos devem chegar à Estação Espacial no ano que vem, em foguetes da Blue Origin e da SpaceX.

Este é o primeiro programa de pesquisa totalmente privado dentro da ISS. Conseguir aprovação da Nasa para enviar vinho ao espaço não foi fácil. Foi necessário provar que era seguro e que, por exemplo, as garrafas não iriam quebrar —um recipiente especial foi desenvolvido para acondicioná-las individualmente.

O projeto também faz sentido para o governo norte-americano, que está recebendo para sediar o experimento: no futuro, talvez os custos da Estação sejam pagos por projetos de empresas e universidades.

O financiamento do WISE une ciência, luxo e ostentação. A pesquisa vai ser paga, em parte, por patrocinadores super-ricos, que em troca irão receber um baú de couro exclusivo, cheio de coisas que estiveram no espaço. O ponto alto da coleção será uma dessas garrafas de vinho.

Até agora, apenas cinco pessoas estão na jogada —então você pode ser um dos outros sete felizardos a degustar a iguaria espacial. É só ter sete dígitos na conta bancária.

Os vinhos que estão no espaço são Grand Crus, alguns dos melhores do mundo. Vamos torcer para os astronautas não beberem todas as garrafas durante o ano.

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