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Rússia está debatendo bebês por edição genética, mas por que isso importa?

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Pedro Katchborian

Colaboração para Tilt

23/10/2019 04h00

Sem tempo, irmão

  • Cientista russo Denis Rebrikov pretende criar bebês geneticamente modificados
  • Ideia é que, por meio da edição de genes, casal de surdos ganhe audição
  • Mas especialistas alertam para alteração radical da espécie humana
  • Putin já disse que até mesmo supersoldados genéticos podem ocorrer na teoria

Em 2017, Vladimir Putin disse que a edição de genes poderia criar um soldado super-humano com potencial para ser "mais assustador do que a bomba atômica". Dois anos depois, geneticistas russos fizeram uma reunião secreta para debater uma proposta do cientista Denis Rebrikov, que tem a intenção de criar bebês geneticamente modificados utilizando a técnica CRISPR-Cas9.

Ou pelo menos tinha até agora: Denis Rebrikov disse à revista "Nature" nesta terça (22) que ele não planeja implantar embriões editados por genes até obter aprovação regulatória. Mas enquanto isso, nada impede que ele continue pesquisando o tema.

Não se trata, pelo menos por enquanto, de um uso militar da tecnologia. Rebrikov está trabalhando com um casal surdo, e a ideia é que, por meio da edição de genes, seja possível impedir que seu futuro filho ganhe a condição auditiva. Na reunião, o projeto foi discutido com a endocrinologista Maria Vorontsova, filha mais velha de Putin, com visões influentes sobre bioética.

Segundo a Bloomberg, Vorontsova não chegou a dizer "sim" ou "não" aos estudos de Rebrikov, mas concordou que o progresso da ciência não pode ser parado e que a edição de genes deveria ser proibida no setor privado.

Em junho de 2019, Rebrikov já havia demonstrado o interesse em editar genes de embriões. Além de trabalhar com casais surdos, ele pretende mexer no gene CCR5, criando bebês que estariam imunes ao vírus HIV, causador da Aids.

O cientista russo parece ter se inspirado em outro caso que gerou polêmica no ano passado: He Jiankui, geneticista chinês que, em novembro de 2018, apresentou um trabalho afirmando que havia editado os genes de duas bebês, tornando as crianças imunes ao HIV.

Alterar indivíduos ou a espécie humana?

O que aconteceu na China em 2018 e as discussões mais recentes na Rússia retomam o debate que vem esquentando desde que a tecnologia começou a escalar de maneira rápida: a edição de genes deve alterar indivíduos ou a espécie humana? Quais seriam as possíveis implicações?

Para entender as possibilidades, é preciso compreender como a técnica CRISPR-Cas9 funciona. Ela possibilita que o geneticista "recorte" o DNA, fazendo uma microcirurgia no gene. O diferencial é que a técnica é extremamente precisa, pois somente o gene específico é recortado. A enzima Cas9 é a responsável por editar o DNA e substituir a parte recortada.

Embora as intenções de Putin na edição de genes ainda não sejam tão ambiciosas quanto a criação de um supersoldado tipo Guardião Vermelho — herói da Marvel que era considerado o Capitão América russo —, especialistas dizem que as ideias de Denis Rebrikov podem ser muito perigosas. Mesmo se as intenções forem boas.

O risco de mexer em células germinativas é enorme, diz Bruno Torquato, advogado e professor especialista em bioética.

"Ao manipular genes em embriões, não se sabe ao certo como será a multiplicação celular — uma preocupação para futuras gerações. Estaríamos alterando a espécie humana. "Sabemos onde estão os genes, mas não sabemos exatamente a função de cada um", explica Torquato.

"O GJB2, gene que os russos estão pretendendo modificar, não é somente responsável pela audição, mas também pelos olhos e pela pele. A partir do momento que tiver uma alteração, pode gerar uma consequência em doenças de pele que pode aparecer somente daqui a algumas gerações", completa.

Por isso, a partir do momento que Putin decidir editar células germinativas, ele estaria tomando uma decisão pelo mundo inteiro, pois essas modificações poderiam passar para futuras gerações, espalhar-se para outros países e gerar uma consequência global sem volta.

Para Torquato, isso pode significar uma nova corrida armamentista —desta vez, genética em vez de bélica: "Se a Rússia começa a produzir indivíduos modificados, outros podem achar que a ausência de pesquisa é um problema. Podem achar que estão ficando para trás".

E os benefícios?

Por outro lado, alterar somente um indivíduo é completamente diferente, e há de se reconhercer também que os avanços da tecnologia são enormes. A professora Santuza Teixeira, do departamento de bioquímica e imunologia da UFMG, trabalha com a técnica CRISPR-Cas9 desde 2015, estudando os parasitas que causam doença de chagas e leishmaniose.

"É uma ferramenta importantíssima. O que eu gastava três ou quatro anos hoje posso fazer em duas semanas", explica. De baixo custo, a técnica também democratiza a manipulação genética.

Santuza dá o exemplo de uma criança que nasce com distrofia muscular. "Se eu puder mudar a sequência dessa pessoa para reverter o processo da doença, claro que deve ser feito", explica. "Não é muito diferente de um diabético tratar com insulina a sua doença. Mas estaria modificando somente o indivíduo e não a espécie".

E como regulamentar?

Por enquanto, não há nenhum tipo de tratado global envolvendo edição de genes. Cada país tem as suas próprias leis. No Brasil, por exemplo, o principal instrumento regulador é a Lei n.11.105 - a Lei de Biossegurança, sancionada em 24 de março de 2005.

Em território brasileiro, pesquisas e terapias com embriões humanos só são permitidas em células-tronco. São proibidas as edições em células germinativas (que dá origem a novas vidas) ou embriões e quem violar a lei pode pegar de um a quatro anos de cadeia e multa.

"O Brasil tem uma legislação muito boa nesse sentido", diz Santuza. Em países como China ou Rússia, tudo ainda é muito nebuloso.

Um painel da OMS (Organização Mundial da Saúde) propôs, em março de 2019, a criação de um registro transparente com todos os experimentos de CRISPR em edição de genomas. Na época, um comitê de pesquisadores chegou a um consenso de que seria "irresponsável agora para qualquer pessoa prosseguir com aplicações clínicas da edição de genomas em células germinativas humanas".

Santuza diz que o debate precisa ir além da comunidade científica. "É importante que as pessoas saibam o que está acontecendo. A sociedade precisa dar palpite", explica.

Apesar da polêmica, especialistas concordam que os benefícios da tecnologia são enormes, desde que exista cautela na utilização da técnica. Afinal, o uso da CRISPR-Cas9 em indivíduos já é uma realidade.

"Em pouquíssimo tempo será um tipo de terapia sendo oferecido como alternativa. Se a ciência brasileira estiver preparada, o SUS poderá fazer esse tipo de tratamento. Será uma solução muito eficiente", conclui Santuza.

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