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Querem sua atenção! Como redes sociais usam a dopamina para te viciar

Likes mexem com a dopamina e estímulos de prazer no cérebro - Getty Images/iStockphoto
Likes mexem com a dopamina e estímulos de prazer no cérebro Imagem: Getty Images/iStockphoto

Marcelle Souza

Colaboração para Tilt, em São Paulo

01/10/2019 04h00

Sem tempo, irmão

  • Likes em redes sociais mexem com a dopamina e bagunçam a cabeça
  • Serviços criam plataformas para fazer com que você fique viciado
  • Dopamina está associada também a alimentos e até a uso de drogas
  • É preciso tomar cuidado ao usar redes sociais para não ter o cérebro "roubado"

Parece inocente, mas uma série de likes pode desencadear bem mais do que um bom status nas redes sociais. Na verdade, eles servem como um gatilho para sensações bem reais no seu corpo, que ajudam a explicar o motivo de cada vez mais estamos dependentes das tecnologias.

E uma das principais responsáveis por isso é a dopamina, um neurotransmissor relacionado ao bem-estar e à recompensa. "Ela é a substância do prazer, e todo mundo quer essa sensação no cérebro", explica Fábio Aurélio Leite, psiquiatra do Hospital Santa Lúcia e membro da Sociedade Brasileira de Psiquiatria.

A dopamina é liberada quando você realiza atividades agradáveis ou quando deseja muito alguma coisa. É a "Kim Kardashian dos neurotransmissores", como foi chamada pelo psicólogo britânico Vaughan Bell, já que é a mais conhecida das moléculas desse tipo. Ela está associada, por exemplo, ao consumo de alimentos que você adora, mas também ao uso de drogas e de redes sociais. E por isso é preciso ficar atento.

Uma pesquisa realizada pela Universidade do Estado da Califórnia mostrou que o mesmo sistema acionado pela cocaína é observado em usuários dependentes do Facebook. A boa notícia é que a dependência é mais fácil de ser resolvida quando se trata do mundo virtual.

"A gente não tem consciência de que o nosso cérebro está liberando dopamina, mas como sentimos prazer, automaticamente vamos em busca daquilo novamente", afirma a psicóloga Anna Lucia King, professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro e uma das fundadoras do Instituto Delete, que trata pessoas com dependência tecnológica.

Sabendo como funciona esse mecanismo, um dos criadores do Facebook chegou a dizer que essa busca pelo prazer é a explicação para o sucesso da rede. "É um loop de resposta de validação social (?), é o tipo de solução que hackers, como eu, usamos, pois você está explorando uma vulnerabilidade psicológica humana", disse Sean Parker.

Em outras palavras, esse tipo de plataforma cria mecanismos como curtidas, visualizações e comentários para explorar essa sensação de bem-estar e a necessidade de tê-la o tempo todo.

Um monte de likes gera, então, uma onda de estímulos de prazer ao nosso corpo, mas, como uma droga, pode acabar criando uma sensação irreal de que você está arrasando. "O problema é que internet é só para rir, só dopamina, não tem dislike. Enquanto isso, a vida real é muito mais tristeza do que satisfação. E assim as pessoas ficam despreparadas para o dia a dia, porque é a rejeição que faz a gente aprender a viver", diz o psiquiatra.

É vício, doutor?

Se as redes sociais pegam carona nos efeitos da dopamina, está explicado o porquê quanto mais a gente posta, mais tempo quer ficar conectado. Mas mesmo que isso tenha efeitos similares aos do uso de uma droga, os especialistas dizem que nem todo mundo anda viciado na internet. E isso é o que mostra a triagem semanal realizada no Instituto Delete, na UFRJ.

"A cada cem pessoas que nos procuram, só 10% têm algum transtorno associado ao uso da tecnologia. Os outros 90% só usam esses aparelhos de forma inadequada", diz Anna Lucia King. A avaliação gratuita é feita por uma equipe de psicólogos, psiquiatras e fisioterapeutas.

King explica que a dependência patológica acontece quando a pessoa percebe prejuízos à vida acadêmica, profissional, perde horas de sono, não se alimenta direito e deixa de fazer atividades importantes do cotidiano por conta do uso excessivo de equipamentos eletrônicos.

Nesses casos, segundo a psicóloga, é muito comum que essa compulsão esteja associada a transtornos primários, como depressão, fobias e ansiedade, e por isso o tratamento deve associar terapia e o uso de medicamentos.

"O celular faz parte da nossa vida, então é normal usá-lo para o lazer, para trabalhar, estudar, e fazer isso muitas horas por dia. Na maioria das vezes, o problema é que falta uma etiqueta digital, as pessoas não sabem que não é educado usar o aparelho em certas ocasiões, em determinados horários", explica a professora da UFRJ.

Quem não é diagnosticado como dependente, recebe orientações para o uso consciente, que vão desde estabelecer horários para o celular até adotar posturas corretas, para evitar problemas na coluna, no pescoço e nos olhos.

A ideia é dar freio na dopamina ou tentar acioná-la com outras atividades prazerosas. "As tecnologias são sedutoras porque dão respostas imediatas, dão mobilidade, então é normal que a gente queira usar. Mas é preciso tomar alguns cuidados", diz a psicóloga.

Mudanças a caminho?

Algumas redes sociais fizeram ligeiras mudanças em suas plataformas para, supostamente, deixar o usuário menos propenso a ter problemas mentais. É o caso do Instagram, que acabou com a contagem das curtidas - os likes, que são os grandes desencadeadores da dopamina, seguem lá, porém.

A única mudança é que as outras pessoas não verão quantas curtidas você teve na foto - dessa forma, as pessoas se sentem menos rejeitadas na "competição" por curtidas em plataformas do tipo. O Facebook, dono do Instagram, também estuda em breve tirar a contagem de reações em posts.

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