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Inteligência artificial já manda soltar e prender, mas não fica só nisso

Aperto de mão entre um humanos e um robô: máquina ganham cada vez mais poder - Getty Images/iStockphoto
Aperto de mão entre um humanos e um robô: máquina ganham cada vez mais poder Imagem: Getty Images/iStockphoto

Helton Simões Gomes

Do UOL, em San Francisco (EUA)*

19/02/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Inteligência artificial faz muito mais do que executar tarefas no seu celular
  • Máquinas inteligentes já recomendam quem deve ser preso e solto
  • Consumidores já confundem robôs com pessoas de carne e osso
  • Empresas como IBM criam as almas das máquinas espertas de outras companhias

Sabe quando alguém é tremendamente poderoso e falam que ele pode tanto mandar soltar quanto prender uma pessoa? Hoje em dia, já se pode dizer isso de máquinas. Mas, no caso delas, não se trata de força de expressão. Elas fazem isso literalmente.

Sistemas de inteligência artificial já invadiram diversos segmentos. Agendam uma hora para você tirar seu RG, desenham novos produtos para empresas, analisam se um paciente tem câncer ou não e até fornecem informações sobre sua saúde financeira - em breve, vão começar a mexer no seu dinheiro, mas isso é assunto para mais tarde.

Talvez você nem tenha notado, mas, segundo calcula a IBM, apenas a plataforma inteligente dela, o Watson, já interage com um terço dos brasileiros.

Quando você pega uma série de serviços feitos de forma mais ou menos complexa com nossa inteligência artificial, mais de um terço da população brasileira hoje tem alguma interação com o Watson

Tonny Martins, presidente da IBM no Brasil

Se você possui um iPhone ou um celular Android, o que é a realidade para boa parte dos internautas brasileiros, já deve ter percebido que algumas ações são feitas de forma tão automatizada que chegam a parecer inteligentes. É possível pedir pedir detalhes sobre algum assunto à Siri, assistente da Apple, ou para o Google Assistente traçar a melhor rota de carro até o seu restaurante favorito.

Essas ferramentas, criadas por Google e Apple, assim como as da Microsoft e Amazon, podem ser a primeira lembrança trazida quando se fala em inteligência artificial pois estão ao alcance do consumidor final. Empresas como IBM, no entanto, também desenvolvem plataformas inteligentes, mas você não verá uma alto-falante inteligente do Watson: elas são vendidas a outras companhias para que construam seus próprios robôs.

NÃO É FEITIÇARIA

Rob Thomas, gerente da IBM para sistemas analíticos, diz que o uso desses sistemas pode colocar seu emprego em risco, sim. Caso você não se adapte a eles.

A inteligência artificial não vai substituir gerentes, mas os gerentes que usarem vão substituir aqueles que não usam

Para ele, há muito ceticismo em torno das máquinas inteligentes similar à onda de teorias místicas que envolveram a eletricidade quando ela começou a iluminar ruas e casas no fim do século 19.

Inteligência artificial não é mágica, é sobre três coisas: como fazer melhores previsões, como automatizar coisas que as pessoas já não gostariam de fazer em primeiro lugar e como automatizar processos

Qual o impacto da inteligência artificial nos nossos empregos?

Entenda

Segundo a consultoria PwC, o uso dessas ferramentas inteligentes irão produzir ganhos de produtividade que injetarão US$ 15,7 trilhões aos PIBs de países até 2030. O UOL Tecnologia ouviu diversos casos de adoção de AI durante o IBM Think, a conferência anual da IBM.

Um deles foi o do Bradesco, que usou o Watson para ser a alma de sua assistente pessoal, a Bia. Ela já faz operações, como checar o saldo da conta corrente e tirar dúvidas, por meio de diversos serviços, desde o próprio app do banco até o WhatsApp. Se você não a conhece, é bom tirar o atraso, porque o banco, o maior do Brasil, quer fazer da Bia o primeiro ponto de contato com seus clientes.

A gente enxerga a Bia, assim como outras interações entre humanos e máquinas, como o futuro das nossas operações. No futuro, a gente espera que todas as interações sejam feitas pela Bia

Henrique Albuquerque, gerente de pesquisa e desenvolvimento do Bradesco

Até agosto do ano passado, ela apenas tirava dúvidas de funcionários sobre os mais de mil produtos e serviços do banco. A partir de então, pulou o balcão e começou a atender clientes. De lá para cá, consumidores já interagiram 87 milhões com ela, que demora menos de 3 segundos para responder, segundo o Bradesco. "O cliente tem uma resposta mais rápida do que tinha no passado", diz Albuquerque. Em breve, porém, ela fará mais do que dar respostas.

"As transações [financeiras] vão começar a acontecer ao longo dos próximos meses", diz. Ele não detalha quais são, mas são operações que envolvem dinheiro, como, por exemplo, transferências bancárias e pagamento de contas.

O Bradesco não é o único banco no Brasil a apostar na inteligência artificial. A IBM não dá nome aos bois, mas diz ser fornecedora de cinco das maiores instituições financeiras do país.

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ROBÔ TRABALHADOR

A adoção não se restringe ao setor bancário. Quem pretende tirar o RG ou algum outro documento em São Paulo e recorre ao Poupatempo, esbarra com o Watson. Ele está por trás do sistema de agendamento. Outras firmas também já o adotaram como parte de seu dia-a-dia. O Fleury usa algumas capacidades de análise visual do Watson para detectar indícios de tumores em radiografias. Já a Gerdau recorreu a ele para simular o desenvolvimento de um novo tipo de aço.

A seguradora Geico fecha vendas de apólices de seguro inteiras com seu assistente inteligente. Greg Kalinsky, chefe de informação da Geico, contou que, no início, ficou receoso de perder negócios.

"Isso é novo para nossos clientes. Uma das coisas que fazíamos era rever as transcrições das interações para ver como nossos clientes reagiam ao Watson, porque não sabiam que era o Watson"

Kalisnk narrou um desses atendimentos em que, para a pessoa do outro lado da linha, não havia diferença entre Watson e um atendente humano:

Depois de vender uma apólice e agradecer ao novo cliente, o Watson perguntou, 'Alguma coisa mais que posso fazer pelo Senhor hoje?'. Essa conversa ocorreu entre duas e três da manhã. E o novo consumidor respondeu, 'Não, você foi maravilhoso. Eu agradeço. Nós que somos trabalhadores do turno da noite temos que nos ajudar'

MANDANDO SOLTAR E PRENDER

Ainda assim, nenhuma das várias encarnações do Watson chamou mais atenção do que a que ele tem no tribunal de Justiça do estado norte-americano de Nova Jersey. Por lá, ele monta um perfil das pessoas acusadas de algum crime para decidir se, enquanto aguardam julgamento, devem ser presas ou liberadas.

Um sistema dá uma pontuação para o sujeito e faz uma recomendação ao juiz sobre se ele deveria ser liberado. Se ele é solto, há níveis de monitoramento, como ter de voltar ao tribunal uma vez por mês ou usar tornozeleiras eletrônicas. Para crimes mais sérios, não há recomendação de liberação

Jack McCarthy, chefe da área de informação do tribunal de New Jersey

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Ele conta que o sistema foi instalado em 2017 para diminuir a quantidade que ficavam presas por grandes períodos até serem julgadas por não terem dinheiro para pagar uma fiança. Essa quantia é estabelecida de acordo com o crime pelo que estão sendo acusadas. Fizeram um levantamento e notaram que havia uma grande quantidade de detidos cuja fiança havia sido fixada em até US$ 250, o que sinalizava acusações de menor impacto.

Hoje em dia, o sistema compara automaticamente os dados biométricos dos acusados a informações coletadas em outras cenas de crime. Isso ajuda a sinalizar se se trata de alguém perigoso ou não. Adotar um sistema de inteligência artificial, reduziu a demora e economizou dinheiro.

"Esse era um processo que fazíamos manualmente. E se dependesse de um ser humano, demorava entre duas e três horas. Quando a gente vê que esse tempo caiu de até três horas para três segundos, vemos que precisávamos de até 100 pessoas para o trabalho manual, o que nos gerou economias entre US$ 8 milhões e US$ 10 milhões."

Mas não fizemos isso para poupar dinheiro e, sim, por Justiça

Jack McCarthy

Com a implantação do sistema que manda soltar ou manda prender, muita gente que estava detida mas não representa um risco à sociedade passou a ser solta. Segundo ele, um relatório a ser publicado pelo tribunal mostrará que a população presa à espera de julgamento caiu de 9 mil para 5 mil pessoas em Nova Jersey. "E, ainda que tivéssemos 4 mil pessoas soltas antes do fim do processo, não tivemos uma aumento no crime."

*o jornalista viajou a convite da IBM

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