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Google e Facebook são como indústria que poluía rios, diz ex-mentor de Zuck

Roger McNamee passou de investidor a critico das redes sociais - Divulgação
Roger McNamee passou de investidor a critico das redes sociais Imagem: Divulgação

Helton Simões Gomes

Do UOL, em San Francisco (EUA)*

15/02/2019 04h00

"Eu não sou um escritor, eu sou um consumidor preocupado. É por isso que estou aqui."

Roger McNamee é um ex-investidor que passou 35 anos de sua vida colocando dinheiro nas mais diferentes empresas de tecnologia. Uma delas, você deve conhecer: o Facebook. O envolvimento dele com a rede social foi tão grande que ele aconselhou Mark Zuckerberg por três anos e ajudou a levar para lá Sheryl Sandberg, a número 2 em comando e pessoa que ajudou a transformar a empresa de universitários de chinelos em um negócio bilionário.

Hoje, no entanto, McNamee diz que deixou de ser uma líder de torcida do Facebook e de outras plataformas na internet como o Google e virou um crítico em tempo integral. Ele fala sério: escreveu o livro "Zucked" (junção de "Fucked" e Zuckerberg, ou melhor, Zuck, para os íntimos) para contar a sua versão de como o Facebook virou uma catástrofe que ameaça a democracia e a saúde mental das pessoas.

Com sua obra transformada em sucesso instantâneo (entrou na lista do "New York Times" dos mais vendidos), ele passou a fazer o que chama de "missão":

É simples: eu quero jogar luz nas pessoas que estão fazendo o bem e colocar uma luz ainda mais brilhante sobre as pessoas que estão fazendo o mal

O holofote de McNamee, você já deve ter adivinhado, mira Facebook e Google. Durante o IBM Think, a conferência da gigante de tecnologia, ele contou o que o incomoda: o jeito como o modelo de negócio dessas empresas as fez passar a ignorar que seus consumidores, no fim das contas, são pessoas:

O que está acontecendo com Facebook e Google é algo que se passou com a indústria química, que, por muitos e muitos anos, não sofria restrições por descartar químicos tóxicos no rio ou no solo

"E, em algum momento, nós decidimos que isso ultrapassava os limites que estabelecemos. Isso eventualmente vai acontecer com Facebook e Google. Veremos que eles só parecem tão lucrativos devido a todos os efeitos colaterais que causam", diz.

Ainda que diga ser apenas um "consumidor preocupado", McNamee foi, durante mais de três décadas, bem mais do que isso para o mundo da tecnologia: investiu, por meio de seus diversos fundos, em empresas como Electronic Arts, Palm e Facebook; levantou capital para criar a fundação por trás da Wikipédia e ainda fundou a firma que colocou dinheiro no Alibaba, Dell e Skype.

Todos esses anos apoiando estrelas emergentes do Vale do Silício, o celeiro norte-americano de inovação, o qualificaram para virar consultor da série Silicon Valley, da HBO. Curiosamente, o seriado trata de uma startup que desenvolve uma tecnologia sensacional e cujos fundadores não têm um pingo de juízo na cabeça.

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A ideia do livro surgiu em 2016, quando ele já se aposentado havia um ano. Foi quando surgiram as primeiras notícias de que russos haviam interferido nas eleições norte-americanas usando o Facebook para manipular a opinião dos eleitores.

"Facebook e Google não fazem manipulação - pelo menos, não desse tipo. Eles só querem manipular sua atenção para que você fique mais tempo em seus sites. Para isso, disponibilizam as ferramentas que os fizeram as melhores plataformas de anúncio já criadas pelo homem."

E continua:

Mas há um problema nisso. Não são apenas os caras legais que podem usar essas ferramentas. É a mesma que russos, chineses, os iranianos agora e todo tipo de cara ruim usa

Roger McNamee

A reflexão feita no livro e transportada para o palco da conferência da IBM soa a mea-culpa, dada pela proximidade dele com o Facebook.

"Quando eu estava envolvido com o Facebook, eles nem tinha um modelo de negócio. No momento que esses caras perceberam que inventaram um sistema de resposta em tempo real, notaram que conseguiriam atingir um só indivíduo separadamente."

A partir daí, conta, conta, a empresa passou a usar chamarizes como as "curtidas" e as notificações para fazer as pessoas voltarem. "Depois, apelaram ao medo e ao ultraje para aguçar emoções que fazem todo mundo reagir da mesma forma. Você compartilha coisas de que tem medo ou com as quais fica bravo porque a melhor forma de se sentir bem é fazer todo mundo se sentir da mesma forma."

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Para ele, o Facebook não só mexe com os seus sentimentos para manter você por mais tempo por lá. Também interfere na sua noção de coletividade.

"Também há problemas para a democracia. Nós nem podemos conversar uns com os outros mais por causa da polarização. E polarização é ótimo para o modelo de negócio das plataformas de internet. E elas promovem isso. Você não pode tratar as pessoas como dígitos, tem de tratá-las como seres humanos."

McNamee diz que esse modelo de negócio, baseado na forma como a atenção das pessoas é sequestrada, "está fora de controle".

Muitas empresas de tecnologia veem seus usuários como produtos ou, pior, como combustível [de seus produtos]. E estão colocando todos em risco. Isso é errado. O que elas estão fazendo não é capitalismo, é algo totalmente distorcido

Roger McNamee

Nos últimos tempos, notadamente no ano passado, as companhias de tecnologia que fazem negócio ao criar plataformas para coletar dados de usuários passaram a ser alvo de intensa pressão política. Discute-se, por exemplo, se estão fazendo o suficiente para combater o discurso de ódio, a desinformação e outras práticas abusivas que circulam em seus sites. Diante disso, Facebook e Google são constantes alvos desse questionamento. 

McNamee, no entanto, acredita que essas empresas não criaram nenhum recurso com a intenção de causar essas controvérsias. Isso, porém, não as isenta de culpa. Ele diz que parte do planejamento delas previa e até ansiava que as polêmicas surgissem, já que, com elas, também viria o sucesso financeiro.

"Foram consequências não intencionais de uma estratégia intencional."

*o jornalista viajou a convite da IBM

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