PUBLICIDADE
Topo

Felipe Zmoginski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como a China resolveu faroeste digital e deu jeito em suas big techs

Divulgação
Imagem: Divulgação
Conteúdo exclusivo para assinantes
Felipe Zmoginski

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Fundou a Associação Brasileira de Online to Offline, foi secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia.

05/08/2021 04h00

Teorias conspiratórias são, quase sempre, mais sedutoras que a realidade. No caso da cena tech chinesa de 2021 é particularmente difícil não se deixar levar pelas teses que relacionam a recente ofensiva de Pequim contra suas empresas de tecnologia à vontade do Partido Comunista Chinês em acumular (ainda mais) poder.

O denominador comum destas narrativas é que Pequim se movimentaria para subjugar os novos bilionários digitais de seu país, que teriam se transformado em pessoas "poderosas demais" e, portanto, capazes de contestar o poder estabelecido. Logo, o governo central estaria agindo para colocá-los em seu devido lugar e preservar sua posição de poder. É uma tese razoável, mas ignora outros fatores que podem ser muito mais relevantes para a sociedade chinesa.

O que sabemos, objetivamente, é que a China executou uma política selvagem desde o fim dos anos 90 até 2019 no setor de tecnologia. Em bom português, deixou a competição correr livre no país, permitindo que as empresas mais fortes esmagassem as menos competitivas e não criando obstáculos legais à ascensão de novos modelos de negócios.

Assim, surgiram soluções brilhantes de pagamento mobile, compartilhamento de casas, carros, bicicletas e um mercado digital de publicidade e e-commerce sem par no mundo em dinamismo e volume transacionado.

Outro fato inegável é que o "faroeste digital" chinês acabou junto com a pandemia de covid-19. Após a "reabertura" da economia local, uma série de medidas regulatórias afetaram duramente gigantes como a Tencent, Didi, Alibaba e bateram forte nas empresas de tecnologia para educação, que agora devem colocar "interesses didáticos" acima dos lucros de seus acionistas.

Pode ser muito decepcionante para os conspiracionistas, mas há razões objetivas —e legítimas— para Pequim regular seu setor tech, como, aliás, fazem todos os países ricos do mundo.

Afinal, em tempos recentes, não estiveram Zuckerberg e Sundar Pichai constrangedoramente sentados na cadeira dos interrogados em sessões do Congresso americano?

Há 20 anos, Bill Gates vivia a ameaça de dividirem a Microsoft em duas empresas, acusado de práticas monopolistas, em função da onipresença do Windows entre os sistemas operacionais.

Na China, após quase 20 anos de bangue-bangue no mercado digital, seria inevitável que, em algum momento, os reguladores agissem.

Em 2018, houve um ensaio neste sentido, quando o Banco do Povo Chinês proibiu dezenas de serviços digitais de empréstimos de pessoa para pessoa, que ameaçavam a estabilidade do sistema financeiro local.

Agora, além do desejo de colocar regras mais claras para competição digital, Pequim pede o óbvio: que suas big techs definam critérios claros de privacidade e armazenamento de dados de seus usuários. Esta preocupação é particularmente importante para empresas que atraem capital estrangeiro e, portanto, precisam prestar contas para seus acionistas... estrangeiros.

A ação acontece em um momento de crescente tensão na guerra tecnológica travada entre americanos e chineses.

No início da gestão Biden, por exemplo, uma nova norma proibiu fundos de pensão locais de aplicarem o dinheiro de seus poupadores em empresas chinesas listadas nas bolsas de Nova York. É natural que a China reaja, buscando ter algum controle sobre suas estrelas tecnológicas.

Por mais simpatia que se tenha por Pequim, é impossível negar que o regime local se organize de forma mais centralizada —e autoritária— que, por exemplo, as administrações de países ocidentais, como os Estados Unidos. Mas este argumento, por si só, não explica em sua integralidade os movimentos chineses sobre suas joias tecnológicas.

Em um mundo em que o valor de mercado de uma empresa de tecnologia é frequentemente maior que o PIB de muitas grandes economias do mundo (a Apple, por exemplo, vale US$ 2,4 trilhões, valor superior aos US$ 2,04 tri do PIB brasileiro em 2020), esperar que os governos busquem regulá-las é, no mínimo, algo previsível.

E, provavelmente, é apenas isso que a China está fazendo agora.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL