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Dono da AliExpress: como o Alibaba virou uma potência global do comércio

Galpão do Alibaba na China em preparação para o Dia do Solteiro  - Aly Song/Reuters
Galpão do Alibaba na China em preparação para o Dia do Solteiro Imagem: Aly Song/Reuters

Felipe Zmoginski

Colaboração para o UOL

19/08/2018 04h00

A tecnologia é feita de nerds inventivos, que tornam realidade tecnologias nunca antes pensadas - gente como Bill Gates, Mark Zuckerberg e Steve Wozniak. Mas na gigante chinesa Alibaba, a história é diferente.

Jack Ma, o fundador da companhia é o “anti-nerd”: até os 30 anos de idade nunca tinha usado computador e as notas em matemática eram sempre baixas. Ele foi reprovado em 20 entrevistas de emprego antes de criar seu primeiro site para venda de produtos eletrônicos no final dos anos 90. E não foi sozinho: o 1688.com tinha 16 sócios!

Apesar disso, o nome já indicava que havia um gênio do marketing querendo superar obstáculos improváveis

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Nome fácil

Os chineses não utilizam caracteres romanos, mas sim com os hanzis, nome dado aos ideogramas que formam a escrita de lá. Por este motivo, era muito complicado disseminar o comércio eletrônico no país - os compradores frequentemente se atrapalhavam ao digitar as letras de um alfabeto que não era o seu e, muitas vezes, acabavam em sites falsos e vítimas de golpes. Ma então, encontrou uma solução criativa: criar um site cuja URL fosse composta apenas por números. O 1688.com era fácil e simples de digitar.

Em chinês, os números 1688 tem um som bem peculiar: "yi", "liu", "ba", "ba". Com algum esforço, é possível perceber o nome que se projetava por trás dos números: Alibaba. Tão logo os chineses se habituaram a digitar URLs com letras, Ma substituiu o endereço numérico. “É um nome bonito, fácil de pronunciar em qualquer língua e faz referência ao acesso a um tesouro. Eu sempre quis descobrir o ´abre-te sésamo´ para chegar à fortuna”, conta Ma em sua biografia.

Além de uma URL confiável, Ma criou um “seguro de compra” inédito na China, prometendo reembolsar quem fosse vítima de golpes ao comprar no site. Isso foi essencial para o desconfiado consumidor chinês abraçar o comércio eletrônico.

Jack Ma: não sabia mexer num computador até os 30 anos - Reprodução/sg.news.yahoo
Jack Ma: não sabia mexer num computador até os 30 anos
Imagem: Reprodução/sg.news.yahoo

Dia dos solteiros e gripe aviária

No esforço para ampliar o tamanho do comércio eletrônico local, o Alibaba se aproveitou de dois momentos dramáticos da vida chinesa: a solidão que assolava os milhões de camponeses que migravam para as grandes cidades e a grave crise de saúde pública de 2002 desencadeada com a Sars, a tal gripe aviária.

Para os solitários, Ma criou o “dia dos solteiros” em 11 de novembro, fazendo alusão ao números: 11/11. Neste dia, os corações solitários gozavam de descontos agressivos. A ideia pode parecer cruel, mas foi um sucesso estrondoso. Só no dia 11 de novembro de 2017, em 24 horas, vendeu-se mais de US$ 11 bilhões na China.

Para os temerosos em contrair gripe aviária, o Alibaba também se saiu com uma solução oportuna (e oportunista): “Não saia de casa, tudo o que você precisa pode ser comprado online”. Ambas as iniciativas multiplicaram o tamanho do comércio eletrônico chinês, que crescia também com os esforços públicos para incluir mais cidadãos na economia digital.

QR  Code para geral

Só que os serviços de comércio eletrônico na China ainda padeciam de um problema grave e de difícil solução: a baixa bancarização da economia local e o pouco uso do cartão de crédito no país. O Alibaba desenvolveu uma solução até então inédita, o pagamento mobile.

Com um celular qualquer, podia-se criar uma conta no AliPay e colocar créditos nela sem ter acesso a bancos ou cartões. Em qualquer caixa eletrônico, era possível depositar dinheiro numa conta da AliPay e viabilizar as compras online. Mais do que comodidade, ao pagar com AliPay, os preços eram sensivelmente mais baixos dentro da plataforma Alibaba, incentivando a migração de todos para o sistema de compras do grupo.

Hoje, o método de pagamento é aceito também em restaurantes, cafeterias, táxis, supermercados e todo varejo offline. Nas ruas chinesas, há até mendigos que pedem esmola em AliPay. O sucesso foi tamanho que Jack Ma optou por separar a operação financeira, criando a Ant Financial - o valor de US$ 542 bilhões do grupo Alibaba não inclui a empresa. 

Pirataria

O crescimento e a sofisticação do Alibaba levaram a companhia a criar inúmeras subdivisões. Entre elas está o TaoBao, serviço que segrega apenas consumidores que querem vender para outros consumidores, mais ou menos como funciona o Mercado Livre ou OLX no Brasil.

De forma um pouco mais profissional, há também o Tmall, plataforma de pequenas lojas online que vendem seus produtos e serviços para consumidores finais.

Reprodução
Imagem: Reprodução
Ambos modelos podem operar com exportações, vendendo seus produtos para clientes de mais de 200 países por meio de uma plataforma muito popular entre os brasileiros, a AliExpress.

Ocorre que, em todos os três serviços, quase não há controle sobre o que é comercializado. O espaço para a venda de mercadorias falsas, como bolsas Louis Vitton ou acessórios Prada que nunca passaram pela prancha de um designer francês ou italiano, mancha a plataforma.

Pressionado por parceiros comerciais da China e processado em muitos países, o Alibaba criou em 2014 uma central com 2 mil funcionários para identificar e excluir lojas que vendem produtos piratas em sua plataforma.

A eficiência da medida, porém, é quase nula. Uma vez descredenciado, o vendedor abre uma nova loja, com um nome diferente. Para muitos analistas, o Alibaba faz apenas jogo de cena. Finge combater a pirataria quando, na verdade, não só lucra bilhões, como cria um canal global de distribuição de produtos falsos. 

Entrevistado pela revista "Forbes", Jack Ma tentou dar ares sociais ao seu negócio. Disse que pessoas de baixa renda que sonham com uma marca de grife podem, enfim, ter acesso a um produto sofisticado... graças à falsificação. A Forbes não perdoou o escorregão. Estampou a foto de Ma na capa com o título, “Jack Ma e os 40 ladrões”. 

Carro autônomo do Alibaba para fazer entregas: plano logístico é ambicioso  - Reprodução/Alibaba
Carro autônomo do Alibaba para fazer entregas: plano logístico é ambicioso
Imagem: Reprodução/Alibaba

Logística

Para quem venceu tantas batalhas, o grupo Alibaba agora esforça-se para superar a péssima infraestrutura e logística que existe no mundo. Se na China, o progresso econômico criou aeroportos impecáveis e estradas permanentemente trafegáveis, o mesmo não se repete nos países do “cinturão da seda”, como Vietnã, Índia e Indonésia, para onde a China escoa grande parte de sua produção.

Um multibilionário plano de infraestrutura, tocado pelo governo chinês, visa assegurar que qualquer produto chinês chegue ao país destino em até 48 horas - ainda que depois fique retido na alfandega local, como ocorre em Curitiba.

Para surfar a onda, o grupo Alibaba criou mais uma empresa, a Cainiao, focada em soluções de inteligência artificial e automação logística. Ela conta com robôs que percorrem ruas em busca da entrega da “última milha” e braços mecânicos inteligentes capazes de separar e empacotar pedidos com múltiplos itens, como um smartphone, uma calça jeans e brinquedos para bebês.

Vigilância

Os avanços do Alibaba parecem não ter limites nem mesmo quando o tema é a vigilância de seu usuário. Há um ano, a companhia criou, com anuência de Pequim, o “Sesame Credit” sistema que confere pontos a cidadãos baseado em seu comportamento online.

Quem compra livros e fraldas para crianças, por exemplo, parece ser uma boa pessoa e ganha muitos pontos. Já quem passar tempo demais com jogos eletrônicos ou gastando dinheiro com álcool e cigarros, tem menor pontuação. O sistema, hoje voluntário, atrai consumidores que entregam seus dados em troca de descontos, mas esconde uma ideia perigosamente autoritária, a de hierarquizar as pessoas em boas ou más de acordo com seu estilo de vida.

Um projeto tornado público pelo governo chinês prevê que o Sesame Credit sirva de modelo para um futuro sistema de análise de cidadãos que poderá punir as pessoas com “baixa pontuação social” de passar em concursos públicos ou viajar nos modernos trens-bala chineses. Uma vigilância invasiva em um país onde não há democracia ou judiciário independente a quem se queixar.

Para quem não sabia nem o que era um computador, Ma poderá ser lembrado não apenas como barão das compras online, mas também como o pai de um Big Brother digital. 

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