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Como Harry Potter e Crepúsculo moldaram amadurecimento de toda uma geração

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Christian Dunker

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

11/09/2020 04h00

Já se vão gerações que mudaram de fase guiadas por duas narrativas de transição adolescente: "Harry Potter" e "Crepúsculo".

"Harry Potter" começa com um menino que perdeu os pais, e esta é uma experiência chave que define o fim da infância. De repente, o mundo é dominado por tios, que existem apenas para nos tiranizar, ou colegas de escola, que devotam suas existências para nos oprimir. Assim como Harry, ao entrarmos na adolescência, perdemos o sentimento de segurança e proteção que os pais antes nos ofereciam.

Em troca, entramos em um novo universo feito de representações e falsas obrigações. Em "Harry Potter", este sentimento de impostura e inautenticidade é gradualmente substituído pelo encontro da "verdadeira escola". Uma escola tal como ela deveria ser, com desafios reais, atos e consequências cruéis, às vezes, dolorosamente sem volta.

Apesar de vividos pelo encontro com seres imaginários, os desafios são reais. Impostores são reconhecidos, falsos aliados se revelam, amigos inusitados aparecem no lugar de outros, antes sentidos como insubstituíveis. A saga começa com uma fórmula ancestral, revelando a cada novo filme o desmascaramento entre bonzinhos e maléficos.

Para uma geração que descobriu que "ser legal" é uma atitude, não um roteiro disciplinar a ser cumprido, Harry Potter é uma espécie de romance de formação, como "Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister", de Goethe, no século 18.

Harry é o pequeno babaca legal que existe dentro de todos nós. Ele ainda não se descobriu assim, pois nunca está demasiadamente preocupado consigo mesmo. A civilização escolar medieval não quer saber de suas boas intenções, ela segue a máxima de nossa indiferença educacional: faça o que deve, pense o que quiser, divirta-se sempre que possível. É assim que ela fornece a estrutura narrativa que prepara nossos jovens para vidas organizadas ao modo de uma carreira.

Desde os RPGs como "Dungeons & Dragons", na década de 1990, até os videogames da série Mario Bros., nos anos 2000, chegando ao atual "Call of Duty", a vida é apresentada como um corredor. Não se preocupe muito em escolher os obstáculos, alguém vai fazer isso por você. O importante é que você esteja preparado para a próxima fase.

No decorrer da série Harry Potter, os cenários ficam mais sombrios, passando do cômico ao trágico. Há uma divisão da realidade entre os que representam a ordem do mundo como a conhecemos —os chamados trouxas- e os que vivem a realidade paralela de Hogwarts.

Lord Voldemort é nosso representante adulto no mundo da magia. Tal qual um típico adulto predador, ele se alimenta do sangue de unicórnios. Sempre em processo de regeneração de seu corpo perdido, "aquele cujo nome não deve ser pronunciado" tenta voltar da morte.

As "Relíquias da Morte" são a história dentro da história, o ponto no qual a ficção nos apresenta seu fragmento de verdade sobre o real. São três as relíquias: a varinha capaz de destruir qualquer coisa, a pedra que traz alguém de volta do reino dos mortos e a capa da invisibilidade. Trazer os mortos de volta e destruir nossos inimigos são valores bem "trouxas". A nova aptidão, reservada a Harry, é a incrível possibilidade de permanecer invisível. Curiosa proteção para uma época que mede o sucesso pelo coeficiente de visibilidade.

Voldemort são nossas cirurgias plásticas, nossa linguagem cifrada entre cobras do mundo profissional, nosso exército de zumbis corporativos, nossa orientação para resultados a custos devastadores. O nariz de Voldemort parece mal constituído, meio nublado e disforme, como que a revelar que há algo de suspeito no personagem. São como figuras de Escher, que precisam ser vistas em determinado ângulo para produzir uma forma harmoniosa, e que olhadas ingenuamente aparecem como uma nódoa ou uma imperfeição na imagem. Ótima representação para os trouxas, obcecados por um pequeno detalhe narcísico que absorve para si toda a importância do universo.

Dumbledore é o diretor da escola. Professor perfeito: atrapalhado, mas certeiro na inversão de regras, ambíguo, mas decidido quanto ao seu lugar. O sujeito certo para administrar um universo em indeterminação constante. Quando o cinema quis inventar uma amante de juventude, J. K. Rowling vetou afirmando que queria ele como um personagem sugestivamente homossexual.

Harry Potter teve seu momento multicultural, com a invasão de orientais, indianos, africanos que exprimiam esta ideia de que teremos uma nova geração de jovens adultos avessos à segregação. Parece que a coisa não pegou e a superpopulação dos filmes intermediários deu lugar ao isolamento e devastação que nos episódios finais parasitam a estética da saga "Crepúsculo". Também não funcionou a ideia de que Harry teria uma namorada, escolhida em concurso público.

Não podemos entender esta geração sem ligar Harry Potter a sua saga complementar invertida, cujo tema é o namoro, ou seja, "Crepúsculo". Ter uma namorada levaria Harry, imediatamente, a assumir sua face Voldemort. É só no final que descobrimos como Harry e seu duplo malvado possuem algo íntimo em comum, mesmo que isso já se anunciasse em sua cicatriz. Nem o multiculturalismo nem a hipótese sexual de Harry serão abandonados, mas integrados em um problema mais simples: a vida real já está cheia de dragões, fênix, hipogrifos, dementadores, comensais da morte.

Como na vida real é o inesperado Neville que surge do nada, como no poema de Drummond, para salvar Hogwarts. Aqui talvez se trate da recuperação dialética do personagem histórico Neville Chamberlain, primeiro-ministro inglês que antecedeu Churchill. O sujeito achava que entregando alguns territórios para Hitler ele iria sossegar. Voltou para casa satisfeito e orgulhoso por ter evitado a guerra, para logo depois descobrir que se tornaria o protótipo mundial do trouxa bem-intencionado. Desta vez, Neville deu a volta por cima e mostrou que nem toda concessão é covardia e nem toda prudência é falta de atitude.

saga crepusculo - Divulgação - Divulgação
Taylor Lautner (esq), Kristen Stewart e Robert Pattinson em cena de "A Saga Crepúsculo: Eclipse"
Imagem: Divulgação

O segundo modelo de passagem da infância para a adolescência é naturalmente representado pela saga "Crepúsculo". Aqui a trama assume como protagonista uma menina que inicia sua adolescência chegando a uma terra desconhecida. Ela tem que se haver com um pai que de repente se torna um estranho.

Deixar-se picar não é apenas uma metáfora razoável para o ato sexual, que depois de iniciado não para nunca mais, mas também um confronto reconciliatório com monstros imaginários.

Como se trata de uma versão mais feminina da adolescência, o processo de decisão e de reconhecimento na alteridade fica mais claro desde o início. Bella pratica um desdobramento contínuo de escolha cujas implicações lhe são obscuras, sem que ela saiba exatamente o que está escolhendo. Ela quer saber onde está a saída, mas a cada vez descobrimos que é ela mesma quem fecha as portas pelas quais poderia querer retornar.

O nariz de Voldemort é perfeito para representar este ponto de contato entre as duas histórias. Lembremos que seu nariz deformado é um defeito causado pelo excesso oral praticado sobre os unicórnios rejuvenescedores. Os unicórnios eram seres que só poderiam ser capturados quando uma virgem se aproximasse deles, quando estivessem bebendo água. Foi assim que eles mesmos passaram a representar a pureza e a virgindade, como se vê em inúmeras tapeçarias medievais. Ora o nariz de Voldemort é o sintoma de como a essência dos adultos trouxas, a forma fundamental de sua maldade, consiste em vampirizar o estilo de vida adolescente.

No final, Harry Potter descobre que não é assim tão estranho a Voldemort. Eis aí um modelo da passagem da criança ao adulto, sintetizada magistralmente na cena em que Harry Potter quebra a varinha que reunia sobre si "todos os poderes". Tornar-se adulto é descobrir que tal varinha não existe, que ela foi uma criação necessária e provisória de nossa adolescência.

Como diria o sábio Dumbledore: "São as nossas escolhas, Harry, que revelam o que realmente somos, muito mais do que as nossas qualidades". Perfeito para uma geração que está cansando do sucesso baseado em evidências de talento.

O mal, antes vivido em figuras exteriores, quase sem imagem ou forma, vai se integrando gradualmente como parte de Harry. Para ter uma imagem de verdade é preciso absorver este ponto que a contradiz e denuncia como imagem perfeita. Este ponto que torna tudo ridiculamente autêntico é o nariz crepuscular de Voldemort.

Nas duas histórias aprendemos a ser realmente corajosos e a formar alguma coragem ou covardia diante da vida. Ambas trazem um mesmo valor que sobrevive à prova da experiência e dos interesses: a amizade tensa entre Rony, Hermione e Harry; a amizade precária entre vampiros homens e lobisomens. Absorver o nariz de Voldemort e manter a amizade de pé são as duas tarefas que a geração Harry Potter terá pela frente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.