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Blog do Dunker

Qual o segredo da ficção científica que imagina o futuro e vira realidade

Cena do filme "Metrópolis", de Fritz Lang - Divulgação
Cena do filme "Metrópolis", de Fritz Lang Imagem: Divulgação
Christian Dunker

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

28/08/2020 04h00Atualizada em 02/09/2020 11h48

Uma das experiências mais interessantes para alguém que acompanha a literatura de ficção científica é perceber como nossas figurações do futuro se alteram ao longo do tempo.

Costuma-se atribuir o primeiro livro de ficção científica a Luciano Samóstata, que em II d.C. escreveu a "História Verdadeira" tentando mostrar que os contos fabulosos e as diferentes lendas helênicas poderiam estar a nos falar mais de nossos medos futuros do que de nossas realidades passadas.

Em tempos de fake news e pós-verdade seria preciso observar que se tratava antes de tudo de perceber a existência de histórias que poderiam ser falsas, ou seja, a hipótese da falsidade inaugura o registro de ficção como dependente do conceito de "hipótese". Aliás, fictio em latim quer dizer exatamente hipótese.

Essa foi uma tese levada ao limite pelo psicanalista Jacques Lacan ao afirmar que a verdade tem estrutura de ficção. A ideia não deve ser compreendida como um elogio ao relativismo, mas como qualquer valor de verdade depende de um mundo possível ou dos axiomas que regem este mundo possível como conjunto de hipóteses válidas e de operações legítimas nesta "realidade" ou "mundo" específico. Introduzimos assim uma problemática que é covariante com a da verdade, ou seja, a do Real.

Classicamente separamos o gênero documentário do gênero ficção tendo em vista a verdade factual, do que aconteceu contra o que não aconteceu. Estamos como um advogado ou um juiz diante de um crime, as voltas com um conjunto de regras mais ou menos constituídas, avaliando uma realidade acabada.

A ficção científica representa um gênero peculiar, não porque se baseie em "fatos reais", mas porque ela é uma história que "ainda" não é de-todo-verdadeira, mas que pode vir a ser. Um gênero que aponta para o fato de que nossa realidade não é feita só de passado e de presente, mas também de futuro. Quem disser que isso não nos afeta está violando a importância das previsões, dos pessimismos ou otimismos do mercado, está desconhecendo também o papel crucial do futuro para nossa vida psíquica. Sem esta dimensão não poderíamos pensar todo o universo de promessas e consequentemente de contratos entre seres humanos.

Quando Julio Verne escreveu "Da Terra à Lua" em 1865, a viagem ao satélite não era efetivamente possível. Tecnicamente era uma ilusão. Mas neste ponto a ficção científica deveria ser separada de outras modalidades de hipóteses, por exemplo, com as hipóteses metafísicas e dos delírios.

Para Freud, os delírios continham um pouco de verdade, tanto porque eles eram formados pelos ingredientes temáticos e narrativos de uma época, quanto porque eles são deformações características que retêm aquilo que uma determinada época não pode reconhecer ou admitir para existir, enquanto realidade coerente, unitária e fechada em si mesma. Portanto, os delírios não são crenças falsas, não partilhadas pela maior parte das pessoas. Há crenças heterodoxas e absolutamente idiossincráticas que não são delirantes.

O que define um delírio não é o conteúdo de uma crença, mas a sua função psíquica, por isso ele não é uma questão de fatos, mas do coeficiente de certeza e corrigibilidade. Ou seja, o delírio depende mais da qualidade da hipótese do que de sua veracidade ou falsidade. A qualidade da hipótese é, em suma, sua aceitação como conjectura, ou seja, seu estatuto metafórico ou sua estrutura de "como se". Por isso se pode falar em uma movimentação do futuro, em um futuro do futuro, que é criado a cada vez, a cada momento presente.

Por exemplo, no seriado "Jornada nas Estrelas" ("Star Trek"), de Gene Roddenberry, de 1966, uma nave espacial viaja por lugares onde o ser humano nunca antes esteve, obedecendo a lei de não intrusão e interferência nas formas de vida encontradas. Podemos pensar no contexto local de chegada à Lua, de expansão da tecnologia de foguetes, tudo isso representando uma extensão projetiva do presente dado, em um futuro que acelera e otimiza o que já era possível pensar e fazer.

Por outro lado, observamos que a sala de comando era composta por um russo (Tchecov), uma oficial de telecomunicações negra (Uhura), um americano (capitão Kirk), um inglês (Scott) e um híbrido terráqueo-vulcano (Spock). Ou seja, a ficção adiantava o multiculturalismo vindouro com um imaginável fim da Guerra Fria (com os americanos no comando é claro). Mas quando o futuro chega e nos encontramos com torres de comando multiculturais, percebemos que o que nos tinha sido sonhado foi cumprido e que não podemos mais nos imaginar sem ter sido forjados por este tipo de ilusão.

Cena de "Blade Runner" - Reprodução - Reprodução
Cena de "Blade Runner"
Imagem: Reprodução

Temos que prestar atenção agora ao conceito de estrutura, ou seja, se a verdade tem estrutura de ficção, não é só porque estruturas são hipóteses formais sobre as regras de um determinado mundo. Aqui vale a pena reconhecer uma certa regularidade em nossos modos de criar futuros possíveis.

Mencionei a "História Verdadeira", que é narrada ao modo de uma viagem, depois "Jornada nas Estrelas", outra viagem, e poderia em seguida ter me referido à "Matrix", das irmãs Wachowski (1999-2003), como exemplo maior de ficção cientifica da virada do século 20.

Quase sempre estes mundos hipotéticos se organizam em torno de viagens. São histórias de viagens, a Odisseia, as gestas de cavalaria, as histórias de guerra bem como as descobertas de novos mundos como o Oriente e depois as Américas. Há viagens ao mundo interior, como Clarice Lispector e Virgínia Woolf, e viagens, através de cidades, causadas por colonizações externas e internas, como o "Ulisses" de Joyce. Há viagens por causas de guerras, de buscas ou pesquisas e de exílios ou desterros. Há viagens que definem a loucura, como a de "Hamlet" e Dom Quixote e viagens que colocam em questão a sobrevivência da identidade, como "Robinson Crusoé". A viagem se presta a representa o futuro pois ela mimetiza um fluxo para outro llugar, e o futuro, como estamos argumentadno aqui é também um lugar.

Ora, a estrutura da viagem presume por sua vez que tenhamos um ponto de partida e um marcador do tempo. Este ponto de partida é naturalmente a família ou a cidade onde nascemos. Daí que ficções científicas frequentemente estruturem a verdade ao modo de uma cidade. Basta pensar nas utopias medievais, da "Cidade e o Céu" de Campanella até a tríade "Metropolis" (Fritz Lang, 1927), "Alphaville "(Jean-Luc Godard, 1965) e "A Origem" (Christopher Nolan, 2010) para ver a cidade como lugar do conflito e sua pacificação são o tópos fundamental de nossas alegorias do futuro, quando estas partem da transformação de nossos modos de relação ao presente.

Nesta estrutura trata-se da reinvenção do passado como uma outra casa, uma outra origem, um outro nascimento. A hipótese recorrente de que é possível deixar de pertencer ao próprio passado, que nos determina. A hipótese de que é possível "começar de novo", encontra o fato histórico de que, de fato, ao migrar para as grandes cidades, por exemplo, durante a revolução industrial do século 19, era possível tornar-se anônimo, deixar de ser aquele alguém marcado e genealogicamente conhecido no ambiente rural de comum reconhecimento.

Se a cidade é o marcador de origem no espaço, o corpo parece ser o marcador do tempo. Tempo necessário para que toda viagem se cumpra e se realize. O corpo, enquanto experiência funciona muito bem para representar tanto aquilo que se transforma, porque envelhece, acumula cicatrizes e rugas, mas ao mesmo tempo permanece o mesmo, porque ele nos representa em nossa identidade contínua.

Assassin's Creed - Divulgação/Ubisoft - Divulgação/Ubisoft
Cena do game Assassin's Creed
Imagem: Divulgação/Ubisoft

A cicatriz de Ulisses, que permite que ele seja reconhecido por Penélope, os pés inchados de Édipo, as marcas de envelhecimento do corpo, os traços de experiência que nele se acumulam, como uma memória viva e ambulante são fontes permanentes para a ficção científica desde o "Frankenstein", de Mary Shelley, de 1818, passamos por "A Noite dos Mortos-Vivos" o primeiro filme de zumbis dirigido por George Romero em 1968, chegando a "Blade Runner", de Ridley Scott, de 1982.

Temos aqui a despossessão do presente como signo de um outro corpo dentro deste corpo. Daí que a solução seja se apropriar do futuro do presente. Se a ficção sobre a cidade é uma reinvenção do presente, a ficção do outro corpo é uma reinvenção compartilhada do passado.

O leitor pode ter se inquietado até aqui porque nossos exemplos alcançam no máximo os anos 2010, como se nada de relevante em termos de ficção científica tivesse sido produzido depois disso. De certa forma, isso é verdade na medida que as ficções passam a ser administradas por engenhos previsíveis como o computador quântico e a inteligência artificial, que já nos antecipam maravilhas imediatamente tangíveis e imaginações suficientemente maravilhosas, para que nossa ficção tenha que trabalhar mais ainda sobre o assunto.

Se antes era preciso hipotetizar tecnologias por vir para alcançar objetivos claramente enunciáveis, parece que agora os objetivos são difusos, meio gastos e um tanto envelhecidos: Colonizar Marte? Prolongar a vida indefinidamente? Curar doenças? Vencer o colapso ambiental?

Por outro lado, a nossa capacidade de hipotetizar tecnologias parece ter se realizado em projetos objetivamente tangíveis: dominar o funcionamento do cérebro, habilitar intervenções genéticas, instrumentalizar propriedades subatômicas. Todas elas tarefas, que em 1990 imaginávamos cumpridas e realizadas em 2020.

Quando um epidemia causada por um RNA envolto em uma capa de gordura não é vencida pelo Watson e nem por todas as máquinas capazes de derrotar os melhores jogadores de xadrez ou Go do mundo, começamos a nos perguntar, afinal, se nossas promessas futurológicas não acabaram sobrepujando e ocupando indevidamente o lugar do que deveria permanecer como ficção científica.

Mas há um lugar onde as ficções científicas assumiram um outro formato: os vídeogames e suas narrativas cada vez mais longas e complexas, cuja estrutura é naturalmente a de cidades (como "Civilization", "Sim City" e "Horizon Zero Dawn"), viagens (como "No Man Sky", "Outer Words, "Full Out" e o clássico "Pokemon") e corpo (como "Deus Ex", "Bio Shock").

Se há um futuro do futuro, enquanto categoria ligada à ficção e ao real, ele depende de como as hipóteses transformativas serão redimensionadas nesta nova linguagem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.