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Digno da geração passada, "Crackdown 3" até diverte, mas nasce defasado

Daniel Esdras

Do GameHall

27/02/2019 04h00

"Crackdown 3" é direto e explosivo. Depois de uma pequena introdução dedicada aos que não jogaram os capítulos anteriores da série, você é levado imediatamente para uma tela de seleção onde escolhe o seu agente, muito provavelmente o interpretado pelo Terry Crews, e já é jogado na ação frenética, que a partir desse momento não diminui de ritmo até o final do jogo.

O novo exclusivo de Xbox é simples nas mecânicas e feito para jogar sem ligar muito para narrativas pesadas ou missões complexas. O game tem como intenção fazer o jogador se sentir um agente superpoderoso, quase um herói de gibi, que pode resolver qualquer problema usando seus punhos e armas, sempre em favor dos fracos e oprimidos. O resultado não é memorável, mas pelo menos é bem divertido.

Corporação gananciosa e distopia

O game se passa na cidade de Nova Providência, onde uma corporação chamada Terra Nova se apossou do Estado e submete a população local aos seus desejos gananciosos com mãos de ferro. A história aqui é bem simples mesmo, o clássico bem contra o mal. Os protagonistas são totalmente bonzinhos, lutando sempre pelo bem da população local, enquanto os vilões são seres humanos totalmente malignos, cuja única salvação é a destruição total.

Nesse mundo distópico o agente é responsável por liderar uma verdadeira revolução para derrubar a corporação e seus líderes. Para isso é preciso destruir cada departamento da Terra Nova: defesa, logística e indústria.

Ao derrotar um chefe, você descobre informações sobre o seu superior - Reprodução
Ao derrotar um chefe, você descobre informações sobre o seu superior
Imagem: Reprodução

Esses setores são geridos por tenentes que vão desde uma inteligência artificial com crise de existência até cientistas e militares loucos. Pense em um sistema como o "nemesis" de "Sombras da Guerra", mas de forma mais simplificada. Você destrói e conquista as edificações da corporação para que o tenente desse setor apareça para te enfrentar e, ao vencer, você recebe informações sobre o líder local.

No decorrer do jogo fica nítido que seus atos geram uma reação da população local. Ao modificar as torres de propaganda da corporação para espalhar discursos inflamados da agência, ou mesmo liberar rebeldes presos, você atrai novos membros para a resistência local, que te ajuda durante as batalhas pela cidade ao pegar em armas.

A ambientação de "Crackdown 3" é bem executada, trazendo distritos diversos, cada um com sua própria identidade. Alguns lugares exalam o luxo e riqueza das elites que dominam o local, com carros esportivos e prédios enormes e bem protegidos. Já a parte mais periférica exibe não só a pobreza, mas as consequências da utilização sem limites da Quimera, um agente químico que foi o responsável pela riqueza da Terra Nova. Uma característica que todas áreas têm em comum é aquela pegada com cores em neon para garantir o futurismo.

Gameplay defasado

"Crackdown 3" ficou bastante tempo no forno até ser lançado nesse ano. O jogo foi anunciado ainda em 2014 com expectativa de lançamento para 2016, mas depois de diversos adiamentos e problemas na equipe de desenvolvimento, acabou chegando só agora, já em fevereiro de 2019.

O resultado de um desenvolvimento conturbado normalmente é um jogo repleto de bugs, com partes incompletas, ou um game defasado em relação à concorrência. "Crackdown 3" cai nessa segunda categoria.

Por ser estilizado como um cartoon, o visual resistiu bem apesar do tempo de desenvolvimento, mas as animações ficaram bem abaixo do esperado para um jogo desse porte. Os civis da cidade são mal animados e têm texturas de baixa resolução. O comportamento deles é bobo e eles não dão vida à cidade, que parece povoada por robôs pouco inteligentes.

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O principal problema está nas decisões de gameplay. Ao se apegar demais nos títulos anteriores da série e ser pouco ambicioso, o jogo acaba propondo uma repetição que cansa rápido, típica de jogos sandbox da geração passada que não tinham o orçamento de um "GTA", mas tentavam criar um mundo aberto com o mesmo escopo.

As atividades do mapa são as mesmas do início ao fim, como se o jogo fosse uma lista de pequenas ações parecidas para se concluir, que em outros jogos são no máximo missões secundárias pouco inspiradas. De positivo ficam as torres de propaganda, que possuem minigames divertidos de plataforma.

O combate traz um sistema de mira que é arcaico e bobo. Se você travar a mira no inimigo, basta pressionar o botão de atirar que você não precisa se preocupar em fazer ajustes no alvo. O jogo faz isso por você, que fica responsável só por pular ou girar para escapar de um ou outro disparo adversário. Isso é exatamente o contrário da evolução dos jogos de tiro em terceira pessoa mais recentes.

No sistema de progressão, não é o jogador que escolhe quais habilidades melhorar. Os orbes coletados e suas ações - usar armas, carros, socos - definem em qual área seu personagem vai evoluir, mas a progressão é linear e não deixa espaço para escolhas, o que acaba te deixando passivo no processo. Isso também vai na contramão das tendências de jogos mais modernos.

Ao coletar orbes escondidos você recebe experiência nas suas diversas habilidades - Reprodução
Ao coletar orbes escondidos você recebe experiência nas suas diversas habilidades
Imagem: Reprodução

"Crackdown 3" também traz uma interface poluída, ao contrário de games mais recentes, que têm tentado deixar a tela o mais limpa possível. Do lado esquerdo da TV, o jogo exibe ícones de todas as áreas que seu personagem pode evoluir, detalhes que poderiam estar em um menu de fácil acesso.

As três armas possíveis de carregar, por sua vez, ficam  do lado direito com número de munição, tipo e quantidade de granadas sempre visíveis. Some isso ao minimapa, aos ícones dos inimigos, números de dano, indicativo de procurado e, ufa, a barra de vida exibida no combate e temos uma festa de intrusão na navegação.

A interface é muito poluída e tira a atenção do que importa - Reprodução
A interface é muito poluída e tira a atenção do que importa
Imagem: Reprodução

O melhor do jogo está na luta contra os chefes, que nas dificuldades mais elevadas podem ser realmente desafiadores. Isso se aplica especialmente no caso dos de cargos mais elevados, que possuem um modus operandi específico para a batalha, deixando tudo mais divertido e exigindo, geralmente, que o jogador tenha melhorado suas habilidades.

Multiplayer divertido, mas limitado

O multiplayer, chamado de Área de Demolição, é um download à parte e tem seus altos e baixos. O caos presente na campanha e as armas altamente destrutivas estão presentes aqui também, igualmente divertidos. Já a estética interessante de Nova Providência, não.

O maior diferencial é o cenário totalmente destrutivo. Você pode derrubar pontes, prédios e arrebentar paredes na busca pelos seus inimigos. A parte gráfica da destruição não é impressionante como foi mostrado nos primeiros trailers de anos atrás, mas, com as dificuldades até o lançamento, foi positiva a manutenção dessas mecânicas, já são bem divertidas.

O cenário é totalmente destrutível no multiplayer - Reprodução
O cenário é totalmente destrutível no multiplayer
Imagem: Reprodução

Com apenas dois modos de jogo até o momento - mata-mata e domínio de territórios - o multiplayer acaba ficando cansativo rápido. Ele até pode se tornar uma boa alternativa para os jogadores com a adição de novos conteúdos, mas o que está disponível no lançamento é discreto.

O multiplayer, assim como outros detalhes da campanha, mostram que "Crackdown 3" acabou chegando defasado depois de um longo e conturbado tempo de produção. O game tomou várias decisões na contramão das evoluções que ocorreram na indústria, em especial na jogabilidade.

"Crackdown 3" teria sido um bom jogo no início da geração passada, mas na atual ele é apenas mais um game mediano que tem seus momentos divertidos. Para quem não assina o Game Pass, a nossa recomendação é deixar essa passar.

Nota: 6

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