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Dólar a R$ 4 já faz TVs cortarem custos e programas

"Superstar", apresentado por Fernanda Lima, pode não ocorrer ano que vem - Divulgação/TV Globo
"Superstar", apresentado por Fernanda Lima, pode não ocorrer ano que vem Imagem: Divulgação/TV Globo
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

05/10/2015 07h00

O dólar na casa dos R$ 4 não é ruim apenas para a economia e o bolso do brasileiro. As TVs abertas estão sofrendo muito mais os efeitos do câmbio elevado das últimas semanas. Pior: se o dólar continuar no atual patamar ou aumentar, ele vai causar uma reviravolta completa nos planos de algumas emissoras.

O motivo é que quase todas as TVs abertas não só têm antigas dívidas em dólar (pela compra de equipamentos, por exemplo, que ocorre quase todo ano), mas principalmente porque consomem produtos pagos em dólar. A saber, filmes e reality shows, além de torneios internacionais esportivos, como Copa e Olimpíadas.

Por exemplo, estima-se que a Globo pague a Endemol, em média, cerca de US$ 2 milhões (R$ 8 milhões) anuais só pela franquia de cada edição do "BBB".

Em reais, isso é mais que o dobro do que a emissora pagava dois anos atrás. A Globo ainda tem outros reality shows, como o "The Voice", o "Dança com Famosos", "Superstar", e o "TUF (Ultimate Fighter Brasil). Este último e o "Superstar", por exemplo, podem já nem ocorrer no próximo ano.

E ainda existem os direitos esportivos como Olimpíadas, Copa do Mundo, Copa dos Campeões da Uefa, Formula 1, Liga de Volei. Só em direitos esportivos a Globo deve gastar mais de US$ 1  bilhão nos próximos 4 anos.

Só uma Copa do Mundo, por exemplo, custa mais de 200 milhões de dólares --e a Globo já comprou duas, Rússia e Qatar. Pela a Olimpíada do Rio, a Globo pagou outros 140 milhões de dólares, e outros US$ 40 milhões em mídia. A próxima Olimpíada, em Tóquio, deve custar o mesmo.

Porém, o faturamento da Globo lhe permite manter seus principais programas: a emissora tem um enorme lucro líquido anual, superior ao faturamento inteiro da Record, por exemplo.

A Record também tem muitos produtos em dólar como "A Fazenda" (estima-se em US$ 1 milhão anuais pagos à detentora dos direitos) e o "Troca de Família". Mas boa parte da dívida da Record (que a emissora não revela) se baseia na compra de equipamentos de última geração.

Para reduzir custos em dólar a emissora já suspendeu a compra de novos equipamentos, e também de novos formatos estrangeiros.

Além disso a emissora está reduzindo custos em produções dramatúrgicas, sob a forma de parcerias, além de reduzir gastos de produção e pessoal nos nababescos estúdios da Rec9, no Rio.

No entanto, o fluxo de caixa da Record é suficiente para que a emissora não tenha de se preocupar em curto e médio prazo com o dólar a R$ 4.

O SBT também tem produtos pagos em dólar, como o "Cozinha sob Pressão" e o Bake Off". Seus principais conteúdos, de origem mexicana, também são pagos em dólar.

O contrato atual com a Disney, segundo esta coluna apurou, é de parceria, então nesse caso a emissora de Silvio Santos se livrou de arranjar mais dívidas em moeda forte.

No entanto, o SBT ainda sofre os efeitos da crise que envolveu o Grupo Silvio Santos nos últimos anos, com a quebra do banco Panamericano e já abriu mão do contrato de exclusividade com a distribuidora americana Warner.

Além disso o dólar a R$ 4 está pressionando outra empresa do Grupo SS: a Jequiti cosméticos, que utiliza muitos insumos importados

Band

De todas as emissoras abertas, a que está mais fragilizada com a alta do dólar é a Band. A emissora tinha dívidas já antigas em dólar (não revela quanto) e há alguns anos tenta resolver essa equação: reduzir o déficit em dólar e ampliar as receitas em reais.

Para isso, a emissora no ano passado vendeu suas antenas, e hoje é uma das que mais vende horários para produções independentes e igrejas. Sua principal cliente é a Igreja Universal, que paga alto pelas madrugadas e também pelo canal 21 (UHF).

O "Masterchef", por exemplo, é um sucesso de público, faturamento e crítica, mas até isso pode prejudicar a emissora.

A produtora holandesa Eyeworks ainda estaria esperando o pagamento dos royalties deste ano, e ainda há o risco dela aumentar o preço cobrado para a edição 2016, colocando ainda mais pressão sobre a Band.

A próxima edição do "Masterchef", portanto, ainda não está 100% garantida, justamente pela incerteza em relação ao dólar. Agora os direitos e produção são da Endemol Brasil.

A Band ainda tem outros produtos comprados em moeda norte-americana, como os direitos do desenho "Simpsons", e seriados como "iCarly" e "Wendell & Winnie" (Nicleodeon), além de filmes.

Menor entre as TVs abertas, a RedeTV! é justamente a que está sofrendo menos com a alta do dólar. A direção da casa conseguiu equacionar dívidas e receitas cerca de três anos atrás, quando atravessou uma crise.

Além disso, a emissora de Amílcare Dallevo e Marcelo de Carvalho tem uma grande receita obtida com a venda de horários para programas religiosos. Essa é uma receita líquida, a emissora só abocanha lucros

Hoje, a RedeTV! tem todos os pagamentos em dia, dívidas saneadas e, principalmente quase nenhum conteúdo comprado em dólar (exceto o "Mega Senha").

Além disso a RedeTV! é uma das emissoras que têm mais formatos próprios em sua grade, como o "Encrenca", o "Superpop", o "Sensacional", além dos jornalísticos. E já exporta produtos de entretenimento como as atrações comandadas por João Kleber.

Eis um exemplo prático de "os últimos serão os primeiros". Pelo menos em relação ao câmbio estratosférico atual.