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'Darkman': 30 anos atrás Sam Raimi criou um super-herói para chamar de seu

Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

28/08/2020 00h25

"Darkman - Vingança Sem Rosto" levou aos cinemas um super-herói quando os cinemas nem pensavam em capitalizar e cima de super-heróis! A aventura, que Sam Raimi dirigiu três décadas atrás, preencheu uma lacuna em uma época em que personagens de gibis eram considerados produtos tóxicos em outras mídias. "Batman", lançado um ano antes, começou a mudar essa percepção. E Raimi estava pronto para entrar nesse mundo.

O diretor até então tinha feito barulho no circuito alternativo com seus dois "The Evil Dead" - batizados no Brasil "A Morte do Demônio" e "Uma Noite Alucinante". O próximo passo seria encarar uma produção mais parruda, e Raimi mirou no anti-herói da literatura pulp "O Sombra". Seus direitos, porém, estavam nas mãos de Robert Zemeckis (um filme seria feito em 1994 com Alec Baldwin no papel principal), então Raimi decidiu criar seu protagonista do zero.

Não exatamente "do zero". "Darkman" é fruto das paixões do diretor. Dos gibis do Batman e do Homem-Aranha aos monstros clássicos da Universal - tudo empacotado em uma embalagem elegante e peculiar. A própria Universal bancou o filme, mas quando as filmagens terminaram ficou claro que eles não entendiam o produto em mãos. Apesar de ter dado carta-branca a Raimi por conta do sucesso de "Batman" e da demanda reprimida do público por personagens fantásticos, a incerteza bateu na forma de como vender um herói novo.

Parte terror, parte comédia sombria, "Darkman" certamente é um filme estranho. Liam Neeson, aqui encabeçando um grande filme pela primeira vez, é um cientista, Peyton Westlake, que trabalha em uma fórmula de pele artificial para ajudar vítimas de queimaduras. Vitimado incidentalmente por um empresário ganancioso, ele é atacado por capangas e explode junto a seu laboratório. Horrivelmente desfigurado, Peyton descobre ter força física ampliada por disparos de adrenalina, que também o deixam imune à dor.

Ele parte então em busca de vingança, além de proteger a mulher que ama (Frances McDormand), usando sua fórmula: por uma hora, a pele artificial o deixa capaz de assumir a identidade de qualquer um, antes de a fórmula se dissolver na luz. É o gancho para o nascimento de um herói marcado pela tragédia, emoldurado por um filme de apelo assumidamente pop.

O estúdio exigiu uma nova montagem para "explicar" melhor a trama ao público. Raimi, por sua vez, frustrou-se com a interferência e aos poucos se afastou do projeto. Seu produtor, porém, articulou nos bastidores para que "Darkman" fosse a público com a visão de seu diretor intacta, uma tática de guerrilha que o estúdio só percebeu quando o filme estava prestes a chegar aos cinemas.

darkman poster - Universal - Universal
Poster da campanha de 'Darkman - Vingança Sem Rosto'
Imagem: Universal

"Darkman" não foi um fenômeno nas telas como outros filmes em 1990 (o ano, como comentei aqui, foi dominado por "Ghost", "Esqueceram de Mim", "Uma Linda Mulher" e "Dança Com Lobos"). Mas a campanha esperta (ancorada em uma única frase, "quem é Darkman?") impulsionou a bilheteria mundial de US$ 50 milhões com um orçamento de US$ 16 milhões. Ao lado de "As Tartarugas Ninja", mostrou a viabilidade de heróis pouco convencionais fora da bolha geek.

É curioso ver como hoje, trinta anos depois, "Darkman" inspirou o tom de tantos filmes com super-heróis, mesclando com inteligência ação e terror, comédia e romance. Foi uma aposta que revelou grandes atores e fez de Sam Raimi um diretor a ser notado. E que ajudou a firmar os heróis dos gibis como uma força a ser reconhecia pouco mais de uma década depois, quando dirigiu "Homem-Aranha" e fez história. É este meu comentário na coluna da semana no canal do UOL no YouTube.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL