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Pedro Antunes

Pedro Sampaio, das festinhas da vovó ao Grammy 2021

DJ e produtor Pedro Sampaio - Montagem sobre foto de Rodolfo Magalhães / Divulgação
DJ e produtor Pedro Sampaio Imagem: Montagem sobre foto de Rodolfo Magalhães / Divulgação
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

25/05/2021 13h00

Sem tempo?

  • Você já se viu dizendo o slogan de “Pe-dro Sam-pai-o” que eu sei
  • Aqui, conto a história do produtor que, com 23 anos, levou o funk carioca para o Grammy 2021, mesmo que sem querer.
  • E, de repente, Pedro Sampaio esteve no centro da discussão sobre a exportação do funk para o mundo.
  • Para mim, o funk  tem o mesmo potencial gigantesco que o reggaeton, diz Pedro Sampaio
  • Leia abaixo mais sobre a origem do jovem DJ e produtor, das festinhas da vovó até a surpresa no Grammy 2021

Por R$ 50 de cachê, Pedro Sampaio seria o DJ da sua festinha, fosse a celebração dos 8 anos da priminha ou dos 80 da vovó.

"Tocava de Xuxa a Bee Gees", relembra do DJ e produtor.

Cada cachê, aliás, era usado para comprar novos equipamentos e melhorar o espetáculo - não é exagero chamar assim as performances do então mini-DJ.

O DJ Pedrinho Sampaio (nome fictício criado por mim, mesmo) era esforçado. Chegava antes de todo mundo para testar o som. E tocava até a última pessoa deixar a pista.

Registrava tudo em vídeo também - o que hoje pode ser comum, mas, uma década atrás, era novidade.

Mesa de som, máquina de fumaça, luzes de discoteca. A tralha toda era levada com a ajuda de um pai mais do que extremamente paciente. A fama cresceu e as apresentações expandiam-se geograficamente pelo estado do Rio de Janeiro, do bairro do Méier, onde cresceu o DJ, a Cabo Frio e à região dos lagos, graças ao sucesso do boca a boca e das redes sociais (com vídeos cada vez melhores produzidos).

Hoje um superstar, Pedro Sampaio tinha aos 13 anos uma visão assombrosamente completa da carreira artística - mais que muita gente até hoje.

Não à toa que, uma década depois, ele acumula feat. com artistas gigantes da música popular, como Luísa Sonza (o hit recente "Atenção") e Wesley Safadão ("Fala Mal de Mim", com Daniel Caon), emplacou o hit do carnaval com "Sentadão", conseguiu ter a participação de Anitta como atriz no clipe de "Larissa" (algo inédito na carreira da Girl From Rio) e brilhou surpreendentemente no Grammy 2021.

Ah, funk no Grammy…

Toda a história do Grammy, em cerimônia realizada em 14 de março deste ano, colocou o DJ e produtor em outro patamar, definitivamente.

Isso porque nem ele sabia que seu remix com batidas de funk de "WAP" seria incluído na performance de Cardi B e Meghan Thee Stallion.

E foi um trechinho curto, coisa de segundos, que causou um furdunço do bom.

Os terraplanistas musicais, centrados na figura de Rick Bonadio (produtor de sucessos como "Dogão é Mau", Mamonas Assassinas, entre outros), reclamaram que o funk não poderia representar o Brasil no exterior, muito menos ser comparado com o sucesso internacional da bossa nova.

(Bocejo)

Olha, cá entre nós (entre este colunista e você, lúcidos leitores e leitoras), estou até cansado deste debate. Escrevi sobre isso em outro texto da coluna e deixo que você leia por conta própria.

(Debochado, Pedro Sampaio até respondeu aos comentários de Bonadio com um remix de Mamonas Assassinas, kkkk.)

"Fiz essa música em um 27 de agosto", conta Sampaio. Aliás, ele é daquelas pessoas ótimas com datas, sabe?

"Naquele dia, acordei cedo. A inspiração bateu. Fiz da cama ainda. Peguei o computador e foi ficando maneiro. Quando vi, já tinha terminado. Pensei em fazer um vídeo mostrando como eu fiz e postei. Isso teve uma repercussão positiva."

Veja o remix de funk de "WAP" está abaixo.

E um trechinho da performance no palco do Grammy:

Até a nossa entrevista, Pedro Sampaio ainda se mostrava surpreso com a presença da música no show. Claro, quando fez a música e publicou o remix de funk de "WAP" nas redes sociais, foi até repostado por Cardi B, mas ele e seu escritório tentaram emplacar o remix como oficial e nunca tiveram resposta.

"WAP", na época, estava bombando demais, liderando paradas globais das plataformas de streaming e tudo mais. Talvez com o burburinho gerado pela versão no palco do Grammy, isso role.

Depois do Grammy, ele interagiu novamente com a rapper estadunidense.

Quem sabe um dia o feat ainda vai rolar.

"Para mim, o funk tem o mesmo potencial gigantesco do reggaeton."

Intensidade que faz bem

Não parece existir meio-termo com Pedro Sampaio. O remix de "WAP" é um exemplo bem-sucedido, mas não é único.

Para um remix que nem sequer era oficial, o DJ e produtor criou vídeo completo com a coreógrafa Ramana Borba, do qual assina a direção criativa - com uma linguagem nonsense, o vídeo apresenta a coreografia da artista em uma casa de janelas enormes, uma bunda dourada feita por computação gráfica e leão que parece ser de verdade.

"Investi para chamar atenção da galera lá de fora. Parece que deu certo."

Para lançar "Larissa", música com o cantor Luan, por exemplo, Pedro Sampaio fez ações gigantescas de marketing. Colocou estátuas de cavalos no Rio de Janeiro e fez uma tatuagem (fake? real?) na coxa com o nome da canção. Aliás, é nesta música que Anitta fez uma participação como atriz, ao lado de um cavalo branco.

(Pedro Sampaio tem uma coisa com animais, não é? Só me liguei nisso agora. Numa próxima entrevista vou falar mais sobre isso.)

Quem é o cantor?

Em "Larissa", aliás, Sampaio canta junto de Luan, algo que ainda é incomum entre os DJs e produtores.

"Precisava me diferenciar ainda mais. Nunca pensei em cantar, mas no momento em que quis fazer as minhas próprias músicas, imaginei que ninguém iria querer cantar. Então, comecei a estudar isso. E pensei: 'Sou DJ, sou produtor, eu posso brincar com a minha voz'. Eu não preciso ser cantor de ópera. A voz pode ser como um sintetizador. Cada música vai ter a voz que merece. Não vou ser um cantor de uma voz só. Vou ser o produtor que faz música fod*."

Sem rótulos

A intensidade de Pedro Sampaio parece ser o segredo do sucesso do DJ e produtor, justamente no momento em que DJs e produtores estão ganhando o devido destaque.

Gente como WC no Beat, Dennis DJ e Pedro Sampaio e o absolutamente incrível DJ Ivis são os superstars da música pop brasileira atual. E não têm um gênero definido.

Afinal, restrição estética e sonora é coisa de um passado retrógrado e cheio de cabrestos musicais.

Pedro Sampaio vem do funk, que "é onde estão as minhas raízes", mas é muito mais do que isso. Afinal, o próprio funk é um gênero em transformação.

"Como DJ e produtor, tive contato com vários ritmos quando menor. Seria inevitável que eu crescesse e me tornasse um artista que bebe de diferentes fontes. Ainda mais no Brasil, uma país com tanta pluralidade de ritmos."

O produtor, aliás, revelou ter uma playlist secreta no Spotify de "músicas com só com 900 plays, de artistas de países da Ásia, da Venezuela Isso me ajuda a me manter criativo."

Do rap de "WAP" ao bregafunk de "Sentadão", Pedro Sampaio gosta de dizer que o que interliga suas músicas é a energia que cada uma apresenta. Para este texto, por exemplo, ouvi uma playlist com músicas dele e, realmente, parecia estar rolando uma festa aqui em casa.

'O que me inspira são as pessoas'

A frase acima de Pedro Sampaio vem quando ele conta a história da origem do jingle que usa para se apresentar em todas as músicas (outra técnica clássica de produtores e DJ superestrelas). No caso dele, é a voz de um gurizinho dizendo: "Pe-dro Sam-pai-o".

"Quem gravou foi o Miguel, filho da Márcia, que trabalha aqui em casa há mais de quatro anos. Ela traz ele para passar as férias aqui e ficava jogando videogame. Um dia, me deu um estalo e identifiquei um timbre maneiro nele. Ele é todo malandrinho. E falei para ele gravar."

É tudo espontâneo, como ele explica.

"Não tem fórmulas. 'Fala Mal de Mim' é um piseiro com bregafunk e reggaeton. 'Sentadão' transmite alegria. Um elemento que você identifica é a energia. Acho que isso é o principal: minhas músicas se conectam com as pessoas."

Sejam elas a priminha de 8 anos, a vovó de 80 ou eu, com 34 anos e uma barba que começa a ficar assustadoramente grisalha. Até o Grammy.