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Pedro Antunes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

MC Kevin, o que menino encantou a quebrada - e foi além

Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

17/05/2021 16h10

Sem tempo?

  • MC Kevin tinha uma música de título O Menino Que Encantou a Quebrada.
  • Dono de versos autobiográficos, o funkeiro sempre cantou sobre a sua própria experiência.
  • A intensidade da vida pré-fama ganhou corpo, virou hit, e também passado.
  • Cria do seu tempo, nascido no final dos anos 90, Kevin levava tudo na unha, na intensidade, o amor, a dor, tudo.
  • Mais recentemente, apesar das polêmicas (e não vamos listá-las aqui), ele se encaixou em outro funk. O consciente.

"Sempre feliz é assim que eu me sinto
Olha o estilo do menino
Não sabe se é menino
Se o menino é bandido"

A voz que canta é de um gurizinho e MC Kevin era, mesmo, um meninote na época. A estrofe acima é de "Quem É", que entrou nas plataformas em 2013, ou seja, quando o funkeiro tinha 15 anos ainda.

Mas ali já tinha muitas das características que fariam de Kevin um fenômeno na quebrada. Afinal, ele um deles. Garoto da ZN (do bairro Vila Ede, na zona norte de São Paulo) que sonhou alto e alcançou milhões.

Os números, aliás, são superlativos. De ouvintes mensais no Spotify eram 1,8 milhão. No Instagram, beirava os 10 milhões. No YouTube, passou do bilhão se somarmos os todos os vídeos.

Superlativos eram os números e exagerado era o número de manchetes a respeito de polêmicas envolvendo Kevin. Li no Twitter alguém dizendo preferir a fase do MC em que só lançava música boa em vez de se meter em tretas.

Mas a real é que Kevin era uma figura midiática do seu tempo. Se estourava, nervoso, fazia isso pelas redes sociais.

Se amava ou desamava, brigava ou transava, também.

Tudo estava nas redes e, é claro, também aparecia nas suas músicas. E era uma tonelada de música.

Cria da geração da segunda metade dos anos 90, Kevin produzia freneticamente. Só em 2020, foram 39 sigles, fosse ele o protagonista ou o convidado do feat.

A jornada de Kevin pela música foi bonita e intensa. Hits são vários: "Vergonha Pra Mídia", "Veracruz", "Cavalinho", "Pra Inveja é Tchau", "O Menino Que Encantou a Quebrada", "Amassa a Placa".

A ostentação era sonho, virou realidade. E, depois, veio a redenção.

Da vida cotidiana, de bandidagem, vadiagem e o que mais tivesse junto, aos versos de um funk ciente da força do exemplo. Aquele que, em vez de ostentar, passa uma mensagem para uma meninada que, como ele, nasceu sem privilégios que os colocariam algumas rodadas na frente no jogo da vida real.

Single a single, entremeados por álbuns ou EPs, Kevin construiu uma rede forte de colaborações e base imensa de fãs e contou a própria história de forma intensa. Era visceral, mesmo: sentiu, rimou.

Na capa do primeiro álbum, do ano de 2016, tinha aparelho nos dentes e um talho proposital na sobrancelha direita. Em 2020, soltou o ótimo "Isolado no Quarto", com batidas vagarosas e voz com autotune no talo. Com sete músicas, o trabalho era melódico e melancólico.

Com "Fenix", EP de 2021, o rosto dele voltava à capa. Já crescido, amadurecido. Em chamas, dizia ter renascido como a ave mitológica imortal. Era assim que Kevin se sentia após mais um punhado de polêmicas (perceba que não tratei de nenhuma aqui e nem vou).

Também em 2021 esteve na coletiva "Hit do Ano", um petardo de mais de 12 minutos de duração com diferentes parceiros (MC Leozinho ZS, MC Hariel, MC Don Juan, MC IG, MC Menor da VG, MC Neguinho do Kaxeta, MC Marks, MC Lele JP, MC Ryan SP, MC Vitão do Savoy e MC Kelvinho).

Nos seus versos, falava à mãe. "E foi lá no Vila Ede que a guerra começou / Vi minha mãe chorando e orando", começa ele, autobiográfico até a ponta do fio de cabelo. Kevin rima dos dos fantasmas, das drogas, do tráfico, mas a parte chega ao fim com a vitória.

"Eu aprendi muito na vida
Quem sabe o MC estoura?
Tô em outro país de Lamborghini
Quem diria, tudo que eu sempre quis
Minha mãe é dama, linda e fina
E o barraco é uma casa chique
Hoje o choro é de felicidade com certeza
Quem desmerecia no passado, me humilhava
Hoje chora e vê que eu venci na vida
E que virei um favelado chique
O meu pé no chão vem da minha pobreza
Obrigado, meu Deus, a favela venceu (3x)
Isso é hit do ano, gratidão"

Representatividade é a palavra ali. No que errou e no que acertou, MC Kevin era o menino que encantou a quebrada e foi além dela. Foi pro mundo. E venceu.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL