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Pedro Antunes

Discurso antifunk de Rick Bonadio expõe 'terraplanismo musical' seletivo

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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

15/03/2021 23h56

O acontecimento musical recente mais importante de Rick Bonadio cabe num tuíte.

Não, não estou falando do último álbum de Victor Kley - até porque ele é um rapaz lúcido, bom de papo e possivelmente não endossa as abobrinhas do seu produtor.

Ao criticar a presença de um funk brasileiro em uma das apresentações do Grammy - já, já entro nos pormenores da história -, o produtor de sucessos incontestáveis como "Rodolfo & ET", "Br'oz", "Girls", entre outros, juntou as tribos.

De repente, se não fosse você um conservador com "rock correndo pelas veias", você estaria do mesmo lado que o resto, ou seja, do lado oposto ao produtor reclamão.

De Anitta a Lexa, de Tati Quebra-Barraco à Ludmilla, todo mundo foi atrás de Bonadio para dar aquela invertida no veterano que emplacou a memorável sequência "Floribella" e "Floribella 2".

O Brasil não se unia tanto desde as saídas de Karol Conká e Lumena do BBB 21.

Bonadio fez uma espalhafatosa "cobertura" do Grammy 2021 no feed de Twitter. Reclamou que The Strokes ganhou por falta de competição, por exemplo. Entre outros absurdos questionáveis, cometeu assassinatos da ortografia ("A Cardie B deve estar chingando", escreveu ele) e decidiu atacar o funk.

Bonadio falou que funk não é música de qualidade.

Pior, partiu para o velho discurso de que bom mesmo era quando exportávamos a bossa nova, entre outra tonelada de absurdos e preconceitos.

Não vou postar os tuítes dele porque já aprendi que, às vezes, é melhor não dar holofote demais pra essas coisas e evitar a irradiação do ódio, mas eles estão ali para quem quiser ler, assim como estão lá as respostas à Anitta, entre outras coisas.

Os tuítes de Bonadio expõem o problema do conservador musical - e não estou falando de política, mas a metáfora encaixa. Para esse tipo de "amante da música", o novo não tem espaço.

Chamei Adam Levine e toda a turma de conservadores musicais de "terraplanistas musicais". E, duas semanas depois, sou mais uma vez aterrorizado por um novo exemplo desta estirpe, um ainda mais complexo, de nome Rick Bonadio.

Negacionismo é o fato de negar algo para escapar de uma realidade que seja desconfortável. De alguma maneira, há quem diga que a Terra é plana simplesmente porque não consegue ver a curva que ela faz.

Ignorar a importância do funk como expressão cultural brasileira é perigosíssimo. Com esse movimento, tenta-se anular toda a existência de uma parcela enorme e periférica da nossa sociedade que consome funk, vive o funk e exporta o funk.

No ápice deste elitismo cultural disfarçado de "boa música", o produtor ainda comete o erro de generalizar o ritmo.

Diz coisas como "mesma batida", "letras de putaria", dois erros clássicos do desavisado. O funk não fala só de "putaria", embora ainda bem que fale disso. O funk canta uma realidade que Bonadio nunca vai entender. Talvez exigir entendimento seja exagerado, pedir por respeito, não.

É incrível que Cardi B tenha incluído um trecho do remix de funk assinado por Pedro Sampaio na versão exibida de "WAP", uma música que fala sobre lubrificação vaginal que tocou no mundo todo.

A libertação sexual é motor da música há tempos. Desde Elvis Presley e seus passos de dança ousados para a época, passando pelo R&B, pelo rap, pelo reggaeton, pelo funk. Todos giram em torno em uma história de legitimação de uma parcela oprimida da população.

Conceitos do que é "música boa" são tão datados quanto aqueles que usam deles para disfarçar preconceitos e fingir cegueira. Certa vez, até Gilberto Gil e Elis Regina marcharam contra a guitarra elétrica. Hoje, Gil não faria isso - e Elis, tenho certeza, também não. Essa é a vida.

Ainda bem que temos a chance de rever antigos preconceitos, não é?

Ainda bem que o funk seja notado lá fora.

Ouvi dia desses o álbum de Os Mamonas Assassinas, também produzido por Bonadio, e me peguei pensando: "Uau, os anos 90 eram libertários, né?"

E cá estamos, em 2021, debatendo a importância do funk para a cultura popular brasileira. Não deveria me surpreender, afinal, é o mesmo mundo em que médicos ainda prescrevem medicamentos para tratamento precoce contra covid-19 e uma porção de gente faz experimentos para provar que a Terra é plana.

Bonadio, responsável por pasteurizar o emocore brasileiro e transformá-lo em "uma coisa só" ao abocanhar contratualmente CPM 22, Fresno, NX Zero, Hateen, no início dos anos 2000, defende-se ao assumir o papel de provocador, de pedir pela evolução do gênero e da música brasileira.

Desculpe, Kley, mas você vai precisar levar esta pancadinha a seguir pelo time. Versos como "Deixa eu querer voar, enfrentar meus problemas / Eu mirei na Lua, e acabei acertando as estrelas", de "A Tal Canção Pra Lua", não estão necessariamente revolucionando a música pop mundial, não é, Rick?

UOL, mesmo, selecionou outros "hits" produzidos por ele. Pérolas.

Bonadio prova a existência de um novo espécime da sociedade: o terraplanista musical seletivo. Alguém que reclama de um auê criado em torno do imprescindível, libertário e revolucionário funk, mas produz pastiches como "Dogão é Mau" e "A Cera", da banda O Surto, entre outros.

Só posso imaginar, portanto, a cabeça revolucionária de Rick ao deitar no travesseiro e lembrar que esses versos são cantados por aí, mas que não chegaram ao Grammy.