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Pedro Antunes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

'Dilúvio' é petardo da Karol Conká para cantar os abismos além do BBB 21

Karol Conká anunciou o lançamento de ?Dilúvio? no Instagram - Lana Pinho / Instagram
Karol Conká anunciou o lançamento de ?Dilúvio? no Instagram Imagem: Lana Pinho / Instagram
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

05/05/2021 16h13

Sem tempo?

  • Depois de participar do BBB 21, Karol Conká lança nova música.
  • Dilúvio estreou durante uma performance dela ao vivo na final do reality show da Globo
  • E embora a música pareça tratar da passagem da artista por Curicica, há muito mais ali.
  • Diluvio é um passeio solitário e poderoso pelos abismos visitados por Karol Conká ao longo da vida.

Não, a memória não vai embora. A gente tenta, mas ela segue ali. Claro que a lembrança da Karol Conká que vimos no BBB 21 está viva - e quem conseguiu deixar o assunto de lado, foi martelado pelas imagens vez ou outra por conta do documentário sobre a passagem da rapper no reality no Globoplay, nas edições do Big Brother Brasil encerrado ontem com vitória de Juliette Freire ou pelas redes sociais.

Mas este não é um texto sobre Karol, a jogadora. Nem sobre Karol, a pessoa. É sobre a Karol Conká. Artista.

A nova música "Diluvio", lançada ontem com performance na final do BBB 21, mostra uma Karol Conká em transformação, também. É o primeiro single do ano, depois de uma porção de músicas lançadas em 2020, e dono de um discurso poderoso.

Segundo o produtor Leo Justi, em uma entrevista ao sempre atento Guilherme Lucio da Rocha, repórter daqui de UOL Splash, a faixa ganhou algumas mudanças depois da passagem de Karol Conká pelo BBB 21, mas nada substancial.

Independentemente de quanto Karol mexeu nas letras de "Dilúvio", era muito claro para onde a obra da artista já apontava.

Depois do dilúvio, a calmaria. Depois da calmaria, mais um dilúvio. É disso que Karol Conká trata aqui.

O beat de Justi, o cara da dançante pancada que é o Heavy Baile, é ultra introspectivo. Toda a progressão das notas da base do produtor segue um fluxo de expansão e contração em looping. Puxa o ouvinte para dentro de um universo sem pirotecnias rebolativas ou lacre.

A obra de Karol Conká sempre foi "mais pra fora" do que "pra dentro", tenho a impressão. Mesmo quando falava de questões pessoais, havia uma última barreira que não era vencida. E talvez a experiência no reality da Globo tenha feito isso. Derrubada a última parede, damos de cara com versos extremamente confessionais de Karol Conká.

No single, encontramos uma Karol Conká de voz quase monotemática. Penetrante. Rouca.

Há angústia nas estrofes, como se ela sentisse novamente cada dor cantada nestes versos e segurasse uma fera que existe dentro dela.

Karol retrata tudo a partir de uma perspectiva particular. E escancara como sua jornada tem sido solitária, também, apesar da fama:

"Se essa intenção, toda essa pressão, intenção
Sinto uma sensação, de que foi tudo em vão
Quanto tempo ainda tenho? Eu vou com quem é quem são
Busco uma solução, fujo na contramão"

"Me feri, vivi o estresse, peço em prece que me preze
Dentro do que sobe e desce, me parece
Que o tempo se perde quando a gente empardece
Buscando luz mesmo não tento Sol
Sigo só"

Sentiu esse "sigo só"? Eu também.

Ela canta como se sentisse novamente cada leão morto por dia ao longo da vida dela.

"Se pra vencer
Tem que superar ou sofrer
Supero sem esquecer
O real motivo pra viver"

No refrão, a voz de Karol Conká se transforma também com a companhia de backing vocals. Soa leve, livre e solta.

A artista parece tirar o peso das costas ao compreender a ciclicidade da vida, nos piores e melhores momentos.

"Só mais um dia de luta (ah ah)
Depois do dilúvio (uh uh uh)
Só mais um dia de luta (ah ah)
Depois do dilúvio (uh uh uh)"

Quando Conká traz frases como "delírios vividos ninguém vê, vida real não se disfarça", ela aponta o dedo para as próprias feridas.

Ninguém viu o que ela passou para chegar até aqui. E, sem querer diminuir a ocorrido no BBB 21, ela mostra que este não foi o primeiro dilúvio que enfrentou na vida.

"Dilúvio" trata da jornada de Karoline para se tornar Karol. Há muito mais abismos do que aquele visitado na desastrosa passagem dela em Curicica.

Karol Conká, a artista, mostra coragem. Ela não minimiza a dor de ninguém, mas canta de si. Cancelada, expurgada, xingada, atacada. E a resposta está aqui, feita de queixo erguido. Poderosa.

"Só mais um dia de luta".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL