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Pedro Antunes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Todos querem Juliette: qual caminho na música para a vencedora do BBB 21?

Juliette Freire, campeã do BBB 21 - Divulgação/Instagram
Juliette Freire, campeã do BBB 21 Imagem: Divulgação/Instagram
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

05/05/2021 11h46

Sem tempo?

  • O furação Juliette tem futuro na música?
  • Na última terça (4), Juliette Freire se sagrou campeã do BBB 21.
  • Ao longo dos 100 dias de confinamento, a advogada e maquiadora se mostrou como uma cantora elogiável.
  • Músicas de Chico César e da banda Francisco, El Hombre tiveram os plays alavancados graças às interpretações da competidora.
  • Após o reality, Juliette pode ter uma longa carreira na música
  • Mas é preciso ter calma para não perder a identidade própria da artista em meio ao plastificado ambiente da música pop.

A voz é cristalina, tem afinação e chega às notas altas com uma espantosa facilidade. Claro, é rústica ainda e requer algum treinamento para encontrar o espaço sonoro mais adequado. Juliette Freire, a campeã do BBB 21, saiu do confinamento em Curicica com um mundo de oportunidades diante de si. Além de advogada e maquiadora, Juliette pode ser cantora.

Será?

O que Juliette diz sobre a carreira na música?

"Tenho que estudar muito, muito, muito para isso, não sei. Mas eu amo música, muito. A música me salva, silencia muitas dores e pensamentos ruins. Eu amo música com muita força, mas, para ser cantora, preciso estudar muito. Eu não sei o que vou fazer, eu quero fazer coisas que me deixem feliz e as pessoas felizes"
Juliette, em entrevista ao programa Bate-Papo BBB, realizada logo depois do programa

Engajamento dos Cactos

Números, os malditos. Views, plays, engajamento, likes, shares. Tudo isso é tão detestável para os mais puristas da música quanto necessário neste mercado fonográfico por streaming.

Isso Juliette tem. Ela entrou no BBB 21 com 3 mil seguidores e, agora campeã, chega aos 25 milhões de followers no Instagram.

Os seguidores, que se autodenominam de Cactos, saltavam impressionantemente a cada edição do programa. Grande queridinha do público, Juliette venceu o reality com mais de 90% dos votos, em mutirões poderosos capazes de desbancar outros favoritos, como Gil do Vigor nas semifinais.

Claro, a exibição diária na tela da Globo e as referências constantes no Twitter ajudavam a manter o nome da participante em evidência constante. Por isso, é preciso ter cuidado para reter essa atenção. Perdas vão ocorrer, é claro, mas é importante manter o alto nível de engajamento das futuras postagens.

Nada que uma equipe dedicada ao marketing digital da cantora não faça. Li que ela já assinou contrato com a mesma agência que cuida da imagem da Anitta, o que deve ajudar.

Músicas no BBB

Durante os 100 dias no Big dos Bigs, Juliette cantou mais de duas dezenas de músicas e fez um estardalhaço.

Não é por acaso que Tiago Leifert citou "Triste, Louca ou Má", lindíssima canção da banda Francisco, El Hombre, indicada ao Grammy Latino como Melhor Canção em Língua Portuguesa, em 2017. Juliette não tem a voz grave e estonteante de Juliana Strassacapa, mas encontrou um jeito de transformar aqueles versos em seus na sua interpretação.

O furacão Juliette colocou "Triste, Louca ou Má" no ranking de músicas virais do Spotify e ajudou a música a ganhar 1 milhão de novos views no YouTube em poucos dias.

O mesmo aconteceu, por exemplo, com "Deus Me Proteja", música de Chico César em parceria com Dominguinhos e o verso que virou uma espécie de mantra da vencedora do reality: "Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa". Graças às interpretações de Juliette, a canção tem mais de 6 milhões de plays no Spotify e também foi parar no ranking viral da plataforma.

Este fenômeno ocorreu em diferentes gêneros musicais, de "Medo Bobo", hit do feminejo cantado por Maiara e Maraisa e também por Rubel, e a balada "Dona Cila", criação de Maria Gadú em homenagem à avó.

O repertório está montado, não é?

Feats, álbum, single, EP?

O mais difícil Juliette Freire já conquistou, diriam os artistas iniciantes, que é aumentar o engajamento e criar uma base de fãs.

Acontece que, no caso da maquiadora e advogada, o processo será reverso. Em vez de criar uma identidade musical e criar uma base de fãs a partir dessa linguagem, ela tem a base de fãs e, agora, precisa se encontrar na música.

Afinal, os seguidores estão nas redes sociais por conta da personagem Juliette, não necessariamente por causa de "Juliette, a cantora". Será necessário fazer o que os publicitários tanto amam: um rebranding, que nada mais é do que mudar a percepção das pessoas com relação a ela. Outra palavra chique para isso é "ressignificar".

Pedidos de feats não faltam. E eles podem ser um começo. Da Francisco, El Hombre à Duda Beat, de Carlinhos Brown (que escreveu uma música dedicada à participante chamada "Juliette, Mon Amour") a Chico César.

Todos querem Juliette. O que faz sentido, seja pelo talento bruto da ex-BBB, seja pelo gigantesco engajamento gerado por ela.

Feats apressados podem gerar impacto imediato, mas também não ajudariam a entender qual é a voz de Juliette como artista da música.

No caso da vencedora do BBB 21, o melhor rebranding seria aquele orgânico. Afinal, a indústria da música tem seus próprios agentes e mecanismos. Pessoas extremamente populares já tentaram a carreira como cantores/cantoras, mas nem sempre com muito sucesso.

Lembro, por exemplo, de Cleo, a irmã do também competidor do reality Fiuk, que se lançou como cantora há alguns anos e, apesar de ter algumas boas músicas, como a introspectiva "Cloud" (lançada no EP de estreia dela de 2018) não trilhou um caminho exclusivamente dedicado à música (e talvez esta nem fosse a intenção dela, também).

Um bom exemplo para a Juliette é seguir os casos de artistas vindos de reality shows musicais que deram certo até hoje, como Thiaguinho, Roberta Sá, Thaeme Mariotto, ou gringos como Adam Lambert (atualmente vocalista do Queen), Harry Styles, entre tantos outros.

Nas competições musicais, eles precisaram cantar em estilos não necessariamente próprios e, com o tempo, encontraram os lugares artísticos de cada um.

Juliette será pop? Sertanejo? Arrocha? MPB? Tudo isso junto?

É importante que ela não perca aquilo que mostrou no reality. A voz que é crua e, ainda assim, afinada. Há uma humanidade bonita no que canta Juliette e isso não pode ser perdido em técnicas excessivas que plastificam a música pop.

Sugeriria até que ela se testasse em vídeos caseiros de covers, uma coisa em voz e violão, para encontrar onde ela se sentirá mais confortável e, ainda assim, soar poeticamente bela como ouvimos no reality. Assim, ela faria o tal "rebranding" de mostrar aos milhões de seguidores o novo caminho e, ao mesmo tempo, não perderia a essência que fez tantas pessoas passarem a segui-la nas redes.

Juliette é um furacão pronto para brilhar. Mas não precisa ter pressa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL