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Pedro Antunes

Mick Jagger e Dave Grohl atacam negacionistas com punk sem perder a classe

Mick Jagger em seu retorno aos palcos depois de passar por uma cirurgia no coração
Mick Jagger em seu retorno aos palcos depois de passar por uma cirurgia no coração
Kamil Krzaczynski / AFP
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

13/04/2021 15h57

E o Mick Jagger que deixou o groove do blues rock tão rollingstoneano para afundar o pé no acelerador, ultrapassar limites de velocidade e mesmo com algumas derrapadas, entregar um punk deliciosamente sarcástico em parceria com Dave Grohl?

Uau!

A música nova, "Eazy Sleazy", pode ser ouvida no player abaixo.

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"Eazy Sleazy" foi escrita por Mick Jagger durante esse período pandêmico - e traduz muito do que vivemos aqui até hoje. Ele canta com Grohl, líder do Foo Fighters e também responsável por gravar bateria, guitarra e baixo na música.

"É uma música que escrevi sobre como sair do lockdown, com um certo otimismo, que é muito necessário. Obrigado a Dave Grohl por pular na bateria, baixo e guitarra, foi muito divertido trabalhar com você. Espero que todos gostem de 'Eazy Sleazy'
Mick Jagger, em comunicado enviado à imprensa

No mesmo comunicado, o roqueiro mais sorridente do planeta Dave Grohl disse ter realizado um sonho compor uma música com Sir Mick. Fofo, né?

Esse é o retorno vocalista dos Stones às músicas inéditas depois de quatro anos. Em 2017, Mick soltou os singles também políticos "Gotta Get a Grip" e "England Lost", numa época em que o Reino Unido discutia o Brexit. Os Stones até alguns anos atrás, também vinham lançando algumas faixas.

"Eazy Sleazy" é tão punk que parece surgida na época em que os jovens rasgavam as calças jeans e usavam alfinetes nas orelhas no lugar de brincos. Caso a pandemia ocorresse nos anos 70, as músicas sobre o Covid-19 (ou Covid-72?) soariam razoavelmente assim - talvez mais sujas e barulhentas.

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Mesmo que o instrumental não seja muito imaginativo (com exceção da ponte para o refrão) e que Mick pareça sofrer para manter o fôlego no andamento veloz da faixa, os versos escritos por ele são brilhantes, afiados e tragicamente reais.

Na letra, Mick ataca o negacionismo na jugular com classe

Enquanto retrata a vida enjaulada do lockdown ("não temos mais folhetos de agências de viagem", "vamos compor músicas no [aplicativo] Zoom" e "não tenho mais o que vestir"), Mick também cita os delírios dos negacionistas e as fakenews.

Ele fala da "vacina do Bill Gates" que fará "controle mental", caçoa dos terraplanistas e daqueles que alardeiam que o aquecimento global é pura invenção (alô, Trump, é você?). Por fim, também lembra que "existem alienígenas infiltrados no governo", diz.

A mensagem final de Mick Jagger, contudo, é de trazer otimismo para tempos cada vez mais sombrios.

"Será uma memória que vamos tentar nos lembrar de esquecer".

Em tempos em que tudo soa tão quadrado e sombrio, Mick inverte as fórmulas, se reinventa ao som de um punk divertido, coloca Dave Grohl para esmurrar uma bateria de novo e ainda ataca quem deve achar que bom mesmo é tomar hidroxicloroquina.

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Bom, a hidroxicloroquina, propriamente dita, não é citada por Mick Jagger. E nem é culpa dele, afinal, qual outro país decidiu gastar quase R$ 90 milhões em tratamento precoce em vez de vacina além do Brasil?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL