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Pedro Antunes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Textão #5: Paul McCartney e Rita Lee mostram a fórmula da juventude eterna

Montagem com Rita Lee e Paul McCartney - Montagem: Pedro Antunes
Montagem com Rita Lee e Paul McCartney
Imagem: Montagem: Pedro Antunes
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

10/04/2021 09h00

Sem tempo?

  • Bem-vindos ao antigo Longão, agora chamado Textão, um lugar para textos grandes (às vezes, gigantes) e reflexivos.
  • Uma vez por semana, a coluna se aventura para analisar tendências a partir de algum acontecimento da semana
  • Desta vez, a história gira em torno dos setentões Rita Lee e Paul McCartney, com discos que provam a fórmula da juventude eterna
  • Além do textão, o Textão traz as Curtinhas, uma seção com notinhas sobre obsessões musicais, televisivas ou cinematográficas da semana
  • Hoje temos: Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo, Elana Dara, Jovem Dionísio com Gilsons, MC Kevin o Chris, Aquino e a Orquestra Invisível

Arnaldo começa todo o dia da mesma forma. Sente-se moderno ao pedir à Alexa do quarto para acordá-lo com uma playlist que usa para todos os momentos em que pode ouvir música. Do despertar, dirigindo o carro até o trabalho, enquanto faz a faxina de casa.

São precisamente 382 músicas e 24 horas e 34 minutos de som sem repetir. Quer dizer, as músicas podem não se repetir, mas o som, a estética, a fórmula, sim.

Mas é uma modernidade líquida, na verdade. Nosso amigo é, adivinhem, um "roqueiro velho". Não é velho de idade, tem afinal aos 39 anos, mas as bandas que ele curte, sim. Já estariam devidamente vacinados se brasileiros fossem, inclusive.

Não é um problema, obviamente, o fato de Arnaldo gostar do mesmo tipo de som e de bandas que se repetem a cada álbum até que, em certo momento, simplesmente desistam de lançar músicas inéditas e decidam viver de renda e das turnês de que o Brasil é um dos destinos certos.

Entendo que é confortável não colocar os ouvidos para experimentar algo diferente. Sem querer, Arnaldo pode se descobrir fã de funk porque não consegue parar de cantar o refrão de "Deixa de Onda (Porra Nenhuma)", música de Dennis DJ com participações de Ludmilla e Xamã.

Já pensou, ele cantando junto com a Lud o refrão estridente em falsete digno de dar inveja à David Coverdale, do Whitesnake - "AMAVA P**** NENHUMA, DEIXA DE ONDA..." - enquanto faz a faxina diária no apartamento de um quarto que tem na Vila Olímpia?

Se os amigos do grupo de zap formado depois do Rock in Rio 2019 soubessem disso, como estaria a reputação do roqueiro Arnaldo?

Não há problema ser "roqueiro velho", entenda. Tenho até amigos que são. E, se eu fosse um amigo melhor, responderia às mensagens deles com mais frequência. Mas, indie-hipster-mala que sou, tenho tentado ficar longe do celular a partir das 16h e perco parte da dinâmica social virtual da atualidade.

Também não há problema ser uma banda de "roqueiro velho". Ficar na zona de segurança não é problema algum. O trabalho mais difícil já foi feito, que era conseguir um espaço no mercado durante os hippies anos 70 e na brilhosa década de 1980, vender milhões de discos e lotar arenas e estádios. Agora, como diriam os boleiros, é jogar com o regulamento debaixo do braço e garantir o resultado.

Faz sentido.

Mas há quem não aceite o tempo, as rugas, as dores nas juntas e a crescente intolerância a alimentos apimentados. Sim, existe gente que acredita até que o alquimista Nicolau Flame (também famoso por quem curte Harry Potter) tenha descoberto a fonte da juventude e viva até hoje com a esposa em um centro de meditação na Índia.

A humanidade, por séculos, tentou controlar o tempo. Sem conseguir freá-lo, tentou não gastá-lo à toa. Criou formas rápidas de ir de um lugar para outro, de se alimentar sem ter que caçar e até para encontrar um date (com Tinder e outros apps de namoro).

Existem aqueles que tentam parecer jovem, gastam uma grana com aplicações na testa para disfarçar as rugas, repuxem o pescoço, façam tratamento para evitar os pés de galinha.

Mas há também quem aceita as rugas e idade que tem, mas não fica parado no tempo. Olha para o futuro.

Estou falando de Rita Lee e Paul McCartney, dois artistas com certidões de nascimento já adoravelmente amareladinhas pelo tempo. Rita tem 73 anos. Paul beira os 80, com 78 anos.

Ambos com carreiras que poderiam ter estacionado nos anos 1980, como todos aqueles roqueiros da playlist do Arnaldo.

Se tivessem o feito, porém, não teríamos "Amor e Sexo", hino de Rita, o parceiro Roberto de Carvalho e Arnaldo Jabor. Ou a lindíssima "Heaven on a Sunday", de Paul com Jeff Lynne, James e Linda McCartney.

Existe uma diferença entre não aceitar o tempo, a idade e tudo mais, e manter-se jovem, é importante lembrar.

Rita Lee, aposentada dos palcos e com raras interações com a imprensa, segue trabalhando aqui e acolá, como ela e Roberto de Carvalho me contaram numa deliciosa entrevista publicada aqui na coluna no dia 31 de dezembro, aniversário de Rita (Rita Lee e a doçura ao encarar o tempo: 'Vivo a velhice que sempre sonhei').

Roberto já tinha revelado um projetão vindo aí, com remixes de clássicos do duo sob a batuta do filho do meio do casal, João Lee, alguém que se considera o "menos roqueiro" da família.

Assim chegou ontem (9), nas plataformas digitais, "Rita Lee & Roberto - Classix Remix Vol. 1" (o nome correto é "Classix" com a letra "x", mesmo, ok?). Como o nome indica, essa é a primeira parte de três volumes que serão lançadas.

São 12 faixas de hits de Rita e Roberto. Gui Boratto, por exemplo, atravessou e virou do avesso "Mutante", música que abre o primeiro volume do "Classix Remix". Há intervenções mais ou menos drásticas. Interessante, por exemplo, ver o mesmo DJ Marky brincar com "Caso Sério" numa versão mais "amante latino" e, em outra, amparada pelo drum'n'bass característico do produtor.

Minhas favoritas, até agora, são o remix de "Cor de Rosa Choque" e "Saúde". Na primeira, Mary Olivetti (sim, filha do incrível Lincoln Olivetti e única mulher a participar deste primeiro volume - o que, convenhamos, não é legal, estamos em 2021, pessoal) faz absurdos com o hino do álbum "Rita Lee e Roberto de Carvalho" (de 1982). O refrão, com uma adição de um zumbidinho delicioso, se agigantou nesta versão.

O duo moderníssimo Tropikillaz restaura "Saúde", do álbum homônimo de 1981, e trouxe uma nova dinâmica e revigorou o refrão de "Mas enquanto estou viva e cheia de graça / Talvez ainda faça um monte de gente feliz".

Em um texto maravilhoso enviado à imprensa para celebrar o álbum, Rita Lee escreve o seguinte:

"Desde sempre, quando a mixagem de um disco terminava, eu nunca mais queria ouvir. Não suportava o que para mim já era considerado passado. (...) João Lee, se formou em administração de empresa, mas optou por ser DJ e viajou o mundo todo participando dos principais festivais de música eletrônica e se deu bem nessa praia trocando figurinhas com os mais famosos DJs do planeta.

"(...) Chegada numa parafernália eletrônica roqueira, confesso que pouco conhecia sobre o mundo mágico dos DJs e seus diferentes beats/ estilos musicais que hipnotizam a garotada para soltarem suas asas numa pista de dança. (...) Era como mergulhar numa dimensão paralela, tipo a trilha sonora de um passeio num disco voador"

Que aula de jovialidade, não é?

O mesmo faz Paul McCartney. Em dezembro de 2020, fim do primeiro ano pandêmico, Paul soltou "McCartney III", um álbum poético criado na solidão do isolamento social, para fechar uma trilogia iniciada em 1970, com a saída dele dos Beatles, seguida em 1980 com o fim da banda The Wings.

Paul não celebrava necessariamente uma ruptura nesta última vez, como foi nos outros álbuns, mas de alguma maneira voltava a olhar mais para si para criar e fazê-lo tudo sozinho.

Na semana que vem, no dia 16 de abril, chega às plataformas digitais "McCartney III Imagined", uma versão do álbum lançado quatro meses antes, mas que aponta para o futuro.

Escolhidos por Paul McCartney, nomes do indie como a celebrada Phoebe Brigers e St. Vincent, se juntam a ícones inquietos da música (caso de Damon Albarn, do Blur e Gorillaz, e Beck) e nomes ultra contemporâneos do R&B, como o premiado Anderson .Paak e Dominic Fike, um dos nomes mais interessantes da nova ordem da música mundial.

Este colunista já ouviu o álbum e ficou embasbacado com grande parte das músicas. Se você assistir ao clipe abaixo, de "The Kiss of Venus", na qual Dominic Fike realmente reinterpreta a delicadíssima canção de Macca como um veterano (que ele ainda não é), vai entender o motivo da minha animação.

Paul, corajosamente, se aproximou dessa geração que o vê como ídolo e ícone. Como se fosse um sujeito comum, de cabelos grisalhos, pediu para que cada um desses música fizesse a interpretação que desejasse das suas músicas.

No contato com as gerações que chegam depois, Paul e Rita descobrem o que outros sábios já desbravaram antes. É no contato com os mais novos que a gente não envelhece. Quer dizer, os cabelos ficam grisalhos, branquinhos e as costas vão doer com uma frequência cada vez mais chata, mas as cabeças se manterão sãs.

O desafio motiva.

O flerte com o mundo eletrônico, da "garotada" dita por Rita Lee, levou o casal Rita e Roberto a compor uma música produzida por Gui Boratto que será lançada "em breve", como contou Roberto à coluna. "E nada impede que outras venham na sequência."

Chegar no futuro é impossível. Ao vivê-lo, tornamo-lo o presente, afinal. Mas viver de passado é tão impossível quanto.

O máximo que podemos fazer para viver no passado é ser como Arnaldo, personagem que inicia este texto, dono orgulhoso playlist da "velhice eterna" e comentador de textos alheios com frases clássicas (e velhas, também), como:

  • "Não se faz mais música como antigamente."
  • "A música brasileira parou nos anos 80 com Legião Urbana"
  • "Não existe mais música boa sendo feita atualmente"

Entre Arnaldo ou Rita Lee, prefiro "mergulhar numa dimensão paralela, tipo a trilha sonora de um passeio num disco voador", como ela mesma diz.

Curtinhas

O alento do ruído melancólico de Sophia

O canto de Sophia Chablau, íntimo, rouco, frágil, é um dos grandes achados deste segundo ano pandêmico (sim, comecei a contar novamente os anos, a partir da pandemia que travou tudo o que a gente conhecia). Acompanhada de Téo Serson (baixo), Theo Ceccato (bateria) e Vicente Tassara (guitarra/teclados), ela me estonteia como há muito não acontecia.

Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo lançam o psicodélico, ruidoso, torto, álbum homônimo (Selo Risco), produzido por Ana Frango Elétrico, justamente a artista que me deixou igualmente abismado alguns anos antes. O disco se mostra um precioso e íntimo retrato de uma juventude que vê o próprio futuro anulado por uma falta de esperança. E transforma a inquietude e solitude em canções ora raivosas, ora ternas. Um retrato melhor do meu dia a dia nesta pandemia, não há.

As ilusões de Elana Dara

Voz de um novo novíssimo pop brasileiro, Elana Dara segue esmiuçando os amores modernos e líquidos. Com uma linguagem que é só dela, Elana traduz as inquietações amorosas de 20 e poucos anos com leve ironia e muita entrega. "Aff" é mais um pedacinho dessa caminhada, que já teve a ótima "Ninguém Dá Certo Cmg" (daquelas músicas que grudam na cabeça e tão boas).

Hidratados e bem acompanhados

Jovem Dionísio e Gilsons, dois grupos que estariam em lotando shows em festivais por aí se não fosse essa pandemia, uniram forças em uma daquelas parcerias nas quais estéticas distantes se comunicam, se conectam, se misturam. A melancolia dos rapazes de Curitiba (autodenominada "banda dos meninos hidratados) se transforma com a organicidade ritmada do grupo de herdeiros de Gilberto Gil neste saboroso single que é "Algum Ritmo", um canto otimista para momentos tão sombrios.


Como não amar o Chris?

Na série de TV, talvez todo mundo odeie o Chris. Mas o que dizer do nosso Chris: o Kevin, o Chris. Dono do funk melancólico mais viciante dos últimos cinco anos ("Ela É do Tipo"), Kevin lançou o DVD "Todo Mundo Ama o Chris" com uma porção de hits já consagrados e, outros, prontos para estourar, como "Tipo Gin" (abaixo). É daqueles DVDs para colocar para tocar, abrir uma cerveja gelada e fazer uma festa, mesmo que solitária, em casa.

Canção para as insônias

Uma narrativa vagarosa entorpecida de distorções sobre noites solitárias. "Os Prédios Cinzas e Brancos da Av. Maracanã" (que pode ser ouvido abaixo) é o single dessa outra nova joia da música indie brasileira. Aquino e a Orquestra Invisível é desalento urbano em forma de música. De início manhoso à explosão orgástica com sopros e noir, Aquino reúne boas referências para retratar aquele cigarro numa noite insone.

Como na semana passada não fiz o Textão, decidi adiantar esse para sábado. Volto com mais textão na semana que vem. Até lá, cuidem-se, ok?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL