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Pedro Antunes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Chorão nunca soube fazer poesia, mas que se f***, entende?

Chorão em cena do documentário "Marginal Alado" - Divulgação
Chorão em cena do documentário 'Marginal Alado' Imagem: Divulgação
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

09/04/2021 04h00

O silêncio da rua tranquila e arborizada de um bairro endinheirado da zona oeste de São Paulo era quebrado por crises de choro contidas e clique das câmeras de alguns fotojornalistas que chegavam, faziam algumas imagens da portaria do prédio e entraram novamente no carro para seguir para a próxima pauta.

Menos de vinte pessoas se reuniam ali, com flores e cartazes em homenagem ao artista morto aos 42 anos. Eu recuperava o ar enquanto acendia um cigarro após a corrida de 800 metros que distanciavam a redação da Rolling Stone Brasil na época e o edifício na Rua Morás, em Pinheiros.

Chorão, líder do Charlie Brown Jr., estava morto.

Esse é um dos trampos mais ingratos do jornalismo: conversar com pessoas em luto. Sejam essas pessoas próximas de quem partiu ou fãs. A dor, no fim, é a mesma.

Jornalista não pode sentir luto, não é? Lembro que chorei quando David Bowie morreu, por exemplo. Só quando estava sozinho, em casa, depois de um dia exaustivo de trabalho e de toneladas de palavras escritas sobre o músico inglês. No ofício, a gente não pode ser paralisado pela perda. Precisa escrever, escrever, escrever.

Chorão, O Marginal Alado

Chorão morreu em um 6 de março, em 2013. Se estivesse vivo, hoje (9) comemoraria 51 anos. A pergunta que muita gente já se fez, inclusive, é: como estaria o Charlie Brown Jr. com o Brasil esfacelado da atualidade?

Oito anos após a morte de Chorão, o luto que vi ali naquele dia foi transformado em algumas homenagens à passagem de Alexandre Magno por aqui.

A mais recente é o documentário "Chorão: Marginal Alado", dirigido por Felipe Novaes, já outras, como a turnê da banda sem ele, me soam estranhas demais.

O doc estreia hoje (9) nas plataformas de streaming (Now, Google Play, Apple TV e Vivo Play) e acompanha alguns momentos da vida do artista, com entrevistas de arquivo dele e papo com amigos, parceiros e familiares.

"Marginal Alado", assistido por este colunista ontem pela manhã, mostra corajosamente um Chorão além da música. Não finge que os problemas com as não drogas existiram e mostra como estas questões, por fim, levaram a vida de uma das figuras mais importantes do rock nacional.

Mas esse não é o foco do filme, ainda bem. O longa apresenta Chorão como era, uma contradição sobre prancha com rodinhas. Um sujeito que se importava com os problemas dos outros, como reforçam os depoimentos no documentário, e negligenciava demais as próprias questões.

Explodia quando menos esperava - como, por exemplo, no famoso vídeo no qual o vocalista dá um esporro durante um show em Champignon, baixista do grupo que havia deixado a banda e voltado anos depois.

O que me faz voltar à cena diante do prédio onde Chorão morrera algumas horas antes.

Não importava que ele tivesse brigado com gente de João Gordo a Marcelo Camelo (dos Los Hermanos). Ou que a crítica musical detestasse os álbuns do Charlie Brown Jr. e repetia uma falta poética dos hits do grupo.

Chorão se comunicava com a molecada de uma forma que ninguém no rock nacional fazia até então. Quando surgiu o Charlie Brown Jr., oficialmente com o álbum "Transpiração Contínua Prolongada" (em 1997), havia um buraco geracional.

Os adolescentes dos anos 90 tinham que escolher entre a MPB grã-fina e erudita demais e o rock oitentista brasileiro que soava coisa velho pra eles.

Essa geração de bandas surgidas na década de 1990, iniciada por Skank, seguida por Raimundos e, depois, Charlie Brown Jr. mandou as heranças musicais às favas, cada um à sua maneira.

Sabe o verso que dá título ao texto aqui? É isso.

"Eu não sei fazer poesia, mas que se fod*"

Mesmo que a trupe de Chorão não encontrasse espaço nos jornais e revistas, a fusão de linguagens visuais e sonoras, amparadas pelo lifestyle do skate e a fúria do hardcore de Suicidal Tendencies, ajudaram o grupo a se conectar com uma geração que não se sentia abraçada pelo que tocava nas rádios até então.

Tudo era novo e envolvente em torno do Charlie Brown Jr na época. A guitarra pesada, o baixo tão marcante daquele furacão grooveiro que era Champignon, o linguajar e a lírica meio cantada, meio rimada de Chorão, a combinação do grupo falava a mesma língua de jovens revoltados por angústias do coração e questionamentos sobre o futuro.

Ao compor músicas como "Não é Sério", Chorão dava uma aula de comunicação direcionada que deveria ser estudada pela geração de comunicadores de Instagram. "Eu vejo na TV o que eles falam sobre o jovem não é sério / O jovem no Brasil nunca é levado a sério", cantava ele, ao lado de Negra Li.

"Você é a Xuxa da geração", disse Marcelo Nova, antigo companheiro de Raul Seixas, a Chorão - em uma revelação do documentário "Marginal Alado".

Funcionava porque Chorão era o ídolo mais acessível que essa molecada podia ter. Não falava difícil e curtia o mesmo que eles (praia, sol, skate, beijo na boca e sexo).

Escreveu o hino "Proibida Pra Mim", regravada até por Zeca Baleiro, um artista da MPB das palavras bonitas, em uma caixa de pizza. Quer alguém mais "gente como a gente" que isso?

(Talvez não seja tão "gente como a gente" porque há quem não escreva nas caixas porque gostam de recortar os cupons e trocar dez deles por uma redonda de calabresa e uma garrafa de guaraná de 2 litros, como eu.)

'Sou um reflexo de tudo o que você acredita'

Em uma cena registrada no doc, Chorão manda parar a van da banda para conversar com uma fã específica de nome Carol. Ao ouvir as palavras da moça, emocionada, respondeu: "Eu sou só um reflexo de tudo o que você acredita".

A frase pode soar saída de um livro de autoajuda de banca de jornal, mas é um discurso que faz sentido e funciona. "Ame as pessoas e use as coisas", completa Chorão, enquanto aconselhava a menina baixar ilegalmente os discos da banda.

A verdade é que Chorão não estava nem aí para poesia. Cantava como falava, saca? Sempre atrás de um punchline - no rap, o termo é usado para tratar daquela rima que pega no nervo, sabe?

Punchline tipo essa: "Tipo assim outside, tipo assim meio pop / Eu tô cagando pra essa porra de Ibope / Sou quem eu sou, não sou quem você quer que eu seja", rimou ele em "Não Fure os Olhos da Verdade", do álbum Bocas Ordinárias (2002).

Isso é, também, poesia. Mas é uma poesia urbana, de praças povoadas por jovens em rolezinho, dividindo vinho barato no gargalo, enquanto dizem para os pais que estão na casa do colega estudando.

Não compreendido pela crítica

Nada disso era compreendido pelos "adultos". Agressividade das músicas do Charlie Brown Jr. era descrita de forma pejorativa nas páginas dos jornais.

Um texto do jornal Folha de S. Paulo, publicado em 6 de julho de 1998, no início da banda, tratou o som de Charlie Brown Jr., Virgulóides e Little Quail, das "novas bandas de rock de humor" como "lixo musical".

A Rolling Stone Brasil, em outro exemplo, não tinha citado o Charlie Brown Jr. em suas páginas até publicar a matéria de capa sobre a morte de Alexandre Magno - eu lembro, estava lá, fiz a busca e não encontrei uma única menção.

Embriagado por aquele quase silêncio sepulcral da Rua Morás naquele 6 de março de 2013, senti culpa por aqueles jornalistas que vieram antes de mim e, de alguma forma, ignoraram a forma como Chorão e o Charlie Brown Jr. se comunicaram com uma geração inteira. Talvez não fosse "bom" dentro do que era a qualidade musical exigida na época.

É um desafio da profissão do jornalista musical, mesmo, enxergar a chegada de uma nova geração e perceber a validade dela, apesar de não fazer sentido em ouvidos mais velhos.

Assistir ao documentário me trouxe esse remorso que nem é tanto meu (comecei a escrever sobre música em 2009/2010, três anos antes da banda chegar ao fim), mas que senti da mesma forma.

No dia em que Chorão morreu, sofri para ter coragem de me apresentar como jornalista e colher depoimentos das pessoas que estavam horas ali, em pé, na frente do prédio do ídolo. Ouvi cada história possível, anotei e ouvi como Chorão se comunicava com aquelas pessoas.

Ignorado ou criticado pela imprensa, Chorão é uma figura que nunca mais se viu no rock nacional. Quiseram complicar demais as coisas, ou simplificá-lo como "roqueiro problema". Nunca tentaram entender direito quem era Alexandre Magno.

A beleza do Charlie Brown Jr., ali, estava na sujeira, nos ruídos, na poluição de versos entorpecidos por revolta e amores, amparados por linhas de guitarra nervosa e um dos melhores baixistas que o hardcore brasileiro já viu, morto meses depois do líder da banda.

Porque Chorão era intenso e tudo ao mesmo tempo, mesmo: skatista, marginal, roqueiro e dócil. A melhor definição que consegui criar é: Chorão saltava com seu skate entre o palavrão e 'eu te amo' como se fossem dois corrimões paralelos, de um para o outro.

Ele mesmo tentou se definir e o fez, daquele jeitão dele.

"Não tao complicado demais, mas nem tão simples assim"

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL