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Pedro Antunes

Phil Spector: gênio, abusivo, revolucionário, assassino ou tudo isso junto?

O produtor musical Phil Spector, em imagem de 2004 - Nick UT / POOL / AFP
O produtor musical Phil Spector, em imagem de 2004 Imagem: Nick UT / POOL / AFP
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

18/01/2021 16h17

Sem tempo?

  • No sábado (16), o Phil Spector morreu em decorrência de complicações da Covid-19, aos 81 anos
  • O produtor estava preso pelo assassinato da atriz Lana Clarkson
  • Genial (às vezes) no estúdio, desprezível fora dele
  • Spector levanta, novamente, a questão: é possível separar a vida pessoal da obra de alguém?

Genial, diziam. Paul McCartney discorda.

Revolucionário, atestam os críticos de música. Há também quem o chame de abusivo e assassino, com razão.

Phil Spector, produtor que mexeu profundamente na música pop e no rock na década de 1960, morreu no sábado (16) aos 81 anos, vitima de complicações da Covid-19, enquanto ainda cumpria a pena pelo assassinato da atriz Lana Clarkson, cometido na noite de 3 de fevereiro de 2003.

Foi vivido por Al Pacino no filme da HBO que retratava o julgamento realizado em 2009. A decisão de prisão passou pelo depoimento do motorista brasileiro do produtor. Adriano de Souza estava no carro de Phil Spector quando o viu sair da mansão com uma arma em mãos, ensanguentado, e ouviu-o dizer: "Acho que matei alguém."

A vida profissional de Spector foi o que podemos chamar de sucesso, certo? Produziu, entre 1961 e 1965, 20 músicas que entraram nas paradas de top 40 da Billboard nos Estados Unidos. Trabalhou com Beatles (embora não tenha agradado a todos do quarteto), fez sucesso com Ike & Tina Turner, The Righteous Brothers, The Ronettes, the Crystals, entre tantos outros.

Embora Spector se achasse melhor do que ele realmente foi, o produtor apresentou uma nova forma de entender a gravação de uma música. Principalmente, mostrou a força que o estúdio pode trazer na criação da canção. Chamava sua técnica (ou fórmula) de "wall of sound" (se você quiser traduzir para o português, pode ser "parede sonora", mas eu prefiro "paredão de som"), com criações orquestradas que carregariam até as piores gravações para o estrelato.

Sim, ele tinha essa megalomania.

Li em muitos lugares que essa foi a grande contribuição de Spector para a música. A sua técnica de produção. O que me parece quase certeiro. Quase.

O produtor entendeu o pop como um negócio lucrativo como poucos. Aprendeu que o público adolescente seria uma parte parcela importante dos consumidores desta indústria. Por isso, focou tanto em grupos vocais (principalmente femininos), naquele miolo dos anos 1960. Isso, sim, foi revolucionário.

Antes de ser chamado pelos Beatles para gravar o que seria aquela volta do quarteto às raízes mais roqueiras e cruas, o disco "Let it Be", Spector estava aposentado da música após o álbum considerado por ele como a grande obra da carreira, "River Deep - Mountain High", de Ike & Tina Turner, ter sido um fiasco (ficou em 88 lugar na parada dos EUA). Depois dessa derrota, ele se enclausurou em mansão por dois anos.

Paul McCartney detestou o trabalho de Spector em "Let it Be" - principalmente, a orquestração na balada "The Long and Winding Road", entendida como excessiva por Macca.

O restante dos Beatles gostou da experiência com Spector no estúdio. Fosse por provocação à Paul, fosse por apreço genuíno pelo trabalho do produtor (talvez por ambos), John Lennon convocou Spector para trabalhar nos álbuns "The Plastic Ono Band" e "Imagine" - estes discos, aliás, não apresentavam os arranjos preenchedores característicos de Spector.

Já Harrison convocou-o para produzir o vistoso e ambicioso disco triplo "All Things Must Pass".

A lista de conquistas é, de fato, grande. O cara gravou com os maiores, dos Beatles aos Ramones, passando por Leonard Cohen. Era alguém a quem Bruce Springsteen se inspirou na criação do classudo "Born to Run". Um produtor elogiadíssimo por Brian Wilson, do Beach Boys.

Mas tão grande quanto o talento de Spector no estúdio era também a personalidade tóxica, violenta e perigosa dele.

O primeiro produtor superstar era conhecido por rompantes tirânicos e insanos. Misógino e violento e apresentou crescente gosto pelas armas de fogo com o passar dos anos. No fim, foi a sua perdição, quando levou a atriz Lana Clarkson para sua mansão. Foi sentenciado em 2009 a 19 anos de prisão pelo assassinato dela.

Ronnie Bennett, uma das vozes do girl group que alcançou o estrelado nas mãos de Spector, casou-se com o produtor em 1968. Ela contou, na autobiografia "Be My Baby: How I Survived Mascara, Miniskirts And Madness", publicada em 1990, como Spector a mantinha encarcerada em casa e a submeteu a anos de tortura psicológica.

Ela teve a carreira sabotada e só conseguiu fugir da mansão onde vivia com a ajuda da mãe, a pé. Divorciaram-se em 1974, com um acordo no qual ela cedia os futuros ganhos de suas músicas a ele e também perdeu a custódia dos filhos adotivos do casal.

Segundo o livro, Spector ameaçou Ronnie para conseguir esse acordo. Iria contratar um assassino de aluguel para matá-la.

A história do produtor ocorreu muito antes da Era da Cultura do Cancelamento da web atual, de modo que o tribunal da internet talvez nem sequer soubesse da existência do produtor.

Ainda assim, a existência de Phil Spector levanta a questão, novamente: é possível distanciar a vida pessoal de alguém da própria obra?

No estúdio, Spector foi, por vezes e nem sempre, genial. Fora dele, muito provavelmente mais do que saberemos, foi uma pessoa desprezível.