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Pedro Antunes

Wolfgang, filho de Eddie Van Halen, não quer repetir a banda e o som do pai

Wolfgang Van Halen - Travis Shinn / Divulgação
Wolfgang Van Halen Imagem: Travis Shinn / Divulgação
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

04/12/2020 10h48

Sem tempo?

  • Filho de Eddie Van Halen, Wolfgang criou o projeto solo Mammoth WVH
  • A primeira música lançada, 'Distance', é uma homenagem ao pai dele e chegou ao topo do iTunes
  • O clipe, aliás, apresenta imagens emocionantes de Eddie com o filho Wolf
  • Nesta entrevista, Wolfgang conta como foi o processo de criação do trabalho e os últimos dias ao lado do pai

Devem ter sido curiosos os anos escolares de Wolfgang Van Halen. A começar pelo sobrenome. Ser filho de um dos maiores guitarristas que já existiu no rock deve trazer alguma atenção. E o primeiro nome dele também: Wolfgang, como Mozart, uma inspiração musical do pai na infância. O apelido, Wolf, ou "lobo", em português, também não era nada mal.

Na música, já na vida adulta, o sobrenome de peso traz responsabilidades e pressões. Wolfgang Van Halen, aos poucos, se lança como artista solo e sabe muito bem que está diante de comparações inevitáveis.

Ele acabou de soltar "Distance", a primeira música do primeiro projeto solo dele, o Mammoth WVH, e uma homenagem derretedora de corações ao pai, Eddie Van Halen, morto em outubro, aos 65 anos, com imagens de arquivo do guitarrista e o filho.

Prepare-se para ficar emotivo com esse vídeo:

Filho único de Eddie, com a primeira esposa Valerie Bertinelli, Wolfgang chega aos 29 anos com o Mammoth WVH depois de ter conhecido o mercado da música ao lado do pai.

Wolf tocou inclusive no Van Halen, banda fundada por Eddie e pelo irmão, Alex Van Halen, como baixista quando o então integrante Michael Anthony saiu do grupo em 2005. Ele também tocou com Mark Tremonti (do Creed e Alter Bridge).

Portanto, Wolfgang não é completamente novo neste meio, mas a sensação, ele garante, é inédita.

Com o Mammoth WVH, pela primeira vez, é ele quem está sob os holofotes.

Esse é um projeto que existe há pelo menos oito anos, conta Wolf à coluna, da concepção à busca por uma sonoridade própria. Com quase tudo pronto, o multi-instrumentista recebeu uma ligação do pai, ouviu que o câncer havia voltado e decidiu deixar tudo de lado para ficar próximo dele.

"As músicas estavam prontas, então ele pode ouvir tudo, amar e ficar feliz com esse trabalho. Ele não poderia estar mais orgulhoso e feliz. E isso foi muito bom. Em vez de lançar um disco e entrar em um ciclo de turnê por, sei lá, oito meses, preferi passar tempo com o meu pai e acho que fiz a escolha certa"
Wolfgang Van Halen, à coluna

"Distance", primeiro single do novo projeto (cujo álbum inteiro sairá só em 2021, pela Explorer1 Music Group/EX1 Records), é uma das canções mais leves do disco, revela Wolf. E chegou ao topo do iTunes no lançamento.

"Eu gostaria que você estivesse aqui, pai", escreveu Wolfgand no tuíte em que mostrava o 1º lugar do single.

E, no papo, o artista diz entender a inevitabilidade das comparações com o som do pai, mas parte do processo foi justamente encontrar a própria expressão artística.

"Definitivamente, uma parte importante do processo foi entender qual era meu som e, especialmente, tentar não emular o som do Van Halen. Isso era o mais importante para mim: não seguir os mesmos passos do meu pai em termos de som."

Wolfgang Van Halen concedeu apenas duas entrevistas ao Brasil. Uma delas, aqui para a coluna. Em 10 minutos (sim, foi bem rapidinho), em um papo por uma chamada de vídeo, o artista falou sobre a construção da própria estética e da relação com o pai. Eddie Van Halen. Veja abaixo:

Oi, Wolf, Como você está?

Estou é? bem. Estou indo bem.

Bom, obrigado por essa entrevista. Sei que está fazendo algumas entrevistas hoje, não tantas com jornalistas brasileiros, então, obrigado por isso. Você me ouve bem?

Sim, estou contigo.

Vamos começar, então, com um comentário. Eu realmente amo seu nome. Wolfgang, como Mozart. E, na escola, as pessoas te chamavam Wolf ["Lobo", em português], o que imagino ser um apelido legal pra época.

[Wolfgang ri]

Bom, vamos lá: há quanto tempo você vem trabalhando nesse projeto, criando essas canções e a sua própria estética musical?

Olha, tenho pensado e composto para esse projeto pelos últimos oito anos.

8 anos? Caramba?

E a primeira gravação que eu fiz foi em janeiro de 2015. Então, estou trabalhando nisso há muito, muito tempo (risos).

Você estava trabalhando nessas músicas quando seu pai ligou e contou que a doença tinha voltado, certo? Essas músicas estavam finalizadas?

As músicas estavam prontas, então ele pode ouvir tudo, amar e ficar feliz com isso. Ele não poderia estar mais orgulhoso e feliz com a música. O que foi muito bom. Era, na verdade, uma questão de lançar o álbum, mesmo. Isso era uma interrogação, por conta de tudo o que estava acontecendo. Em vez de lançar [o disco] e entrar em um ciclo de turnê de, sei lá, oito meses, eu preferi passar o tempo com o meu pai. E acho que fiz a escolha certa."

E qual era o estágio do disco quando isso aconteceu?

O álbum estava completamente mixado, mas ainda tinham algumas coisas de masterização a fazer, é claro. Então, ele esteve "quase terminado" nos últimos dois anos.

Você vem trabalhando com música há algum tempo e, mesmo assim, talvez dessa vez tenha sido diferente, certo? É realmente se mostrar como um músico, não?

Sim, venho trabalhando há muito tempo no mercado da música. E sinto como se fosse a primeira vez com esse projeto, como se fosse algo completamente novo, porque desta vez sou só eu. Não estou trabalhando com outra banda, sabe? É, definitivamente, uma nova experiência. E as reações têm sido muito loucas. Nunca poderia imaginar que as pessoas seriam tão acolhedoras.

É algo que faz sentido, eu acho, a reação das pessoas. Afinal, elas conhecem o seu trabalho nas outras bandas e estiveram tão animadas quanto eu com a possibilidade de ouvir a sua expressão musical. Difícil, imagino, tenha sido encontrar essa identidade própria, não é?

Definitivamente, foi. Parte de todo o processo foi entender qual era o meu som. Especialmente, não emular o som do Van Halen. Isso era o mais importante para mim. É importante que eu não segui os mesmos passos do meu pai em termos de som, porque isso foi algo que ele fez. Eu deveria fazer algo nos meus próprios méritos em fez de tentar isso, sabe?

Claro, até porque, as comparações são inevitáveis, certo? Como você lida com isso?

É inevitável, exatamente. Então, terei que lidar com isso de qualquer forma. Além disso, é algo natural, apesar da relação com o Van Halen. Acho que a primeira coisa que qualquer um faz ao ouvir algo novo é tentar relacionar com algo que já conhece. E fazem isso só com uma música. É divertido de ver porque as pessoas não sabem o que vem por aí. Há muito mais no álbum, é diferente.

Bom, isso é uma culpa de jornalistas de música, que sempre colocam artistas em caixinhas, possivelmente. Mas você estava falando de "Distance", a primeira música desse projeto, e que o álbum tem estéticas diferentes. Como esse single indica detalhes da sua identidade musical?

Em questão de som, eu acho que essa música apresenta uma parte da sonoridade. Há uma estética central da banda, que você poderá sentir tanto nas músicas mais leves, como essa, e também nas músicas mais pesadas, também. Todas estão debaixo do mesmo guarda-chuva sonoro. As pessoas definitivamente vão ouvir mais dessa vibe de "Distance" no álbum, mas também ouvirão coisas que não conhecem ainda. Vai ser interessante.

Por falar em disco, o mercado hoje é bem diferente de quando você começou a criar o álbum. O que podemos esperar da linguagem dele? Será um disco com um conceito completo, de começo, meio e fim, ou serão músicas que funcionam em diferentes playlists, de humores distintos?

É realmente um disco completo, mesmo. Para se ouvir de uma vez só e o ritmo flui muito bem. Eu e meu tio Patrick [Bertinelli, irmão da mãe de Wolfgang] fizemos questão de que o disco soasse desta forma. Fizemos várias versões da tracklist do disco no computador, umas 100 playlists, para entender qual era o melhor flow das músicas e acho que chegamos em algo perfeito.

Agora, sobre o clipe de "Distance", acho que qualquer um deve ter ficado emocionado com essas imagens entre você e o seu pai. Pode ser uma pergunta estúpida - porque minha família não tem tantas imagens antigas arquivadas de forma organizada assim -, mas de onde vieram essas imagens? Como foi essa pesquisa?

[Risos] A gente tem muita sorte em ter essas imagens, de fato. Não sabia que tínhamos, na verdade. Minha mãe achou algumas fitas antigas e digitalizamos. Meu tio, Patrick, procurou e também encontrou algumas coisas. Eu tinha imagens também. Conseguimos reunir o suficiente e mandar para o editor, Chuck, que juntou tudo isso.

Bom, devemos estar quase sem tempo. Aliás, acabaram de mandar uma mensagem no chat dizendo que é a última pergunta. "Distance" não era o single do álbum, até onde eu li, mas virou depois. Como ele funcionou como single, então?

Quando as pessoas ouvirem o álbum inteiro vão perceber que é um disco de rock. Apesar de músicas mais leves, como "Distance", é um trabalho coeso, mas eu defino ele como um álbum de rock.

E vai sair em 2021, é isso?

Exatamente.

Obrigado, Wolf!

Eu que agradeço.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.