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Pedro Antunes

África Brasil: 4 segredos revelados pelo livro sobre clássico de Jorge Ben

Capa do disco "África Brasil" (1976), de Jorge Ben - Reprodução
Capa do disco 'África Brasil' (1976), de Jorge Ben Imagem: Reprodução
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

02/12/2020 04h00

Sem tempo?

  • Em 1976, Jorge Ben mostrava seu auge criativo
  • Depois de dois álbuns experimentais, ele soltou o disco 'África Brasil', um marco da música brasileira
  • O disco foi esmiuçado pela jornalista Kamille Viola no livro 'África Brasil: Um Dia Jorge Ben Voou Para Toda Gente Ver'
  • Aqui, você encontra quatro descobertas a respeito do álbum, de música surpresa ao Zico à troca do violão pela guitarra

Quando soltou "África Brasil", Jorge Ben (ainda sem o "Jor" que seria acrescentado anos depois, em 1989) já tinha se colocado como um dos grandes nomes da música nacional.

O ano era 1976 e Jorge Lima Meneses vivia um movimento de transformação e experimentação. Depois do sucesso com músicas como "País Tropical", "Que Pena" e "Fio Maravilha", de ter sido abraçado pela galera da bossa nova e da Jovem Guarda, Jorge se emancipava.

(Essa é uma versão acústica de "Taj Mahal", uma das músicas mais populares do disco "África Brasil".)

Experimentou com a tríada de discos "A Tábua de Esmeralda" (1974), "Solta o Pavão" (1975) e "África Brasil" (1976). Este último é esmiuçado pela jornalista Kamille Viola no e-book delicinha "África Brasil: Um Dia Jorge Ben Voou Para Toda Gente Ver", lançado pela Edições Sesc São e já disponível nas lojas virtuais e nas unidades do Sesc (R$ 15,00).

Parte da coleção Discos da Música Brasileira, o livro digital é resultado de um trabalho de mais de uma década da jornalista. Para ela, Jorge foi "farol" de diferentes vertentes da música brasileira, do rap ao tropicalismo, passando pelo mangue beat.

"Três das mais importantes expressões musicais do nosso país, beberam na fonte do alquimista. Se não fosse Jorge Lima Meneses, a história da música brasileira certamente seria outra"
Kamille Viola, autora de 'África Brasil: Um Dia Jorge Ben Voou Para Toda Gente Ver'

Aqui, pedi à Kamille por quatro descobertas e/ou curiosidades dela para a escrita do e-book.

Vamos lá?

Antes, coloque essa música para tocar para entrar no clima:

A troca do violão pela guitarra

Kamille Viola lembra que apesar de Jorge Ben ter flertado com a guitarra antes, foi em "África Brasil" que ele assumiu esse relacionamento sério com o instrumento. E a culpa, no bom sentido, foi do baixista Dadi, quem havia integrado os Novos Baianos.

O livro conta que Jorge usava um violão plugado nas gravações do álbum anterior, "Solta o Pavão", mas em uma viagem a Londres, o músico trocou o instrumento por uma guitarra comprada pelo Dadi.

"Eu fui lá e comprei uma guitarra, Ibanez, que eu adorava e tal. O Jorge adorou a guitarra, olhou, ficou doido com a minha guitarra, e eu sei que, quando a gente voltou para o Brasil, um dia ele virou para mim: 'Quer trocar essa guitarra pelo meu baixo Precision?'. Ele tinha um baixo Fender Precision, lindo, que era antigo. Aí eu fiquei doido e falei: 'Lógico, vamos trocar.'"
Contou Dadi no livro

Pois é. E há ainda quem sacaneie Dadi como o responsável por fazer Jorge Ben trocar o violão pela guitarra, coitado.

Música de presente depois de quatro gols

Como lembra Kamille, Jorge Ben era um fanático pelo futebol - e chegou a jogar nas categorias de base do Flamengo, o time do coração, na juventude. Quando ia ao estádio, Jorge tinha o costume de cumprimentar os jogadores depois das partidas.

Em um domingo histórico no Maracanã, em 7 de março de 1976, Zico fez quatro gols na partida contra o Fluminense, um clássico do futebol carioca.

"Ele entrou no vestiário cantando:'É falta na entrada da área / adivinha quem vai bater? / É o camisa 10 da Gávea"
conta Zico no livro 'África Brasil: Um Dia Jorge Ben Voou Para Toda Gente Ver'

Só que Jorge Ben, que já havia sido processado pelo jogador João Batista de Sales, cujo apelido era Fio Maravilha - sim, o mesmo da música de Jorge Ben. Zico, então, conta que não imaginava que Jorge faria novamente uma música inspirada diretamente em um jogador de futebol.

No fim do ano, veio "África Brasil" e a música na versão final, "Camisa 10 da Gávea":

Na música, Jorge Ben cita o "Galinho de Quintino", que era o apelido de Zico.

Influência no rap nacional

O livro "África Brasil: Um Dia Jorge Ben Voou Para Toda Gente Ver" também avalia a importância do álbum "Africa Brasil" nos anos seguintes, como pedra fundamental para o nascimento de outros gêneros da música brasileira.

Como é o caso do rap nacional. Marcelo D2, Mano Brown e BNegão, por exemplo, dão depoimentos ao livro para falar sobre como Jorge Ben foi importante na construção de um imaginário negro positivo.

Nas canções de Jorge Ben, personagens negros eram heróis e reis. O professor do Instituto Brasiliense de Direito Público, mestre em direito e doutorando em direito pela UnB, Marcos Queiroz, destaca a regravação de "Zumbi", música de "A Tábua de Esmeralda" (disco seminal de 1974).

No álbum de 1976, Jorge Ben refaz a música como "Africa Brasil (Zumbi), em uma versão mais pancada. Como Kamille destaca, Jorge quebra com a ideia de democracia racial ao evocar Zumbi. A voz rasgada de Jorge aqui influenciaria movimentos musicais e chegaria até o rap.

E o 'Bob Marley brasileiro'?

Essa talvez seja a mais curiosa das histórias, embora não seja diretamente ligada à gravação de "África Brasil". Acontece que naquela primeira metade da década de 1970, Jorge Ben estava com tudo, como escrito no início desse texto, e isso chamou a atenção de ninguém menos do que o cara que lançou Bob Marley.

O produtor Chris Blackwell, da Island Records, tinha sido responsável por fazer todo mundo ouvir o álbum "Catch a Fire", de Marley, de 1974 (mesmo ano em que Jorge soltou "A Tábua de Esmeralda"), e se encantou por Jorge Ben.

Ele fez planos ambiciosos para Jorge. Queria transformá-lo num "Bob Marley brasileiro", digamos assim. Por isso, levou o artista e a banda Admiral Jorge V, que contava com Dadi (que está na primeira história contada lá em cima), para gravar um álbum em Londres.

Infelizmente, tudo degringolou logo na primeira ida deles para Londres. Tudo aconteceu depois de uma turnê intensa pela França, Jorge estava cansado de tantos shows e gravações.

O álbum até saiu, com nome de "Tropical", primeiro lá na Inglaterra, ainda em 1976, e um ano depois no Brasil. É histórico por trazer músicas clássicas, como "Chove Chuva", em outros arranjos.

Foi esse também um disco de despedidas, já que marcou a saída dele da gravadora Philips Records, que chegou a lançar o álbum no Brasil no ano seguinte, em 1977.

Você pode ouvir o álbum na integra no player abaixo:

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.