PUBLICIDADE
Topo

Pedro Antunes

Eric Clapton: música anti-lockdown resgata racismo e xenofobia de 1976

Eric Clapton no Festival de Cinema de Toronto, onde divulgou o documentário sobre sua vida "Life in 12 Bars"
Eric Clapton no Festival de Cinema de Toronto, onde divulgou o documentário sobre sua vida "Life in 12 Bars"
Fred Thornhill/Reuters
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

30/11/2020 12h21

Com música anti-lockdown, Eric Clapton fez questão de nos lembrar de como ídolos podem ser babacas.

Não precisa existir fisicamente uma lista para reunir as decepções dos gigantes da música que já mostraram o pior deles. Vocês sabem quem são, de Morrissey a John Lennon (pois é, pessoal), passando por personalidades mais óbvias, como Noel Gallagher.

Continua depois da publicidade

Pois Eric Clapton foi parar nos trending topics do Twitter ao nos lembrar os motivos que o colocam nesta baciada de pesadelos.

Tudo voltou com essa história aqui:

Como noticiou a Variety, Eric Clapton participará novo single do Van Morrison, artista que já teve trabalhos incríveis (tipo "Astral Weeks", de 1968).

A música se chamará "Stand and Deliver" e promete ser um blues criado por Morrison e executado por Clapton.

Esse encontro artístico vale ouro. O motivo para ele acontecer, contudo, é discutível.

Morrison é um dos artistas que mais tem atuado contra as medidas de lockdown impostas pelo governo do Reino Unido durante a pandemia do novo coronavírus. Ele já soltou três singles, "Born To Be Free", "As I Walked Out" e "No More Lockdown".

Já sacaram do que se tratam as músicas, né?

E há uma boa intenção ali, já que a grana gerada por esses singles vai para um fundo criado pelo Morrison para ajudar músicos que encontram dificuldades financeiras durante a pandemia e o fim dos shows e performances ao vivo.

Continua depois da publicidade

Isso, OBVIAMENTE, é uma preocupação de Morrison, de Clapton, minha e de qualquer um que está minimamente ligado à indústria da música de modo geral. O buraco financeiro criado pela ausência de shows desde março é gigantesco.

E não estou falando só de quem está lá cantando ao microfone, mas existe toda uma cadeia de profissionais completamente parada que depende das performances. A galera da graxa, produtores, empresários, técnicos de som, enfim, todo mundo tá lascado, realmente.

O perigo dessa história é a mensagem contra o lockdown, uma medida mais drástica (e necessária) para o combate do novo coronavírus que nem sequer foi usada aqui no Brasil, mas foi adotada na Ásia, Europa e América do Norte.

O Atila Iamarino comentou essa história:

Continua depois da publicidade

E ele até cita Eric Clapton:

A participação de Clapton nesse movimento anti-lockdown (que também é político até a ponta do fio de cabelo, jamais se esqueça disso) colocou o guitarrista de novo em uma posição completamente desconfortável por conta de atitudes dele do passado.

E muita gente lembrou da história do show dele em Birmingham, na Inglaterra, em 1976. Na ocasião, Clapton vomitou frases racistas e xenofóbicas para o público, o que gerou uma reação gigantesca e o nascimento do movimento britânico Rock Against the Racism, naquele mesmo ano.

"Impeçam o Reino Unido de se tornar uma colônia negra. Tirem os estrangeiros daqui (...). Mantenham a Grã-Bretanha branca. Eu costumava gostar de drogas, agora gosto de racismo."
Eric Clapton em show em Birmingham, em 1976, segundo o site Daily Beast

Ele já se justificou pelas atitudes, culpou a autossabotagem e o uso de drogas.

Mas, é claro, claro, a internet buscou outros momentos completamente babacas de Clapton:

Continua depois da publicidade

Clapton surpreendeu até quem não acreditava que seria surpreendido:

Houve ainda quem comparasse a atitude de Clapton com o que estão fazendo outros artistas sobre a pandemia do novo coronavírus:

E enquanto a pandemia do novo coronavírus segue lembrando a gente de que alguns ídolos também têm opiniões e ideias bastante problemáticas, outros enchem a gente de orgulho.

Não é, Zeca?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.