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Pedro Antunes

Por que o fim do reinado dos Beatles no top 500 da Rolling Stone incomoda?

Os Beatles na capa de Abbey Road - Reprodução
Os Beatles na capa de Abbey Road Imagem: Reprodução
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

19/10/2020 16h53

Entenda a história

  • A Rolling Stone gringa refez a lista de 500 melhores discos de todos os tempos.
  • E os Beatles, que eram os mais bem colocados na versão de 2003, caíram.
  • Só no top 10 eram 4 álbuns dos Beatles.
  • Agora, o melhor de todos os tempos é de Marvin Gaye.
  • Afinal, o que significa essa mudança?

O ano era 2003 e a lista de 500 melhores álbuns de todos os tempos da Rolling Stone dos Estados Unidos fez um barulho danado. Como todas as listas fazem, aliás, certo? Havia uma prepotência sadia de ter a "lista definitiva" com os maiores e mais importantes discos da humanidade.

Eram 10 discos dos Beatles no listão. Quatro deles entre os 10 primeiros colocados. "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" e "Revolver ensanduichavam o "Pet Sounds", dos Beach Boys, nas primeiras três posições.

E aí veio o (impensável) reboot da lista. Oras, se até filme de terror meia boca ganha reboot, por que não uma lista clássica? Justo que ela seja atualizada para 2020, 17 anos depois da versão original.

O top 10 de 2003 era assim:

10º) Beatles, "The Beatles" (Álbum Branco)
9º) Bob Dylan, "Blonde on Blonde"
8º) The Clash, "London Calling"
7º) Rolling Stones, "Exile on Main Street"
6º) Marvin Gaye, "Whats Going On"
5º) The Beatles, "Rubber Soul"
4º) Bob Dylan, "Highway 61 Revisited"
3º) Beatles, "Revolver"
2º) Beach Boys, "Pet Sounds"
1º) Beatles, "Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band"

E o resultado da nova lista, o top 10 atualizado, ficou assim:

10º) Lauryn Hill, "The Miseducation of Lauryn Hill"
9º) Bob Dylan, "Blood on the Tracks"
8º) Prince and the Revolution, "Purple Rain"
7º) Fleetwood Mac, "Rumours"
6º) Nirvana, "Nevermind"
5º) The Beatles, "Abbey Road"
4º) Stevie Wonder, "Songs in the Key of Life"
3º) Joni Mitchell, "Blue"
2º) The Beach Boys, "Pet Sounds"
1º) Marvin Gaye, "What's Going On"

Beatles não são mais a maior banda de todos os tempos?

Eles são, certo? Se você é um dos que ficou incomodadíssimo com a nova lista, certamente dirá que sim. E, cá entre nós, também considero o Quarteto de Liverpool como um dos artistas que mais revolucionaram a música pop. A maior de todos os tempos? Bom, depende de qual contexto e qual prisma adotado.

(Tenho um amigo, por exemplo, que já passou 5 horas argumentando de que Red Hot Chili Peppers era a MAIOR banda de todos os tempos em um bar. A conta saiu cara e, eu, irritado)

Em uma década, os Beatles fizeram o que muita banda ou artista foi incapaz em mais de 30 anos de carreira. Transformaram-se, amadureceram, criaram joias teen deliciosas no início e, depois, pérolas barrocas de estúdio nos álbuns finais.

Mas em 2003 a gente não imaginaria viver um 2020 desses certo? Sonhávamos com carros voadores e ganhamos notícias de dinheiro na cueca do vice-líder do governo, uma pandemia tratada como gripezinha e coisas assim.

Ter os Beatles no topo da lista de 17 anos atrás era coisa de técnico de futebol que joga para garantir o emprego. Aquele treinador que não abre mão de escalar dois volantes na frente dos zagueiros, permite que um lateral avance por vez e torce por um gol de falta ou de escanteio. Aquele bom e velho: "1 a 0 já garantem os três pontos".

E digo mais, quatro discos dos Beatles no top 10, dentre uma infinidade de álbuns lançados na existência, só não é exagero para quem for beatlemaníaco ou não quiser abrir os ouvidos para qualquer coisa que não seja rock ou coisa do tipo.

Diversidade é importante, pessoal

Numa lista que se diz definitiva, é importante realmente ser abrangente. Quantos artistas não-brancos estavam no top 10 da versão de 2003? Só um, o Marvin Gaye. Quantas mulheres naquele recorte dos 10 primeiros? Zero.

Em 2020, a lista ganha mais abrangência e magnitude. Rolou a chegada de Lauryn Hill, Prince, Nirvana, Fleetwood Mac, Stevie Wonder e Joni Mitchell reunidos aos citados na última vez Bob Dylan, Beatles, Beach Boys e Marvin Gaye.

Claro que está longe de ser ideal nesse sentido, mas já aponta um caminho mais diverso interessante.

Afinal, vou contar um segredo para quem não gostou da reedição: não existe só uma grande banda no mundo. Se houver, ela não é o Guns N' Rose (piada interna pra quem leu o primeiro texto dessa coluna e já está me atacou em todas as redes sociais possíveis).

É o Marvin Gaye, afinal

O fato é: os Beatles não têm quatro dos 10 melhores álbuns já criados de todos os tempos. Essa é uma verdade dura de ouvir/ler e eu entendo. A gente ouve música hoje, em 2020, de forma diferente do que ouvia em 2003 e isso passa também pela transformação da nossa forma de absorver cultura.

A razoável democratização do "ouvir música" proveniente dos serviços de streaming ampliou as possibilidades. A gente pode sacar o melhor do rap russo ou o que é a música pop da Malásia ou do sul da Índia.

Por que quatro caras brancos, filhos da classe trabalhadora, precisam ser os únicos donos da excelência musical. "What's Going On" já foi eleito o melhor álbum de todos os tempos em outros veículos importantes, como The Guardian (em 1997) e NME (em 1985). Curiosamente, duas publicações britânicas.

A nova lista é política, sim

Saca só esse disco do Gaye:

Produzido pelo próprio Marvin Gaye, What's Going On é o 11º álbum do artista, lançado em 1971 (um ano depois do fim dos Beatles, aliás). Foi um trabalho que marcou o distanciamento dele do som conhecido como Motown e o início de uma linguagem própria.

O fim dos anos 60 e o início da década seguinte foram duros com Gaye. Ele enfrentou uma depressão, afundou-se no vício em cocaína, tinha problemas no casamento com Anna Gordy (relacionamento que chegou ao fim em 1973 e o divórcio veio dois anos depois) e com o Imposto de Renda dos EUA e até chegou a tentar suicídio.

"Em 1969 ou 1970, eu comecei a reavaliar todo o conceito do que queria que a minha música passasse para as pessoas. Eu estava muito influenciado pelas cartas enviadas pelo meu irmão do Vietnã, assim como pela situação social dos Estados Unidos",
Marvin Gaye, à Rolling Stone

Gaye percebeu que "deveria colocar as minhas próprias fantasias para trás se quisesse realmente tocar a alma das pessoas".

"Eu queria que as pessoas olhassem para o que estava acontecendo no mundo"

Uma guerra inútil (do Vietnã), tensões raciais nos EUA: tudo isso influenciou "What's Going On".

Bastante conceitual, o disco parte de uma narrativa de alguém que voltou do Vietnã como veterano de guerra e testemunha o estado das coisas na época: injustiça, ódio, desigualdade. Nesse âmbito, Gaye escreve sobre pobreza, sobre abuso de drogas e também traz à tona uma preocupação com questões ecológicas.

Bem contemporâneo, certo?

E as comparações de "What's Going On" com 2020 ficam ainda mais assustadoras quando você descobre que o gatilho para o álbum foi justamente uma ação de violência exagerada de um policial contra protestantes pacifistas antiguerra em 15 de maio de 1969 testemunhada por Renaldo Benson (da banda Four Tops), em Berkeley, na Califórnia, em um dia que ficou conhecido como "Quinta-feira Sangrenta".

Ou seja, ao bancar "What's Going On" no topo da lista de Melhores Álbuns de Todos os Tempos, a Rolling Stone está fazendo uma declaração política, sim. Tristemente, um álbum com 49 anos de história é tão atual que chega a doer.

Quem votou?

A lista foi repaginada, sim, mas isso passa também por um novo time de jurados que participou da original. Ao todo, 300 pessoas, entre jornalistas, artistas e figuras da indústria da música. A cada um deles foi pedido para indicar 50 discos favoritos, em ordem.

O primeiro lugar de cada um recebeu 300 pontos, o segundo recebeu 290 pontos e assim foi até o último da lista individual, que recebia 44 pontos.

Mais de 3 mil discos receberam, pelo menos, um votozinho. É disco que não acaba mais, né?

E quem votou? Bom, a lista é obviamente enorme, mas vai da maior artista do pop da atualidade Beyoncé ao experimentalismo indie delicinha de John Cale (do Velvet Underground). Nesse miolo tem Alice Cooper, The Edge (U2), Billy Gibbons (ZZ Top), Adam Horovitz (Beastie Boys), Stevie Nicks, Gene Simmons (Kiss), Lars Ulrich (Metallica), Gerard Way (My Chemical Romance), Brittany Howard (Alabama Shakes).

Pô, é um júri de respeito.

Jogada genial de audiência

A questão também é do mercado do jornalismo. Listas rendem cliques, rendem audiência, seja para "love" ou para "hate". A lista da Rolling Stone de 2003, por exemplo, foi acessada 63 milhões de vezes somente em 2019.

Recriar a lista é, estrategicamente interessante. Renova-se a audiência e a curiosidade de todo mundo, ganha mais uma enxurrada de acessos e entrega uma mensagem que é política, é social e também contemporânea.

Claro que têm incoerências

Não são só os Beatles que foram "injustiçados" como muita gente disse por aí.

(Embora, convenhamos, vamos mesmo falar sobre justiça numa sociedade em que até hoje pessoas negras precisam trabalhar o dobro do que pessoas brancas, com mais adversidades no caminho, para conseguir o mesmo resultado?)

Há questões debatíveis. Eu concordo com 6 álbuns de Kanye West na lista. O que o artista Kanye fez para a música em produção e vanguarda é realmente fantástico.

Lauryn Hill no top 10 é fantástico. Nirvana, Fleetwood Mac e Prince também estão nessa primeira dezena de colocados e é ótimo. Joni Mitchell Stevie Wonder são geniais e merecem o lugar onde estão, também.

Embora influentes até a última ponta do fio de cabelo de Paul McCartney, os Beatles não os únicos artistas que merecem louvor e que afetaram a música e a vida das pessoas.

Claro, me incomoda profundamente que artistas fora do "centro" (para eles, formado por Estados Unidos, Reino Unido e Europa) sejam tão desprezados em uma lista assim. Além disso, no miolo da lista, algumas presenças, ausências e posições são bastante discutíveis. #Peloamordedeus, o João Gilberto (tão reconhecido por lá por conta da bossa nova), pelo menos, deveria estar na lista.

Listas são pessoais, afinal

Embora sejam 300 pessoas votando, cada lista individual dos jurados é pessoal, com padrões particulares. A média desses 300 votos, é óbvio, não faz um recorte verdadeiro e único da realidade da música nos séculos 20 e 21. É, como escrevi aqui, "um recorte", não o todo.

A lista de "500 Melhores Álbuns de Todos os Tempos" não é definitiva. Porque nada mais é. Foi reeditada depois de 17 anos e deve ser recriada de novo, em breve. Toda lista vai trazer mais tráfego de cliques, quanto mais audiência mais grana entra e mais lucrativo o negócio se torna.

Em tempos de música fluída, dos singles, dos EPs, dos lançamentos a jato, da força música do oriente, do k-pop, do reggaeton, tudo vai se transformar de novo, e de novo, e de novo, e de novo.

E se, mesmo depois de ouvir ao álbum do Marvin Gaye, com atenção e o entendimento de toda a orquestração e instrumentação, da voz de Gaye, das temáticas, do que ele significou para 1971 e para todos os anos seguintes até 2020, você pode criar uma lista só com discos dos Beatles, também.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.