PUBLICIDADE
Topo

Pedro Antunes

Os segredos de Dreams, do Fleetwood Mac: drogas, traições e meme no TikTok

Nathan Apodaca ajudou o Fleetwood Mac a viralizar - Reprodução
Nathan Apodaca ajudou o Fleetwood Mac a viralizar Imagem: Reprodução
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

16/10/2020 10h07

Sem tempo, irmão?

  • Um skatista teve o veículo enguiçado a caminho do trabalho, fez um vídeo e viralizou
  • Com isso, a música "Dreams", do Fleetwood Mac, ganhou mais de 200 milhões de plays
  • A história por trás de "Dreams" envolve traições, corações partidos e uso de drogas e álcool
  • Conheça a verdadeira história por trás da música do meme

Uma música de um disco clássico, que parece ser "good vibes" (mas que traz uma mensagem melancólica de término), um skatista que tenta chegar ao trabalho depois de o carro enguiçar, com um suco na mão e um olhar de despreocupação para a câmera.

Tudo deu errado e, ainda assim, Nathan Apodaca, bom blogueiro que é, aproveitou o caos para criar um vídeo com "Dreams", do Fleetwood Mac, ao fundo e virar meme. Com isso, a música da banda inglesa foi impulsionada e tocada 230 milhões de vezes desde a postagem original no TikTok.

Sinta a vibe delicinha:

Foi um sucesso tão grande que até integrantes da banda, como Stevie Nicks e Mick Fleetwood, repetiram o meme e alguém até criou um filtro no Instagram para quem quiser colocar o próprio rosto no corpo e na vibe do norte-americano.

A história verdadeira por trás de "Dreams" e de todo o álbum "Rumours", lançado em 1977, contudo, é bem o oposto dessa leveza toda. O que transforma a viralização em algo mais genial ainda.

Mas vamos à história da música por trás do meme?

É preciso voltar no tempo, para a deliciosa (dizem) e lisérgica (ouvi por aí) década de 1970. É importante entender o contexto histórico para se chegar em "Dreams". O Fleetwood Mac teve diferentes formações e já tinha 10 álbuns lançados até a chegada de "Rumours". Ou seja, eles não eram nada novatos.

Pelo contrário, a banda, criada pelo guitarrista Peter Green, pertencia à cena de blues britânica ainda nos anos 1960 e tinha um sucesso moderado (com um par de discos posicionados entre os top 10 do Reino Unido).

Green, um guitarrista conhecido por ser um virtuoso do instrumento e pelo apetite por LSD, deixou o grupo em 1970 ao ser diagnosticado com esquizofrenia. A entrada da nova década significava o momento de virada para o grupo.

Um guia rápido de nomes

Para você não se perder nesse amontoado de nomes, chegamos ao ano de 1975 com a seguinte formação: Mick Fleetwood (bateria), John McVie (baixo), Christine McVie (voz e teclado), Stevie Nicks (voz) e Lindsey Buckingham (guitarra e voz).

Agora que a coisa começa a ficar complexa. O baixista John McVie e a tecladista Christine McVie eram casados. Stevie Nicks e Lindsey Buckingham mantinham um relacionamento de idas e vindas. Por fim, o baterista Mick Fleetwood também era casado, mas com ninguém da banda —o que foi, você verá, a salvação do grupo.

Traições e corações partidos

Às vésperas da gravação do álbum "Rumours", todos os relacionamentos amorosos dos integrantes do Fleetwood Mac desintegravam.

Para começar, o baixista John McVie bebia em excesso e isso prejudicava o relacionamento dele com Christine. Ela, por sua vez, iniciou um romance com um engenheiro de som do grupo. Ao descobrir, John passou a beber mais, transar com fãs do Mac e dar barracos em hotéis durante a última turnê deles antes da gravação de "Rumours".

Stevie Nicks e Lindsey Buckingham mantinham um relacionamento mais volátil, digamos assim. Ninguém ali era adepto da monogamia, mas eram ótimos compositores e, principalmente, especialistas em mandar indiretas por versos de canções.

"Go Your Own Way", do mesmo "Rumours", foi uma composição de Lindsey Buckingham para Stevie Nicks, por exemplo.

Ouve só e saque a letra:

Até o grandalhão baterista Mick Fleetwood enfrentava problemas amorosos mesmo que não tivesse um relacionamento com outro integrante do grupo. Ele descobrira que a então esposa mantinha um affair com o melhor amigo dele.

Imagine esse climão todo?

Bom, é nesse cenário de terra-arrasada digno de folhetins da TV Globo que o álbum "Rumours" nasceu. Em uma escala muitíssimo menor, o viral do TikTok "Dreams" também nasceu do caos.

Mas espere que ainda tem mais treta do Fleetwood Mac.

Drogas, mais drogas e um nariz que iria se desintegrar

De volta ao contexto histórico. Os anos 1960 aproximaram bandas e a música do consumo de drogas e alucinógenos. Na década seguinte, chegaram novas opções de ilícitos, como a cocaína. E essa foi a perdição do Fleetwood Mac.

Eles adoravam a droga. Com a fragilidade emocional de cada um diante dos términos, o grupo afundou mais na dependência química em um habitat propício para isso: a Califórnia nos anos 1970. Claro, o que já estava polvilhado de pólvora explodiu.

Steve Nicks, por exemplo, teria gastado US$ 1 milhão em cocaína, diz a lenda. Ela só deixou o vício em 1986, ou seja, nove anos depois de "Dreams", porque um médico avisou-a de que o nariz dela desintegraria se seguisse com o vício.

Mick Fleetwood, o baterista, faliu de tanto dinheiro gasto em pó, apesar de embolsar milhões com a banda.

Disco cheio das indiretinhas - e outras diretas

Por fim, sobrou para Fleetwood servir como mediador nas tretas todas entre os integrantes do Mac e ex-casais. Ele, que também passava por uma separação, é bom lembrar, conseguiu unir os cacos de relacionamentos que havia se transformado a banda, já que ninguém se falava mais ali a não ser sobre negócios.

Obviamente, ninguém mais queria compor junto. Cada um fazia uma música na sua, geralmente com acusações pesadas ou indiretas sobre o ex-cônjuge. Não por acaso, Christine McVie disse que aquelas sessões de gravação foram um "pesadelo". Eles começavam às 19h, bebiam e cheiravam até não poderem mais e, quando quase não conseguiam ficar em pé nem arremessar copos uns nos outros, começavam a gravar.

De fato, não era fácil.

Embora brava porque Lindsey Buckingham havia escrito "Go Your Own Way" claramente para ela, Stevie Nicks retribuiu com mais classe e versos menos incisivos em "Dreams".

Éramos a fada e o gnomo. Eu tentava ser mais filosófica, ele só estava raivoso.

disse Stevie Nicks à revista Q em 2009

Ela mostrou ao ex uma versão bastante crua da música, em voz e piano, e ele sorriu ao terminar de ouvir a fita.

Único 1º lugar da banda nos EUA

O que estava acontecendo entre a gente era triste. Éramos um daqueles casais que não conseguem fazer acontecer. Mas, como músicos, ainda nos respeitávamos, e conseguimos criar canções incríveis a partir disso.

Stevie Nicks ao Daily Mail, também em 2009

Entre excessos de álcool, cocaína e discussões, o Fleetwood Mac conseguiu terminar "Dreams", música que logo caiu nas graças da gravadora e se tornou a única canção da banda a chegar ao topo das paradas de Top 200 dos Estados Unidos.

A partir do álbum "Rumors", o Fleetwood Mac se transformou em uma das bandas a fundamentar o que viria ser um pop adulto, daquele que toca à exaustão nas rádios FM. Não chegaram ao topo dos EUA, é verdade, mas venderam milhões de discos e são adorados até hoje.

Um carro enguiçado

E, com isso, voltamos ao tiktoker Nathan Apodaca, alguém já famosinho no universo das redes por vídeos engraçados com trilhas sonoras ótimas. Inclusive, aqui vai uma dancinha dele ao som de "Sk8er Boi", da Avril Lavigne, que você deveria assistir.

Como contamos em Splash, ele já passou por muito perrengue nessa vida, mora em um trailer que não tinha água corrente e, naquele dia, viu o carro enguiçar e precisou seguir para o trabalho de skate.

Assim como Stevie Nicks, Mick Fleetwood, John McVie, Christine McVie e Lindsey Buckingham, o norte-americano Nathan Apodaca também venceu um perrengue. E o fez ao som de "Dreams".

Aliás, vou fazer o mesmo para lidar com os fãs furiosos de Guns N' Roses por conta desse texto aqui: 'O mundo ainda precisa de Guns N' Roses?'.