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Grito e corpo 'urdindo desejos': as marcas de Gal Costa no Tropicalismo

"Tudo foi um pouco agressivo na apresentação de 'Divino, Maravilhoso' no 4° Festival de MPB da Record. O grito passou a ser usado como forma de expressão e, segundo Gal, havia um homem na plateia insultando-a. Isso não foi o suficiente para afugentá-la. Pelo contrário, a artista relembra que os insultos lhe deram mais força. Ela cantou com violência na direção daquele homem infeliz, e ele foi ficando cada vez menor diante de uma artista que estava ali para dominar o palco. Quando começou a música, Gal era uma menina. Após o arrebatamento sacrificante vivido por ela nessa histórica performance, Gal Costa renascia como uma mulher."

É assim que a pesquisadora Taissa Maia registra um dos momentos decisivos da carreira de Gal Costa, vivido em 1968. O relato está em "A Todo Vapor", livro que acaba de sair pela Garota FM.

A obra é um breve ensaio sobre como a artista que faleceu há um ano vivenciou e contribuiu para dar forma ao Tropicalismo, movimento tantas vezes associado a músicos como Gilberto Gil e Caetano Veloso. Sim, entender como o machismo forja nosso olhar para a história da arte é um dos pilares do trabalho de Taissa.

Com apoio de intelectuais como Michelle Perrot, Augusto de Campos, Bell Hooks e Silviano Santiago, a ensaísta extrapola a voz e a canções interpretadas por Gal para mirar o palco e analisar como a artista soube usar o corpo "urdindo desejos" e cheio de "potência de vida". Isso numa época em que a liberdade sexual das mulheres soava como uma afronta para uma certa ideia de bela, recatada e do lar.

"Para se compreender a obra de Gal Costa, é preciso olhar para o corpo em cena, deslocando-se; para os sentidos gerados pela imagem parada e em movimento; para a voz como um instrumento orgânico", defende a autora. Em diversos momentos, Taissa faz questão de sublinhar que não pretende esgotar o assunto nem esmiuçar a trajetória de Gal. Mas as boas pitadas biográficas estão lá.

Enquanto sacamos essa centralidade do corpo na obra de Gal, lemos sobre a sua juventude, a admiração por João Gilberto e o elo com Caetano Veloso. Num choque entre esses grandes nomes de nossa música, o Tropicalismo efusivo e anárquico surge como um contraponto ao minimalismo e comedimento da Bossa Nova.

O Brasil para além da arte também está nas páginas de Taissa:

"Escorria pelas ruas o sangue da violência e até nas discussões estéticas o clima se acirrava. Os exemplos são conhecidos, como quando Caetano foi vaiado junto aos Mutantes no 3° Festival Internacional da Canção, o que gerou o discurso no qual ele declarou: 'Se vocês, em política, forem como são em estética, estamos feitos!'. A ironia de Caetano despertou a fúria da plateia. Relatos contam que foram arremessados tomates e até um pedaço de madeira, que atingiu Gil, tirando sangue de sua canela."

A influência do cenário político nacional entre o golpe de 64 a ditadura civil-militar, claro, é parte inescapável do contexto para compreender a trajetória e certas mudanças na carreira de Gal. Para a ensaísta, coube à cantora dar continuidade a Tropicália por essas bandas quando Gil e Caetano se exilaram, bem no final dos anos 1960.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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