Luciana Bugni

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Opinião

Marido de Ana Hickmann é vilão de filme, mas há outros menos óbvios por aí

Dedique 40 minutos de sua vida à aula teórica repleta de exemplos práticos do que é um relacionamento tóxico que pode culminar em episódio de violência física: a dolorida entrevista de Ana Hickmann para Carolina Ferraz, no Domingo Espetacular (Record), deste domingo (26).

Ana sofreu ameaças de agressão do marido, Alexandre Correa, e teve uma porta fechada em seu cotovelo antes de conseguir se trancar na cozinha e ligar para a polícia. Só foi possível fazer isso quando ela fez com que um de seus cachorros avançasse no agressor — um filme de terror em que se é salva pelo vira-lata resgatado.

Ouvir a polícia atendendo a ligação de Ana fez com que Alexandre recuasse — ele estava tentando pular uma janela para impedi-la de fazer a ligação. As nuances do relato fazem Carolina Ferraz se encolher na cadeira (e o público também).

Tem mais: naquele dia, tudo começou quando Ana resolveu contar para o filho, 10, o que havia descoberto sobre as finanças da empresa familiar. Alexandre havia escondido dívidas, falsificado assinaturas e não dá para saber que outro tipo de crime tenha cometido porque a investigação segue em sigilo. Ele não gostou que a mulher falasse a verdade para o filho e resolveu impedi-la fisicamente, após um bate-boca.

Todos esses fatores colocam Alexandre no patamar de vilão de filme. O homem grosseiro que fere fisicamente a mulher bonita e assusta o filho, uma criança, não merece o perdão da opinião pública (ainda bem, só faltava). Ana espera alguns dias, se fortalece e vai falar disso publicamente em uma emissora evangélica que prega família acima de tudo.

"Não estou falando isso para desmerecer a família ou a figura de um homem — estou falando de um agressor", ela deixa claro. Ninguém tem dúvidas. Mas e quando o agressor não tem essa carapuça de bandido de cinema que o marido da apresentadora acabou mostrando?

O agressor também pode ser gente boa

Cheia de frases fortes e de verdades difíceis de serem ditas, Ana relata agressões anteriores — essas, exame de corpo delito não flagram. O marido corre atrás do filho que chora após presenciar uma briga e diz que a mãe que causou aquilo, porque é louca. Ana chora e grita e ele afirma que ela é descompensada.

As brigas verbais eram frequentes. Alexandre a afastava dos amigos dela e da família e ela se esforçava muito para manter essa relação. Vídeos mostram a naturalidade com que ele a ofendia, em tom de brincadeira, como se fosse aquele o jeito certo de tratar a parceira. Ana resgata na rua o cachorrinho que a salvou anos depois e ele afirma, em vídeo filmado por ele mesmo, que ela deve "ter dois miolos a menos".

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Ana diz que costumava ouvir que estava gorda, em tom de ameaça. "Quem vai querer uma Ana Hickmann velha?", perguntava. Ouso responder que muita gente. Era ele que determinava a rotina dela. Academia, procedimentos estéticos. "Havia tempos em que trabalhava de domingo a domingo sem férias", ela conta. A traição financeira é a cereja num bolo de crueldades que duraram a vida toda.

Mesmo assim, Ana continuou. O relacionamento começou quando ela tinha apenas 16 anos e é difícil olhar a situação que aconteceu a vida toda com distanciamento. Como você vai saber que aquilo não deveria acontecer se nunca viu a vida sob um ângulo diferente? Dez anos mais velho, Alexandre provavelmente soube manipulá-la. Os últimos dez anos, então, correram voltados para o bem-estar do filho.

Não é preciso esperar o gatilho da violência física (que uma hora vem)

Mas o gatilho de Ana é a violência física — ela viveu a situação com os pais na infância, viu a dificuldade da mãe de se livrar do abusador e jurou que não passaria pelo mesmo. Se não soube definir o mal que lhe faziam as agressões verbais, a traição financeira colocou um fim na admiração. Levantar a mão para ela acendeu um alerta de que não haveria vergonha ou filho que pudessem levar adiante aquela relação.

Com o apoio do Brasil e o importante respaldo da emissora evangélica em que trabalha, Ana tirou a possibilidade de reatar de sua frente. Entra com pedido de divórcio, Lei Maria da Penha, e coloca a boca no trombone expondo a possibilidade de ter sido casada com um criminoso no quesito financeiro também. Chora, faz chorar. Mas alerta um país inteiro de mulheres em situação igual. A gente termina de ver na torcida: ela vai dar essa volta por cima.

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É mais difícil, claro, para mulheres anônimas que passam por todo tipo de violência psicológica em casa sem a segurança do sucesso profissional para respaldar seu triunfo. É complicado reconhecer os sinais sutis do abuso no ciúme, nas cobranças acerca de aparência física, no modo de afastar as pessoas que realmente gostam de você.

Ana parece ter deixado de gostar de Alexandre há algum tempo, o que facilita um pouco a ruptura. Para quem ainda ama o cara, a missão é quase impossível. "Ele tentou me abraçar para me impedir de ligar para a polícia", ela conta. Muitas voltariam atrás — e é compreensível que voltem.

Toda vez que falamos sobre esse tema nesta coluna — relacionamentos tóxicos, abusivos, violentos — recebo muitas mensagens de mulheres que se libertaram ou estão em processo de se livrar dos maridos. Elas agradecem que a mídia fale do tema para que mais gente escute e pense se precisa chegar no filme de terror que Ana Hickmann viveu na área da churrasqueira de sua casa há algumas semanas.

É difícil reconhecer o vilão dentro daquele cara que é amoroso, mas comete deslizes? Ana explica o passo a passo da tirania para que todo mundo dê uma olhadinha para dentro de casa e pense com muito carinho no futuro que quer para si. "Quem vai querer você depois?", eles perguntam desmerecendo as mulheres. A primeira resposta é "a gente mesmo". O futuro pode demorar um pouco, mas é bonito demais.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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