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Guilherme Ravache

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que estrelas como Leifert, Jordan, Osaka e Biles são infelizes no topo

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Guilherme Ravache

Guilherme Ravache é consultor digital. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época e Editora Caras. Foi diretor de atendimento da Ideal H+K Strategies e gerente sênior de comunicação e marketing de relacionamento da Diageo.

Colunista do UOL

11/09/2021 06h00

Resumo da notícia

  • Aumenta o número de celebridades que, como Thiago Leifert, chegam ao topo e se sentem infelizes e querem 'dar um tempo'
  • As redes sociais aumentaram exponencialmente a pressão que as estrelas sofrem
  • A ginasta Simone Biles e a tenista Naomi Osaka são exemplos recentes de como as redes sociais podem ser nocivas para figuras públicas
  • O jogador de basquete Michael Jordan aponta as redes sociais como um crescente problema para as figuras públicas
  • O próprio Jordan, maior jogador de basquete da história, no que parecia ser o auge de sua carreira, deu um tempo e voltou ainda melhor
  • Desistir do que parece ser o trabalho dos sonhos ainda é tabu, mas não deveria ser

Quando ouvimos uma estrela como Tiago Leifert ganhando milhões dizer que está infeliz no trabalho e quer dar um tempo, muitos têm dificuldade de aceitar. Para os críticos, a lógica deveria ser: quanto mais se ganha, menos se deve reclamar e mais feliz precisa estar por ter a sorte que outros não tem. Mas isso é um erro.

Particularmente no caso das celebridades, é fácil esquecer que são apenas humanos. Humanos com poder aquisitivo e status absurdamente superior ao restante dos mortais, mas ainda assim, são humanos. E como para qualquer pessoa depois de alcançar um certo ponto (normalmente o conforto financeiro), o sucesso se torna relativo.

A verdade é que Leifert, assim como Faustão e muitos outros famosos que optaram por deixar a Globo e outras emissoras de TV nos últimos tempos, o trabalho perdeu o encanto e passou a ser um fardo. Trocar de emissora, como no caso de Faustão; ou buscar novos desafios, como para Leifert, se torna uma pausa necessária.

Mas um fator têm tornado mais difícil a vida dos astros e tornado o trabalho de figuras públicas um desafio crescente.

As semelhanças entre mundo dos esportes e a TV

Recentemente, nas Olimpíadas, uma combinação de condições restritivas, fãs ausentes, calor sufocante e um atraso de um ano que atrapalhou os ciclos de treinamento aumentou a pressão em grandes estrelas que tiveram performance abaixo do esperado ou simplesmente desistiram. A ginasta Simone Biles, uma das principais atletas do mundo, foi o caso mais notório. Biles desistiu de mais de uma prova no meio do torneio. Citou seu estado de espírito e o perigo de tentar uma atividade de alto risco sem se sentir bem psicologicamente. "Eu simplesmente não confio tanto em mim como antes", disse Biles aos repórteres, acrescentando mais tarde que "quatro, cinco anos atrás, aquela definitivamente não seria a Simone".

Dias atrás, após ser eliminada do US Open, a tenista Naomi Osaka disse emocionada que estava pensando em fazer uma "pausa no tênis por um tempo". Foi um ano difícil para ela. Osaka venceu o Aberto da Austrália em fevereiro, mas saiu do Aberto da França após uma "briga" por ter de participar das conferências de imprensa obrigatórias - ela queria pulá-las - os organizadores a multaram e advertiram. Osaka perdeu em Wimbledon e voltou a perder na terceira rodada das Olimpíadas. No US Open, ela já estava no limite.

A pressão nos esportes é imensa. Na TV não é diferente, e aumentou nos últimos anos à medida que cresce a competição com o streaming e outras plataformas digitais. Fechar a conta é um desafio cada vez maior para grupos de mídia tradicional. Isso implica maior pressão por resultados financeiros, negociações trabalhistas mais duras e constantes cortes e custo nos times. Na Globo não é diferente.

Rico, famoso e refém de trolls

Se dentro das emissoras o desafio é grande, fora o cenário é ainda pior. Agora, além das críticas da imprensa, cada vez mais agressiva e polarizada em uma competição por cliques, as celebridades também têm de lidar com os milhões de críticos nas redes sociais. Isso sem falar nos ataques de trolls, a turma que não quer nada além de agredir. Vale lembrar que Leifert já foi alvo até de um movimento #ForaTiago nas redes sociais.

Imagine estar na posição de Leifert e ter cada palavra, gesto ou imagem analisados por um país inteiro. O jogador de basquete Michael Jordan, um dos maiores astros da história, já disse que não sabe se conseguiria lidar com a pressão das redes sociais se estivesse jogando atualmente.

"Tiger [Woods] jogou no auge em algum momento no final da minha carreira. Então, o que mudou desse período para agora foi a mídia social - Twitter e todos esses tipos de coisas. E isso invadiu a personalidade e o tempo pessoal dos indivíduos. Chegou ao ponto em que algumas pessoas foram capazes de utilizá-lo para seu ganho financeiro e coisas dessa natureza", disse Jordan. "Mas para alguém como eu - e é com isso que Tiger lida - eu não sei se poderia ter sobrevivido nesta era do Twitter, onde você não tem a privacidade que gostaria e o que parece ser muito inocente sempre pode ser mal interpretado. "

Diversos estudos apontam que o uso excessivo de redes sociais aumenta as chances de depressão e solidão. Um aspecto menos estudado é como as redes afetam os famosos. No final do dia, os astros são humanos - humanos extremamente bem pagos - mas humanos. Eles sentem. Ficam magoados. Choram. E como qualquer um, precisam de pausas.

Leifert inclusive pode seguir os passos de Jordan. O jogador fez uma pausa para a saúde mental no auge de sua carreira. Jordan se aposentou da NBA pela primeira vez em outubro de 1993, poucos meses depois do assassinato de seu pai. Mas mesmo antes da morte, Jordan já pensava na pausa, como afirma no ótimo documentário The Last Dance. "Eu estava fisicamente exausto, mas mentalmente estava ainda mais exausto. Quando você tenta fazer algo repetidamente, você perde um pouco da fome e um pouco do nervosismo", lembra Jordan.

A boa notícia é que Jordan voltou às quadras. E provavelmente, ainda melhor. Leifert também poderá retornar para a Globo. Como o apresentador disse em seu comunidado de saída, "tomar a decisão de ir embora foi extremamente difícil, mas é o que eu quero neste momento. E tenho certeza que posso voltar um dia".

Leifert dá um exemplo às demais estrelas (e todos nós, mesmo com salários menores) de que estar feliz e preservar a saúde mental deve vir antes do dinheiro e do status. No final do dia, a pressão da fama pode ser destruidora como os problemas de dezenas de celebridades e atletas nos últimos anos tem mostrado.

Se Leifert estava infeliz como afirmou a Ana Maria Braga, tomou a decisão correta e deve receber o apoio de todos. Mesmo os gigantes precisam de pausas. Leifert, Biles, Osaka, Jordan e milhões de anônimos precisam de pausas nesses tempos tão estranhos em que vivemos.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL