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"O Dilema das Redes" usa fórmula apelativa para agradar ao público jovem

Skyler Gisondo em cena de O Dilema das Redes (2020) - Divulgação
Skyler Gisondo em cena de O Dilema das Redes (2020) Imagem: Divulgação
André Barcinski

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da ?Folha de S. Paulo?. Escreveu sete livros, incluindo ?Barulho? (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV ?Zé do Caixão? (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário ?Maldito? (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Em 2019, dirigiu a série documental ?História Secreta do Pop Brasileiro?.

Colunista do UOL

22/09/2020 06h00

Resumo da notícia

  • "O Dilema das Redes", da Netflix, trata do papel das redes sociais na erosão da democracia e como instrumento de manipulação de consumidores

"O Dilema das Redes", em exibição na Netflix, trata de um tema que deve ser discutido por todos: o papel das redes sociais na erosão da democracia e como instrumento de manipulação de consumidores.

O filme explica, de forma clara - e, às vezes, didática demais, mas falaremos disso daqui a pouco - a forma como as redes sociais, vendidas há anos como inovadores instrumentos de interação social e democratização, se transformaram num pesadelo distópico orwelliano, usado por governos ditatoriais para apoiar massacres étnicos (como em Myanmar) ou para influenciar eleições em outros países (como no caso da interferência russa na eleição de Trump em 2016).

A verdade é que o mundo foi enganado. Há um bom tempo vemos supostos "ativistas pela liberdade de expressão" reclamando de qualquer tentativa de controlar as empresas de Internet. Eles são jovens, simpáticos, falam bem e ganham destaque na mídia. Posam de arautos da democracia, mas nada mais são que lobistas, que venderiam a mãe para quem paga mais, seja o Google ou a ditadura chinesa.

Muitas pessoas que trabalham nessas empresas já perceberam os malefícios do poder ilimitado obtido por corporações que vivem à margem de regras. Basta dizer que vários entrevistados do filme, figuras proeminentes que trabalharam em empresas como Google, Facebook e Pinterest, não permitem que os próprios filhos usem redes sociais.

O tema abordado em "O Dilema das Redes" não é novo. Felizmente, há vários filmes e livros recentes que tratam dos malefícios do domínio das empresas de Internet (leia aqui um texto que escrevi em 2017 sobre um livro muito interessante, "Move Fast and Break Things").

O que é novo em "O Dilema das Redes" é a maneira como o assunto é abordado. O filme usa artifícios narrativos de qualidade artística questionável, mas eficientes para atrair um público amplo e que não está acostumado com a estrutura tradicional de documentários.

A maior parte das críticas ao filme que tenho lido se refere ao uso de sequências encenadas na narrativa. Usando atores, "O Dilema das Redes" mostra a vida de uma típica família de classe média e sua relação com a Internet e as redes sociais.

Durante um jantar, os membros da família estão tão ocupados com seus celulares, que não conversam. A mãe percebe o absurdo da situação e sugere um experimento: deixar os celulares num vaso durante uma hora. A filha adolescente não aguenta e, depois de apenas alguns minutos, quebra o vaso para pegar o celular.

Outra sequência mostra, de forma bem dramática e teatral, a maneira como as redes sociais "vendem" anúncios: numa bancada, três homens observam, à la "O Show de Truman", o dia a dia de um dos membros da família e o manipulam, por meio de notificações no celular e "sugestões", a consumir determinados produtos e serviços.

Pessoalmente, não gosto desses artifícios narrativos, mas entendo perfeitamente por que os produtores de "O Dilema das Redes" os usaram.

A verdade é que o público moderno está cansado de informação. Todo dia, somos bombardeados com números, gráficos e dados. E o filme traz muitos, do aumento alarmante no número de suicídios entre jovens ao crescimento absurdo do número de horas em que ficamos "conectados".

Mas, para quem assiste ao filme, esses números não importam muito. Estamos anestesiados de tanta informação. Os produtores de "O Dilema das Redes" sabem que o público moderno não gosta de informação. Ele gosta é de novelinha.

Não é à toa que algumas das séries documentais de maior sucesso de público nos últimos tempos, como a apelativa e enganadora "A Máfia dos Tigres" (leia aqui meu texto sobre a série), usam recursos dramáticos de obras ficcionais. A ideia é criar uma novelinha, uma história popularesca e de fácil assimilação. O segredo é criar um documentário que não pareça documentário.

Nisso, "O Dilema das Redes" funciona. Assistimos ao filme com nossos dois filhos pequenos, de oito e doze anos. O mais novo ficou particularmente impactado pela cena da menina quebrando o vaso para pegar o celular ("Ela não aguentou ficar sem o celular, né, papai?"), e a mais velha se impressionou com os três homens manipulando o menino a consumir.

Para eles, o filme funcionou: nossa filha já sugeriu o documentário para colegas e começou a discutir com eles sobre o tema (virtualmente, claro). Se o preço do sucesso do filme é usar um artifício narrativo de segunda categoria, está barato. O tema é importante e precisa ser amplamente discutido.

A diferença entre "A Máfia dos Tigres" e "O Dilema das Redes" é que o primeiro esconde informações e manipula a história para servir ao drama, enquanto o segundo usa o drama para aumentar o apelo de uma história que é verdadeira e importante.

Uma ótima semana a todos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.