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Greve na França: dá para fazer turismo em Paris?

Gare de Lyon, em Paris, durante o quarto dia de greves no país - AFP
Gare de Lyon, em Paris, durante o quarto dia de greves no país Imagem: AFP

09/12/2019 13h22

No quinto dia da greve contra a reforma das aposentadorias, a situação se complica no transporte público, com metrôs e trens bloqueados e centenas de quilômetros de engarrafamentos nas ruas da capital francesa, Paris. A situação é caótica para os franceses, mas também para os turistas.

Dezembro, tradicionalmente, não é um dos meses mais recomendáveis para fazer turismo em Paris. Apesar das luzes natalinas, o inverno é imprevisível, pode chover muito e os dias são curtos. Agora imagine Paris sem metrô, ônibus, trens, e com pessoas (ainda mais) irritadas nas ruas, que levam horas para ir e voltar do trabalho. É mais ou menos como se todos os dias, em qualquer hora, você tivesse que encarar o metrô da praça da Sé às 18h na véspera do feriado, com um agravante, que infelizmente não se trata de um clichê: o tradicional mau humor francês.

Esse périplo diário, suportável no primeiro dia, acaba virando um calvário: um trajeto que normalmente levaria 45 minutos se transforma em duas horas ou mais em dia de greve. Duas horas espremido dentro de um vagão de metrô, sem saber se será possível chegar ao seu destino (muitas vezes o tráfego é interrompido sem maiores explicações).

Nesta fatídica segunda-feira (9), nove das 14 linhas de metrô da capital francesa estavam fechadas e apenas duas, 100% automatizadas, que não precisam de condutores, funcionavam normalmente. Impossível de imaginar qual seria a reação dos passageiros, nessas condições, se turistas desavisados tentassem entrar com uma mala, máquina fotográfica, ou grupos de mais de três pessoas. Pegar um táxi seria a solução? Não. Em dias de greve em Paris, as marginais e as ruas ficam paralisadas. Hoje muitos franceses foram obrigados a utilizar os próprios veículos, o que gerou mais de 600 km de engarrafamentos na região de Paris às 8h, três vezes acima do normal.

Para os turistas que se aventuram a pé, apesar do frio e da chuva, não é certo também que poderão visitar os pontos turísticos mais conhecidos da capital. O selfie na frente da basílica da Sacre Coeur, por exemplo, é para quem merece: com o metrô e a funicular parados, a única maneira de chegar ao local e subir a ladeira, íngreme, é a pé. O "bondinho" conecta a parte baixa de Montmartre, no 18°distrito, à sua parte alta, e permite evitar os 197 degraus que levam ao topo.

Museus também podem ser obrigados a rever os horários de abertura, pela simples razão que os funcionários estão tendo dificuldades para chegar ao trabalho. Foi o caso do Louvre, que nesta segunda-feira (9) fechou algumas salas. Visitar o palácio de Versalhes também é uma aventura desaconselhável. A linha RER C, que leva até o monumento, está fechada. A empresa estatal de ferrovias SNCF cancelou pelo menos 80% das viagens dos trens de alta velocidade e recomendou aos passageiros que evitassem as estações. Quem vai não consegue voltar e vice-versa.

Prorrogação preocupa empresários

A situação deve continuar complicada nesta terça-feira (10). Os sindicatos convocaram uma nova jornada de greve e manifestações, depois do sucesso da paralisação da última quinta-feira, que levou 800.000 pessoas às ruas. A prorrogação da greve também preocupa os empresários, que agora temem um agravamento com bloqueios e escassez de combustíveis no período de festas de dezembro.

A mobilização é um protesto contra um "sistema universal" de aposentadorias, que deverá substituir os atuais 42 regimes de especiais existentes. O governo francês promete um dispositivo "mais justo", mas os sindicatos e a oposição de esquerda alegam que a medida precariza a situação dos aposentados que não puderam contribuir tempo suficiente.

O projeto de reforma da Previdência ainda não foi revelado na íntegra. O primeiro-ministro, Edouard Philipe, deve dar maiores detalhes nesta quarta-feira (11). Sua fala será decisiva para a continuidade ou não do movimento social. Nesta segunda-feira, o presidente Emmanuel Macron receberá os principais ministros de seu gabinete para concluir os detalhes do projeto, que, segundo os sindicatos do país, obrigará os franceses a trabalhar por mais tempo para receber uma pensão menor.