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Vale Constantia, na África do Sul, é destino para fãs de espumantes

Baz Dreisinger

New York Times Syndicate

02/06/2013 08h50

O café da manhã fica bem melhor com borbulhas. Foi o que eu aprendi pouco depois de acordar, numa manhã fria, no Hotel & Vinícola Steenberg, propriedade sul-africana que mais parece ter saído das páginas de um romance de Jane Austen. Imagine uma mansão do século 17 com montanhas altíssimas ao fundo e gansos-egípcios e galinhas-d'angola passeando calmamente na grama. Cappuccino? Nem pensar. Saboreei meu omelete de camarão e queijo de cabra com um copo de Graham Beck Brut NV – a mesma champanhe, por sinal, servida na posse de Nelson Mandela.

Depois de passar alguns dias em Constantia, subúrbio a 16 km da Cidade do Cabo, qualquer um começa a jurar que tudo fica muito melhor com borbulhas. Ou Sauvignon Blanc, ou Shiraz – qualquer coisa que cresça e seja engarrafada no Vale Constantia, uma das regiões vinícolas mais antigas do Hemisfério Sul. A 20 minutos de carro da cidade, cercada pela cordilheira de que faz parte a Table Mountain, Constantia chama a atenção por suas ruas arborizadas, vinícolas e mansões coloniais.

A importância histórica da região e seus residentes famosos – incluindo o botânico do Capitão Cook, o filho de Margaret Thatcher e o próprio Mandela – já valem a visita, mas conta também a simples e pura indulgência, pois algumas das propriedades mais belas da Cidade do Cabo, assim como os melhores restaurantes e vinhos, são encontrados ali. O que não se acha com facilidade é tudo o que for excessivamente comercial ou popular; com exceção de um pequeno e exclusivo shopping center, as lojas de Constantia ficam dentro ou à volta de casas e hotéis históricos.

Em novembro passado, me dei ao luxo de passar uma semana na Steenberg. É a fazenda mais antiga do Cabo, fundada em 1682 – de propriedade de uma alemã geniosa que teve cinco maridos. Possui um spa, dois restaurantes, um campo de golfe com 18 buracos e esculturas de Eduardo Villa (trazidas pelo falecido dono, Graham Beck, empresário e vinicultor local); uma minivan Mercedes pronta para levá-lo, de graça, a qualquer lugar em Constantia e o Gorgeous, inaugurado em 2012 como o primeiro wine bar da África do Sul exclusivo de uma marca de espumante. Na minha primeira noite, recebi uma verdadeira aula da bartender Zelda, que sabe tudo sobre detalhes como tamanho das bolhas, quantidade de açúcar e as melhores safras. Saboreando um prato de ostras e tartar de carne de avestruz, elegi o cuvée como a minha bebida.

Na manhã seguinte vesti um impermeável para explorar de bicicleta as colinas e estradas que circundam as vinícolas. E comecei pela fonte: Groot Constantia Estate, a propriedade produtora de vinho mais antiga do país, que data de 1685. A sede, que tem uma linda piscina antiga e em cuja adega há uma exposição sobre a história do vinho, é um belo exemplar da arquitetura de Cape Dutch, com seus graciosos arcos brancos contrastando com o azul intenso de céu e o verde das vinhas.

"Bonito, mas comercial", disparou o meu guia, Eben Odendaal, enquanto pedalávamos. "Vamos começar a degustação na próxima." Como ele cresceu numa vinícola sul-africana, acatei suas palavras e apenas o segui, soprando e bufando, mas ainda assim admirando a paisagem de conto de fadas: jardins de rosas, plantações nas encostas, cabritos e carneiros e algumas das casas mais antigas da região. As uvas brancas são cultivadas nas áreas mais altas e frescas; já as tintas, nas partes mais baixas e quentes; o clima frio de Constantia – cujas temperaturas variam entre 10 e 21° C – é perfeito especialmente para os Sauvignon Blancs.

  • Saman­tha Reind­ers/The New York Times­

    Groot Const­antia­, uma das viníc­olas mais antig­as do país

Nosso passeio incluía Klein Constantia, uma vinícola com mais de 300 anos de idade com uma sede impressionante, onde descobri que o Madame Malbrook 2008 é amanteigado e defumado e que o vinho de sobremesa Vin de Constance – notoriamente adorado por Napoleão e mencionado até por Jane Austen – é doce demais para o meu gosto. Pedalamos, meio altos, pela propriedade conhecida como Buitenverwachting – que em africâner significa "além das expectativas" – e almoçamos salada de abóbora e gorgonzola no Constantia Uitsig, vinícola e hotel chique onde a degustação ao pôr-do-sol dos brancos e espumantes secos de fabricação própria me fez pensar em contrabandear algumas caixas escondidas na mala.

As noites, passei em restaurantes que ofereciam cardápios sazonais e com garçons sempre solícitos para oferecer uma sugestão de vinho para acompanhar o prato. Informado pelo concièrge que era o sexto (que pena!) na lista de espera por uma mesa no La Colombe at Uitsig – um dos melhores restaurantes da região – fui ao 5 Rooms, uma casa descolada no recém reformado Alphen Boutique Hotel.

Entrar no restaurante já foi uma boa surpresa: a mansão do século 18 (cuja sede foi transformada em monumento nacional) é belissimamente antiga por fora, mas a decoração é no melhor estilo "Alice no País das Maravilhas": tapetes com estampa animal, candelabros de cristal, TV com moldura dourada, reggae como música de fundo. Deixei o vinho um pouco de lado e pedi vodca – não dá para resistir a Smirnoff com infusão caseira de tomilho – para acompanhar meu foie gras e o peixe.

Considerando a extravagância gastronômica, ajuda muito o fato de que Constantia é o paraíso dos caminhantes. A Cecilia Forest, por exemplo, uma trilha coberta de cascalho que leva 1,5 hora para ser percorrida, nas encostas da Montanha da Mesa, leva a uma cachoeira adorável; já a Alphen Trail acompanha o rio Diep e, depois de cruzar pontes pitorescas, leva à montanha Constantiaberg. Passei horas caminhando na Reserva Natural Silvermine, no Parque Nacional da Montanha da Mesa, onde as águias fazem seus ninhos, há falcões peregrinos, babuínos irritantes e uma vista deslumbrante de 360° da Cidade do Cabo com o mar ao fundo.

Na área de Constantia fica também o Jardim Botânico Edenic Kirstenbosch, um dos primeiros do mundo. Ali, admirei uma variedade enorme de arbustos cheirosos e conheci o Jardim da Extinção que, como o nome diz, mostra as plantas que em breve podem estar extintas, inclusive algumas espécies de petúnias e suculentas; molhei os pés nos riachos e me surpreendi com a prótea, a flor nacional sul-africana que apresenta as mais diversas tonalidades e tem uma aparência etérea. Do lado de fora, é possível comprar um buquê numa das várias barraquinhas que oferecem essa espécie extraordinária como se fossem cravos numa loja de conveniência do Brooklyn.

Depois, voltei aos mimos pessoais: no Cellars-Hohenort, hotel & vinícola históricos que já pertenceu a um cirurgião da Companhia das Índias Orientais Holandesas, não só fiz as mãos como optei pelo "tratamento especial", com direito a toalha morna no pescoço e massagem. Jantei ali mesmo, no Greenhouse, comandado por Peter Tempelhoff, chef do Relais & Chateaux.

  • Saman­tha Reind­ers/The New York Times­

    Gorge­ous foi inaugurado em 2012 como o primeiro wine bar da África do Sul exclusivo de uma marca de espumante

Não foi apenas uma refeição, foi um evento: num cenário que lembrava o tipo de estufa criada por Chanel – candelabros elegantes, papel de parede, tons de rosa – meu menu degustação incluía pirulitos de queijo de cabra, "terra" comestível de chocolate e farinha de rosca e sopa de lagostim numa casca de ovo, servida num ninho de batatas raladas. Querendo aproveitar um pouco a vida noturna, bebi uma cerveja no animado Peddlars on the Bend, um dos raros recantos rústicos locais. É a versão sul-africana do pub, onde se come hambúrguer e braai, o churrasco regional.

É difícil apreciar Constantia sem uma visita à Cidade do Cabo em si. Passei vários dias ali, surpreso com o fato de estar tão próximo de uma área urbana e, ao mesmo tempo, tão distante. Tomei um Bellini no descolado Planet Bar, no belíssimo Hotel Mount Nelson, de 107 anos, depois fui fazer compras entre os hipsters da Kloof Street. Apreciei uma exposição de arte em Gugulethu, uma das muitas favelas da cidade que se tornaram atrações turísticas, comi carne de cabra-de-leque e bebi Shiraz no Reuben's do resort One & Only Cape Town, a casa comandada pelo chef Reuben Riffel. E o sommelier de plantão, Luvo Ntezo, me deixou de queixo caído com suas seleções e me disse que começou a carreira – onde mais? – em Steenberg. Quando se trata da Cidade do Cabo, parece que todos os caminhos levam a Constantia.

Se você for

Onde ficar

As diárias do Steenberg Hotel & Vinícola (10802 Steenberg Estate, Tokai Road; steenberghotel.com) começam a partir de 2.255 rand ou US$ 250 com o dólar a 8,75 rand.

O Alphen Boutique Hotel (Alphen Drive; alphen.co.za) tem 21 quartos ultramodernos, um spa e dois restaurantes numa propriedade do século XVIII. Diárias a partir de 1.800 rand.

Onde comer

The Greenhouse (93 Brommersvlei Road; 27-21-794-2137): menu degustação com quatro pratos e harmonização de vinhos, 645 rand.

Societi Brasserie (Tokai Road; 27-21-712-1363): gastronomia artesanal chique de bistrô. Dois pratos com harmonização de vinhos, 342 rand.

5 Rooms (Alphen Drive; 27-21-795-6313): Dois pratos com vinho, 430 rand.

O que fazer

Bike & Saddle: passeio de bicicleta pelas vinícolas com degustação (27-21-813-6433; bikeandsaddle.com).

Jardim Botânico Kirstenbosch (Southern Suburbs, Cape Town; 27-21-799-8783; sanbi.org/gardens/kirstenbosch).