PUBLICIDADE
Topo

Argentina reabre hoje fronteira aérea para turistas brasileiros

O trânsito de turistas por avião entre Brasil e Argentina estava fechado desde dezembro de 2020 - Getty Images/iStockphoto
O trânsito de turistas por avião entre Brasil e Argentina estava fechado desde dezembro de 2020
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Luciana Taddeo

Colaboração para Nossa, de Buenos Aires

30/09/2021 22h35Atualizada em 01/10/2021 10h58

A Argentina volta a permitir nesta sexta-feira (1) a entrada de turistas de países limítrofes, entre eles o Brasil, por aeroportos do país. Na última segunda (27), o país iniciou um projeto-piloto que reabriu a fronteira da Ponte Internacional Tancredo Neves, que conecta Puerto Iguazú e Foz do Iguaçu, e a passagem fronteiriça entre a cidade argentina de Mendoza com o Chile.

Esta será a primeira vez que turistas estrangeiros poderão entrar no país por aeroportos desde 25 de dezembro, quando o país suspendeu uma breve reabertura e fechou fronteiras aéreas para impedir a propagação de mutações do coronavírus em seu território. A autorização foi oficializada em decreto divulgado na noite desta quinta, que é válido até 31 de dezembro.

Protocolo para a entrada

Para entrar no país, um turista precisará preencher uma declaração juramentada na qual apresentará o esquema de vacinação completo com, no mínimo, 14 dias de vigência desde a segunda dose.

Além de um exame PCR negativo feito nas 72 horas prévias ao embarque, quando o turista aterrissar na Argentina, passará por um teste de antígeno (teste rápido) e deverá fazer um novo PCR entre o 5º e o 7º dia de permanência no país.

Esses dois exames devem ser pagos pelo próprio turista. O teste de antígeno no aeroporto custa US$ 25. Essas exigências isentam o turista de uma quarentena obrigatória.

Menores de idade que não tiverem um esquema completo de vacinação há pelo menos 14 dias poderão entrar na Argentina, mas terão que passar uma semana em isolamento — um entrave importante que dificulta as viagens familiares.

No entanto, quando a Argentina atingir o limiar de 50% da sua população completamente vacinada, as exigências de um teste de antígeno e de um novo PCR desaparecerão.

As demais fronteiras devem ser reabertas gradualmente até novembro, quando estrangeiros dos demais países também voltarão a poder entrar no território argentino. A partir de 20 de outubro, também estará habilitada a entrada de estrangeiros pelo Aeroporto Internacional de Ushuaia e pelo porto da cidade, que voltará a receber cruzeiros.

Expectativa para volta ao turismo

Mário Barros, diretor da agência "Brasileiros em Ushuaia", que tinha 90% dos clientes do Brasil - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Mário Barros, diretor da agência "Brasileiros em Ushuaia", que tinha 90% dos clientes do Brasil
Imagem: Arquivo pessoal

A perspectiva da reabertura das fronteiras anima os brasileiros que trabalham com turismo na Argentina e estão há meses sem poder receber seus principais clientes. Para os que estão fora da capital, a ausência de turistas já chega a um ano e meio, já que a entrada de estrangeiros entre novembro e dezembro do ano passado foi exclusivamente para a circulação turística em Buenos Aires.

Mário Barros, dono da agência Brasileiros em Ushuaia, teve que reduzir a equipe e fechar uma loja física no país. Foram meses de agonia que começaram dias antes do fechamento das fronteiras, quando a entrada nos parques nacionais da Argentina foram proibidas, e restrições impostas, em março do ano passado.

Mário teve que fechar a recém-aberta unidade de El Calafate - Divulgação - Divulgação
Mário teve que fechar a recém-aberta unidade de El Calafate
Imagem: Divulgação

As medidas pegaram de surpresa o empresário, que estava recebendo 65 agentes de viagem brasileiros no sul argentino. "Você não tem ideia do que foi, por isso eu sou careca assim", brinca, sobre os quatro dias de aflição, mantendo o grupo dentro do hotel, enquanto tentava conseguir voos para que eles pudessem voltar para o Brasil.

Os brasileiros representavam 95% dos clientes atendidos pela agência antes da pandemia, e a procura estava em aumento.

No inverno de 2019, só nossa empresa atendeu por volta de 35 mil pessoas. Cerca de 80% da ocupação nos hotéis da cidade era de brasileiros"

"Estávamos a 200 por hora e de repente fomos para zero", lamentando ter tido que fechar a agência que tinha acabado de abrir na cidade patagônica de El Calafate.

"Foi um período muito difícil, porque as despesas fixas são altas e continuam. Por isso, mesmo na pandemia, nossa equipe comercial aqui no Brasil nunca parou de vender. Fizemos pacotes que podem ser utilizados até o final de 2022, com promoções como 'compre um passeio e ganhe o segundo grátis'. Foi assim que conseguimos ter um fluxo razoável para pagar as despesas", explica, mostrando-se otimista com a abertura.

Considerando que o Chile, por exemplo, está exigindo quarentena de 5 dias para turistas, a medida da Argentina nos surpreendeu. Achamos muito positivo"

"Perdi muito dinheiro"

Tempos felizes: até fecharem as fronteiras, a agência de Brunna Brok recebia até 1.200 turistas brasileiros por mês - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Tempos felizes: até fecharem as fronteiras, a agência de Brunna Brok recebia até 1.200 turistas brasileiros por mês
Imagem: Arquivo pessoal

Antes da pandemia, a paulistana Brunna Brok, dona da Aguiar Buenos Aires, recebia de 1.000 a 1.200 clientes por mês na cidade, todos brasileiros. Com o fechamento das fronteiras, a agência de turismo receptivo online, em funcionamento há quase 11 anos, teve que interromper todas as vendas e operações dos serviços.

A primeira medida foi remarcar os serviços de todo mundo ou devolver imediatamente para quem pediu devolução. Naquela época era muito incerto, ninguém sabia o que estava acontecendo e nosso objetivo era atender todos muito rapidamente e dar todo o suporte"

Brunna conta que perdeu "muito dinheiro", não somente com a paralisação das vendas, mas porque não cobrou nenhuma taxa dos clientes nas devoluções.

Apesar de ter sido "100% prejudicada pelo fechamento das fronteiras" por trabalhar exclusivamente com brasileiros, Brok afirma que em nenhum momento pensou em mudar seu público. Ao contrário, ela tentou encarar a fase com otimismo, organizando a parte administrativa da empresa e produzindo mais conteúdo para o site e redes da agência, que contam com milhares de seguidores.

Brunna vê a notícia da reabertura dos voos entre Brasil e Argentina com  "êxtase, esperança e ansiedade" - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Brunna vê a notícia da reabertura dos voos entre Brasil e Argentina com "êxtase, esperança e ansiedade"
Imagem: Arquivo pessoal

Após tanto tempo utilizando reservas para a sobrevivência do negócio, ela recebeu a notícia da reabertura com "êxtase, esperança e ansiedade". Mas a sabedoria adquirida na pandemia a leva a sugerir paciência a quem quiser viajar.

Minha sugestão é terem paciência, e talvez esperar que a pandemia esteja mais controlada para viajar"

Outros ângulos

A fotógrafa Adriana, que fazia fotos para turistas brasileiros em Buenos Aires, teve que se reinventar durante a pandemia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A fotógrafa Adriana, que fazia fotos para turistas brasileiros em Buenos Aires, teve que se reinventar durante a pandemia
Imagem: Arquivo pessoal

Já a mineira Adriana Carolina Iwanczuk, que trabalha há quase 11 anos como fotógrafa, tinha antes da pandemia os ensaios de turistas em Buenos Aires como uma das suas principais fontes de renda. "Todos os meus projetos foram interrompidos com a pandemia", conta.

Primeiro bateu o desespero. Fiquei 4 meses em casa [durante o lockdown] sem contato com os demais. Mas entendi que eu estava frente a um desafio de mudança de vida, e foi um tempo em que pude começar a decidir o que eu iria fazer"

Como fotógrafa, Iwanczuk montou um estúdio em casa e começou a trabalhar para argentinos e brasileiros que moram em Buenos Aires, com fotos profissionais. "A partir deste momento todo mundo começou a vender seus trabalhos pela internet. Comecei a ser procurada por pessoas que queriam fazer sua publicidade online", explica.

Adriana no Caminito, um dos pontos turísticos queridinhos dos brasileiros - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Adriana no Caminito, um dos pontos turísticos queridinhos dos brasileiros
Imagem: Arquivo pessoal

Agora, ela pretende aliar os conhecimentos adquiridos no período de atividades indoor, com o trabalho que fazia antes. "A pandemia foi um antes e um depois na minha vida e aprendi que na crise há oportunidade", completa.

Ela diz, no entanto, que a felicidade que sentiu com a reabertura de fronteiras não é somente pela volta dos ensaios para turistas. "Se todo mundo prospera, a gente também prospera"

A gente quer que a Argentina volte a ter esta força e o turismo aqui tem uma força muito grande. E, claro, o turista brasileiro tem uma importância muito grande para nós"

Sem brasileiros na neve

A empresária Sabrina Poinho: "Não poder receber brasileiros durante dois invernos foi um verdadeiro golpe" - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A empresária Sabrina Poinho: "Não poder receber brasileiros durante dois invernos foi um verdadeiro golpe"
Imagem: Arquivo pessoal

A pandemia também castigou muito San Carlos de Bariloche, que ficou duas temporadas de neve sem poder receber turistas estrangeiros. Dona da agência de excursões Destino Sul, a mineira Sabrina Poinho conta que a demanda estava em plena ascensão quando o destino patagônico foi atingido pela pandemia.

No inverno de 2019, a cidade tinha recebido cerca de 60 mil turistas brasileiros e a expectativa era que, em 2020, esse número fosse ainda maior.

Poinho, que manteve uma venda mínima de passeios a preços congelados em reais e com possibilidade de remarcação, acredita que ainda levará um tempo para a retomada, mas está otimista com a reabertura.

"Acho que para o verão, no fim de ano, os voos vão se regularizar e os requisitos estarão mais suaves, o que dará segurança para quem quer viajar, e o turismo vai se reativar"

Vai ser um alívio, porque não poder receber brasileiros durante dois invernos foi um verdadeiro golpe. Mas acho que a situação vai melhorar porque as consultas não param de chegar"

* Com informações da RFI