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De dogão a caldo de cana: food trucks brasileiros viram tendência no Japão

Thiago de Lucas Fernandes e Massahiro Hirata, do "Dogão do Favela" - Juliana Anzai
Thiago de Lucas Fernandes e Massahiro Hirata, do "Dogão do Favela" Imagem: Juliana Anzai

Gilberto Yoshinaga

Colaboração para Nossa, de Toyota (Japão)

03/08/2021 04h00

Quem circula pela província japonesa de Aichi pode se surpreender com um caminhãozinho branco ilustrado por um simpático dálmata e dizeres em três idiomas. Lê-se em inglês "fast food menu", em japonês com letras romanas "bekon supesharu" (isto é, bacon especial) e, em bom português, "Dogão do Favela".

É assim que o food truck do brasileiro Thiago de Lucas Fernandes, 36, conhecido como Favela, circula pelas ruas do Japão.

Lar de milhares de brasileiros desde o início da década de 1990, o arquipélago asiático há muito tempo abriga mercados, restaurantes, bares e casas de show verde-amarelas. Recentemente, porém, surgiram diversos novos empreendimentos comandados por imigrantes, que têm encontrado nos food trucks uma alternativa ao trabalho nas fábricas japonesas.

Thiago de Lucas Fernandes e Massahiro Hirata, do "Dogão do Favela" - Juliana Anzai - Juliana Anzai
Thiago de Lucas Fernandes e Massahiro Hirata, do "Dogão do Favela"
Imagem: Juliana Anzai

Para Favela, que está no Japão desde 2007, a empreitada aconteceu "por acaso". Atleta de jiu-jitsu nas horas vagas, até janeiro de 2020 ele trabalhava como operário de uma fábrica de autopeças em Hekinan (Aichi) e pretendia abrir uma oficina mecânica. Entretanto, o lutador rompeu ligamentos do joelho direito em uma competição e a necessidade de fazer uma cirurgia deu novo rumo à sua vida.

Além de gerar gastos médicos, a contusão fez Favela perder o emprego. Em situação apertada, foi incentivado a tentar vender os lanches que faziam sucesso em reuniões entre amigos — algo que tinha aprendido no Brasil, ajudando no restaurante da família em Catanduva, no interior de São Paulo.

Só anunciei no Facebook e bombou de pedidos, vendi quase 300 em um final de semana", lembra ele, que, em seguida, se submeteu à cirurgia.

Menu do "Dogão do Favela" - Divulgação - Divulgação
Menu do "Dogão do Favela"
Imagem: Divulgação

De molho no hospital, teve a ideia de bolar um cardápio, criar uma marca e planejá-la comercialmente. Nos meses de repouso até recuperar o joelho, um amigo o ajudou a providenciar um caminhãozinho e as licenças para vender comida de rua. Assim surgiu o Dogão do Favela, em julho do ano passado.

O negócio deu tão certo que, em seis meses, Favela gerou um emprego — para o amigo brasileiro Massahiro Hirata, 32, que o acompanha na estrada — e adquiriu um segundo carro. O primeiro food truck foi repassado, em janeiro deste ano, para Guilherme Sakurai, 43, que era freguês e acabou se tornando o primeiro franqueado da marca.

Thiago de Lucas Fernandes (à dir.) e Massahiro Hirata, do "Dogão do Favela" - Juliana Anzai - Juliana Anzai
Thiago de Lucas Fernandes (à dir.) e Massahiro Hirata, do "Dogão do Favela"
Imagem: Juliana Anzai

"Eu tinha medo de arriscar, mas acompanhei o Favela no caminhão por um tempo e adquiri mais confiança para fazer essa aposta", conta Sakurai. Sua esposa Isabele, que tinha precisado largar o trabalho em fábrica devido a uma tendinite, passou a ajudá-lo na maratona que se repete cinco dias por semana, em cidades de diferentes províncias.

Em geral, eles fazem parcerias com estabelecimentos brasileiros para ocupar parte de seu estacionamento por um período, que pode variar entre 5 e 10 horas. "Os dias mais puxados são bem cansativos porque também há muito trabalho antes e depois das vendas", pontua Isabele.

Ela cita a preparação de ingredientes como purê e frango desfiado, feita horas antes de pegar a estrada, e a limpeza dos equipamentos, depois de voltar para casa, em Toyota (Aichi). "Além disso, moramos no quinto andar de um prédio sem elevador e, para carregar e descarregar o caminhão, faço umas quatro viagens levando caixas pelas escadas", acrescenta Sakurai.

Guilherme Sakurai e a esposa, Isabele - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Guilherme Sakurai e a esposa, Isabele
Imagem: Arquivo pessoal
Guilherme Sakurai em seu food truck - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Guilherme Sakurai em seu food truck
Imagem: Arquivo pessoal

Apesar do ritmo intenso e cansativo, ele diz que valeu a pena arriscar.

É bem diferente ter que me desgastar de trabalhar para os outros e para algo que é nosso", define.

A montanha a Maomé

Curiosamente, esses empreendimentos ambulantes seguem trajetória inversa à dos mercados de produtos brasileiros que se espalharam pelo arquipélago.

Até meados da década de 1990, produtos como feijão, carne seca e farinha de mandioca eram comercializados em "lojas" ambulantes improvisadas em baús de caminhões, que vagavam de cidade em cidade, até que os estabelecimentos fixos começassem a pipocar pelo Japão. Já no ramo gastronômico, os decasséguis primeiro criaram os restaurantes convencionais e, só nos últimos anos, começaram a "levar a montanha até Maomé".

Marina Tieko Seki, uma das precursoras do food truck brasileiro no Japão - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Marina Tieko Seki, uma das precursoras do food truck brasileiro no Japão
Imagem: Arquivo pessoal

Uma das mais antigas no ramo, Marina Tieko Seki, 57, de Kosai (Shizuoka), aposta na diversidade. Seu food truck Delícias do Brasil, que circula por diferentes cidades desde 2007, inclui no cardápio lanches de padaria, pastéis, salgados, bolo de pote, açaí e até caldo de cana extraído na hora — a matéria-prima é importada da Tailândia. Mesmo com a economia conturbada em razão da pandemia, ela quer inaugurar um restaurante ainda em 2021.

É muito gratificante ver a satisfação dos fregueses quando matam a saudade de algum sabor tipicamente brasileiro."

Conquista pelo estômago

Tiago Takao Hoshi, do Hoshi's Burger - Gilberto Yoshinaga - Gilberto Yoshinaga
Tiago Takao Hoshi, do Hoshi's Burger
Imagem: Gilberto Yoshinaga

Um desafio comum aos food trucks brasileiros é conquistar o paladar dos japoneses, além de não se limitar apenas a ambientes ligados à comunidade brasileira.

Em março de 2019, Tiago Takao Hoshi, 36, ingressou no mundo dos lanches justamente de olho no mercado japonês, com espaço para seu food truck Hoshi's Burger no disputado estacionamento de uma unidade do Mega Don Quijote (uma das mais populares redes de lojas do Japão), em pleno centro de Nagoia (Aichi).

Fiz os lanches do meu jeito, sem adaptar a receita só para agradar aos japoneses. E deu certo, fiquei lá por um ano e meio e sempre vendi bem, acho que os conquistei pelo estômago", diz Tiago.

Nos últimos meses, Hoshi tem circulado apenas por estabelecimentos brasileiros. Ele também vê como acertada a decisão de largar a fábrica e apostar em um food truck. "Fácil não é, é bem cansativo. Mas é o meu negócio", orgulha-se ele, que também pretendia montar uma lanchonete, mas foi surpreendido pela pandemia de covid-19. No momento, prefere aguardar o desfecho dela, mas já planeja ampliar o cardápio de lanches típicos brasileiros — incluindo o clássico "X-tudo".

Ademar Deguti Corrêa, do Ki-Delícia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Ademar Deguti Corrêa, do Ki-Delícia
Imagem: Arquivo pessoal

Em parte graças a Ademar Deguti Corrêa, 39, a palavra churrasco - "?????" ("shurasuko", como se escreve em japonês) — se tornou familiar para muitos nipônicos da província de Shizuoka. Há cerca de dois anos, cinco vezes por semana, ele pilota a churrasqueira do food truck Ki-Delícia, especializado em espetinhos e sanduíches de churrasco, em unidades do Mega Don Quijote, apelidado de "Donki".

"Eu já tinha o 'não'. Resolvi meter a cara, perguntei, fui atrás, ganhei uma oportunidade e consegui ficar", diz ele, sobre ter conquistado espaço tão concorrido.

De certa forma acredito que, com a comida, posso ajudar a aproximar as culturas, porque muitos japoneses e outros estrangeiros passam a se interessar por mais coisas do Brasil."

Mercado em alta

O boom de food trucks na comunidade brasileira estimulou Eduardo Shibayama, 52, a investir na montagem de carros adaptados.

Desde março de 2020, ele estima já ter produzido e vendido quase 60 food trucks — não apenas para brasileiros, mas também no mercado japonês. Em maio deste ano, reservou parte do pátio de sua concessionária em Iwata (Shizuoka) para lançar um food park, onde pretende reunir 11 carros com diferentes opções de alimentos.

Eduardo Shibayama - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Eduardo Shibayama
Imagem: Arquivo pessoal

"Criei um sistema de franquia em que monto o carro, equipo-o com a necessidade de cada empreendedor, dou assessoria para a obtenção das licenças necessárias e ofereço treinamento sobre como gerir o negócio", explica Shibayama. Ele vê o mercado de food trucks em alta entre os brasileiros radicados no Japão.

Por natureza, brasileiros costumam ter espírito empreendedor. E esta é uma opção mais acessível de apostar em um negócio próprio."

Voltar a viver no Brasil não está nos planos desses brasileiros. Apesar da rotina cansativa, eles dizem que querem seguir levando o sabor brasileiro para diferentes partes do Japão, enquanto alimentam estômagos e sonhos.