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Sem-teto promovem tour por redutos de drogas e prostituição em Praga

O guia mais requisitado do tour, Karim leva turistas pelo lado B de Praga - Divulgação
O guia mais requisitado do tour, Karim leva turistas pelo lado B de Praga
Imagem: Divulgação

André Aram

Colaboração para Nossa

12/02/2021 04h00

Pensando em quem busca roteiros fora do óbvio em cidades turísticas, uma startup social em Praga, na República Tcheca, recrutou sem-teto, ex-adictos e outras figuras para mostrar aos visitantes o lado B da cidade, como redutos de drogas, prostituição, zonas de cafetões e policiais corruptos, máfias e outros submundos.

Tereza Jurecková e mais dois amigos de faculdade criaram o inusitado tour em 2012, quando participaram de um programa relacionado à concepção de iniciativas de impacto social, que pudessem beneficiar a sociedade baseada na sustentabilidade. Dessa forma, nasceu a Pragulic (Praga + rua em tcheco), nome da startup social, que faz sucesso na capital do país.

A ideia, segundo Jurecková, é dar aos cidadãos desprivilegiados a chance de compartilhar suas histórias e mudar o ponto de vista do outro sobre a falta de moradia. Os condutores do "dark tour" são selecionados criteriosamente e passam por uma formação profissional durante 1 mês, e alguns requisitos são essenciais, como seriedade, disciplina e sociabilidade, além de uma história de vida interessante.

Um dos guias da Pragulic em atividade - Divulgação - Divulgação
Um dos guias da Pragulic em atividade
Imagem: Divulgação

O tour guiado pode ser feito durante o dia ou à noite, pode ser temático, individual ou em grupo, e consiste em uma verdadeira aula de como eram essas localidades no passado, fatos curiosos (além da própria história pessoal do guia) e como é hoje.

De ex-michê a traficante de drogas

Karim - Divulgação - Divulgação
Karim
Imagem: Divulgação

A equipe de guias é diversificada, tendo em comum os vícios e a vida nas ruas. Karim, 48 anos, é um ex-garoto de programa homossexual e HIV positivo, que durante longos anos foi explorado por cafetões. Seu visual exótico chama atenção, maquiagem pesada nos olhos, cabelos negros despenteados e várias bijuterias.

Petr, 49 anos, já teve uma situação financeira boa no passado, mas perdeu tudo quando expandiu os negócios para as drogas. Além de traficante, também foi usuário desde os 16 anos de idade, passou longos anos na prisão, virou um sem-teto adicto e devido a uma infecção teve uma perna amputada.

"Nunca é tarde demais para fazer mudanças, além das drogas, fiz várias outras atividades criminosas, como roubar pessoas, lojas etc. Isso não ficou impune, fiquei muitos anos preso. Quando saí do hospital, não havia como viver a velha vida, embora eu estivesse ainda lidando com o vício nas drogas, eu tinha que vencer os demônios dentro de mim", filosofa.

Petr - Divulgação - Divulgação
Petr
Imagem: Divulgação

E ele comenta orgulhoso sobre as mudanças na sua vida. "Tenho uma namorada, moro em um apartamento decente que faz parte de um programa de habitação social financiado, que eu mesmo posso pagar, e tenho um emprego fixo na startup trabalhando como recepcionista e também guia. Mesmo que eu tenha falhado algumas vezes, com o apoio das pessoas daqui, eu sigo lutando".

A pandemia da covid-19 prejudicou bastante o tour, que foi reduzido drasticamente devido ao isolamento social, mas Petr e sua namorada Vera, que também trabalha na recepção, não veem a hora de retomar as atividades: "mal posso esperar para essa pandemia acabar, e poder mostrar e contar aos turistas todas aquelas coisas malucas que eu fazia quando era mais novo", diz animado.

Zuzka - Divulgação - Divulgação
Zuzka
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Ivana - Divulgação - Divulgação
Ivana
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Com um passado nas drogas, Zuzka, 42 anos, foi uma prisioneira do vício ao longo de 18 anos. Hoje, se considera uma sobrevivente, além de trabalhar como guia, também ajuda jovens em risco de dependência química. Ivana, uma senhora simpática, que também é guia, mas que atua mais na recepção, bebia diariamente até perder os sentidos, a rua foi a sua casa durante 37 anos, hoje se considera reabilitada.

O guia mais velho, Václav, de 70 anos, vivia sob a ponte Hlavka na companhia de um cão e gato. Ele sempre conta para os viajantes que era um milionário, mas que se tornou um sem-teto por opção em 2006. Nas suas andanças, gosta de mencionar sobre as suas experiências morando na rua.

Václav - Divulgação - Divulgação
Václav
Imagem: Divulgação

Outros guias são: Hanus, um ex-presidiário que produzia Pervitin (metanfetamina) antes da revolução acontecer, e Roman, um sem-teto que faz tours online através de uma câmera, uma alternativa de passeio encontrada em tempos de lockdown.

Roman - Divulgação - Divulgação
Roman
Imagem: Divulgação
Hanus - Divulgação - Divulgação
Hanus
Imagem: Divulgação

Locais turísticos de um passado tenebroso

O passeio guiado realizado a pé, faz com que os visitantes caminhem entre moradores de rua desmaiados em assentos públicos e usuários de drogas em plena atividade. Os viajantes curiosos podem fazer perguntas não apenas sobre o local, mas também sobre a vida pretérita do guia.

Durante o tour, o enfoque é no passado, já que muita coisa mudou desde os anos oitenta. A estação principal de Praga, que já foi um território de prostituição masculina, hoje não passa de um abrigo para sem-teto.

Museu Nacional e Praça Venceslau, em Praga (República Tcheca) - NurPhoto via Getty Images - NurPhoto via Getty Images
Museu Nacional e Praça Venceslau, em Praga (República Tcheca)
Imagem: NurPhoto via Getty Images

Um dos principais cartões postais de Praga, a esplendorosa Praça Venceslau de 750 metros de comprimento, que em 1989 foi cenário de marchas populares na Revolução de Veludo, é descrita no tour como o paraíso dos cafetões no passado.

A imponente estátua de São Venceslau observa do alto, batedores de carteira, moradores de rua, prostitutas e traficantes que se estendem até a área da ferrovia. A famosa praça palco de acontecimentos importantes, é vista sob dois lados, a parte baixa seria o lado mais "seguro", em que qualquer tipo de criminalidade é coibida pela polícia, a parte alta - o oposto.

Outro ponto é o requintado Café Louvre que, em uma era pregressa, foi o maior prostíbulo durante o comunismo.

Estátua de São Venceslau  - De Agostini via Getty Images - De Agostini via Getty Images
Estátua de São Venceslau
Imagem: De Agostini via Getty Images

O pequeno parque Sherwood também está incluído no roteiro, situado perto da principal estação de trem da cidade, é outro lugar onde vivem prostitutas, adictos e moradores de rua que praticam furtos entre eles.

Nas décadas de oitenta e noventa, era comum a prática sexual na estação e nos parques, sem se importarem com os cidadãos que trafegavam pelo local.

Serviço

O tour em grupo custa em torno de 250 CZK, aproximadamente R$64 por pessoa, metade do valor é repassado para o guia. As gorjetas são muito bem-vindas, além disso, o visitante pode também doar roupas. O passeio dura em média 2 horas, mas há roteiros mais longos.

Mais informações: https://pragulic.cz/