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Virtual ou (de fato) ao vivo? Eis o dilema atual de eventos gastronômicos

Chefs preparam pratos durante o festival gastronômico Arrebita Portugal, realizado na última quinzena de agosto em Portimão, no Algarve - Goncalo Villaverde
Chefs preparam pratos durante o festival gastronômico Arrebita Portugal, realizado na última quinzena de agosto em Portimão, no Algarve
Imagem: Goncalo Villaverde

Rafael Tonon

Colaboração para Nossa, de Portugal

19/09/2020 04h00

Alguns foram cancelados, muitos migraram para versões digitais — ainda que com muitas adaptações. Mas só poucos decidiram manter sua programação normal diante de um cenário tão instável. A pandemia afetou de forma drástica o ramo de eventos gastronômicos em todo o planeta: das feiras de vinhos aos simpósios, de degustações a festivais.

Se a imposição de distanciamento social em resposta ao avanço das infecções do novo coronavírus foi um duro golpe para bares e restaurantes no mundo todo, o que dizer de eventos configurados primordialmente para a intenção entre as pessoas em torno das comidas e bebidas?

Desde março, a agenda de muitos deles começou a ser posta a prova: remarcações, adiamentos, adaptações, cancelamentos. Em tempo recorde, muitos conseguiram migrar para o digital, de forma a cumprir as programações e os acordos com patrocinadores.

Do digital pro físico

Programado para o final de maio, o simpósio Sangue na Guelra, em Portugal, um dos mais importantes do setor, teve que correr para colocar no ar chefs, jornalistas e outros profissionais da alimentação em live streaming.

Duas semanas antes da programação normal, e transmissão gratuita no YouTube e no Facebook, foi um dos primeiros eventos de gastronomia internacional a se "digitalizar".

Ana Músico e Paulo Barata, criadores do Sangue na Guelra (online) e do Arrebita (presencial) em Portugal - Reprodução Instagram - Reprodução Instagram
Ana Músico e Paulo Barata, criadores do Sangue na Guelra (online) e do Arrebita (presencial) em Portugal
Imagem: Reprodução Instagram

Com chefs internacionais como Alex Atala, Mauro Colagreco e Dan Barber no elenco, se beneficiou do fato de estar todo mundo em casa por conta da pandemia e foi acompanhado quase 26 mil pessoas de pessoas — muito mais do que uma centena que poderia estar presente no formato original.

Promovido pela agência de consultoria Amuse Bouche, o resultado foi muito acima do esperado. O que incentivou seus sócios, Paulo Barata e Ana Músico, a partirem para um desafio mais ousado: decidir fazer um evento físico durante a pandemia.

Ainda que Portugal já tenha relaxado suas restrições sociais, colocar as pessoas na rua para comer pratos feitos por 31 chefs consagrados do país a preços populares (menos de 10 euros) parecia uma loucura.

arrebita - Goncalo Villaverde - Goncalo Villaverde
Cena durante festival Arrebita, festival de rua que serviu pratos de 31 chefs consagrados a preços populares
Imagem: Goncalo Villaverde

Mas o Arrebita Portugal de fato aconteceu na última quinzena de agosto, na rua de comércio mais popular de Portimão, no Algarve: cozinheiros ocuparam lojas comerciais (barbearias, sapatarias, floriculturas) para servir seus pratos.

Para acontecer, teve que envolver diversas reuniões com a Câmara Municipal, proteção civil, bombeiros, representantes da saúde e até testes em todos os envolvidos (que, felizmente, deram todos negativos).

Em três semanas, conseguiram colocar tudo de pé em meio ao maior cenário de instabilidade das últimas décadas.

Até o dia do evento, tudo podia mudar, foi uma apreensão constante. Nessa altura, tudo é imprevisível"
Paulo Barata

Ao final, com controle de entrada e capacidade máxima a de pessoas a circular nas ruas, o Arrebita reuniu 4 mil pessoas em mais de 13 horas de refeições servidas. "Ajuda sempre a nunca enxergar as coisas como problemas, mas como desafios a serem transpostos", completa Ana.

Galeria: um dia no festival de rua Arrebita, em Portugal

"Fazer um evento desses agora é ainda mais importante para o moral das pessoas, dos chefs que já sofreram tanto com esse cenário. Com muito mais cuidados, claro, provamos que é possível", diz.

Uma nova edição está marcada para outubro, na cidade de Idanha-a-Nova. Outras edições devem acontecer no decorrer dos meses em outras localizações, avançando até 2021.

Adaptar é preciso

A FoodPass é uma plataforma de promoção de eventos gastronômicos que renovou o mercado brasileiro quando foi fundada, há 5 anos. E que se viu diante do pior cenário possível quando a pandemia atingiu o Brasil.

Mas por ser uma empresa já nascida no mundo digital, conseguiu encontrar estratégias para se adaptar, mesmo com as adversidades, a formatos virtuais. E promover eventos com grande audiência.

Logo no Dia das Mães, a plataforma promoveu o festival online Cozinha de Vó, para resgatar receitas de dez chefs que fossem carregadas das memórias afetivas que a data invoca.

foodpass - Reprodução Instagram - Reprodução Instagram
Receita junina para um arraiá virtual
Imagem: Reprodução Instagram
bolovo - Reprodução Instagram - Reprodução Instagram
A FoodPass conseguiu se adaptar rapidamente ao virtual e conquistar com receitas como o bolovo
Imagem: Reprodução Instagram

Em parceria com a Nespresso, realizou, em junho, o Food Summit para trazer cenários e perspectivas para o setor de alimentos e bebidas em 13 webinars com um alcance de mais de 1 milhão de pessoas. Depois vieram eventos como o Arraial e um festival de Dia dos Pais.

Claro que, nesse formato, perdemos um pouco a chance de estar em lugares novos, perdemos os aromas, os olhares, a espontaneidade"
Priscila Sabará, CEO da FoodPass

Mas, segunda Priscila, o maior ganho é o acesso e a democratização que o formato digital permite, algo que os números conquistados pela FoodPass são uma potente prova.

Degustações online

Uma luz no fim do túnel para muitos outros eventos gastronômicos programados para este ano. O Vinhos de Portugal é um dos maiores eventos de vinhos do mundo, que chega a reunir mais de 10 mil pessoas no Rio de Janeiro e 5 mil em São Paulo.

vinhos de portugal - garrafa - Reprodução Instagram - Reprodução Instagram
A edição brasileira do Vinhos de Portugal será um teste do formato digital
Imagem: Reprodução Instagram

A ViniPortugal, entidade que o realiza no país, chegou a mudar as datas por conta da pandemia, mas depois achou mais prudente alterá-lo para o formato digital. "Não queríamos correr o risco de ser um ponto de contaminação", afirma Frederico Falcão, presidente da entidade

Agora marcado para outubro, o objetivo é crescer exponencialmente e permitir que pessoas do país todo (até de cidades bem pequenas) possam participar. O evento do Brasil será um piloto para que o formato possa ser levado a outros países.

Com provas guiadas (com a compra antecipada de garrafas), aulas e palestras, são esperadas 6 mil pessoas que estejam logadas por seus computadores e celulares.

Se não teremos o lado de confraternização que o vinho traz, por outro lado ganhamos mais acesso aos enólogos e produtores, e possibilitamos um acesso mais fácil"
Frederico Falcão

A digitalização foi o que permitiu que o evento ocorresse. Do contrário, só voltaria a ser realizado em 2021, se tudo desse certo.

Filmes e jantares

Mas nem todos os eventos acreditam que o digital é capaz de dar conta da experiência que se quer passar. O Culinary Zinema, mostra de filmes de comida que faz parte da programação do tradicional Festival de San Sebastián, está programado para o final de setembro.

Os quatro filmes da mostra são seguidos por jantares que acontecem no Basque Culinary Center, com a presença de convidados. Neste ano, a lista (de filmes e de comensais) é menor por conta da pandemia, mas vai acontecer normalmente, apesar dos casos na Espanha terem voltado a subir.

Em Paris, o Omnivore, um dos festivais de comida mais famosos da França, foi realizado entre 12 e 15 de setembro, com uma programação mais contida que vai de palestras, jantares e cozinheiros servindo seus partos na rua, tendência atual da pandemia.

O evento reuniu chefs e confeiteiros celebrados do país, como Cedric Grolet e Cesar Troisgros (sobrinho do chef Claude Troisgros) em jantares especiais. Os mesmos organizadores do Omnivore estão a frente do Mondial de la Bièrre, um dos eventos de cerveja mais importantes do mundo, que acontece simultaneamente na cidade francesa.

omnivore - Reprodução Instagram - Reprodução Instagram
O Omnivore foi realizado presencialmente entre 12 e 15 de setembro
Imagem: Reprodução Instagram
omnivore - Reprodução Instagram - Reprodução Instagram
O festival reuniu algum dos principais chefs franceses
Imagem: Reprodução Instagram

Festival da cerveja no Brasil

No Rio de Janeiro, o festival preferiu postergar a data, mas manter o evento que acontece anualmente no Píer Mauá (em 2021, também chega a São Paulo). Programado para 18 a 22 de novembro, a oitava edição espera reunir mais de mil rótulos de cervejas entre nacionais e internacionais.

Sobre a expectativa de público, tudo vai depender das restrições quando a data mais próxima chegar, mas os organizadores garantem que tudo será feito para garantir a segurança dos participantes.

O evento segue programado para novembro, mas estamos atentos diariamente às definições de protocolo"
Gabriel Pulcino, gerente do Mondial de la Bière

"Não depende só da nossa vontade de promover o evento, e sim dos cuidados com todos os envolvidos. Além, claro, da experiência que sempre promovemos e que precisamos manter a excelência", completa.