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Noites de Berlim têm bares cheios e pouco distanciamento

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Imagem: Getty Images

Thomas Sparrow

Da DW

24/08/2020 09h56

Alta dos contágios por covid-19 na Alemanha é impulsionada por noitadas sem regras de higiene e distanciamento. Na capital do país, jovens desafiam perigo de contágio. Autoridades têm dificuldade na fiscalização.

Quase meia-noite no centro de Berlim, e um grupo de jovens turistas bávaros está aproveitando o clima quente de verão em um bar situado em um dos muitos pátios da cidade. A maioria deles está sentada a pouca distância uns dos outros em um banco comprido de madeira, bebendo cerveja e falando alto. Distanciamento social não existe. Ninguém usa máscara.

Eles dizem que o bar no povoado em que moram está fechado por causa do coronavírus, então decidiram vir para a capital para se divertir. Medo de pegar o coronavírus? "Nem um pouco", diz um deles. Os outros concordam: "Não temos medo. Somos jovens e saudáveis."

E quanto à possibilidade de uma segunda onda de infecções, causada, em parte, por pessoas que festejam demais? "Na minha opinião, isso é infundado", responde um deles. Um amigo se intromete: "É pura especulação".

Festejando com criatividade

Embora as casas noturnas de Berlim estejam fechadas há meses, os berlinenses e os turistas encontraram outras maneiras de comemorar durante a pandemia.

Os bares e restaurantes costumam ficar lotados, especialmente se tiverem capacidade para sentar ao ar livre, e os parques e as florestas se transformaram em cenário de raves improvisadas.

As autoridades estão bem cientes de que é difícil manter o distanciamento social quando as pessoas bebem e festejam. E também sabem que isso se tornou um problema de saúde pública.

Os casos de coronavírus aumentaram significativamente na Alemanha nas últimas semanas, e as autoridades de saúde pública disseram que a culpa é, em parte, da negligência.

Além disso, mais jovens parecem estar testando positivo na Alemanha. De acordo com as autoridades sanitárias do país, a idade média dos que estão se infectando é agora de 32 anos. Na Páscoa, era de 52 anos.

Em Berlim, a maioria dos infectados tem entre 30 e 39 anos.

Stephan von Dassel, subprefeito do bairro de Mitte, no centro de Berlim, diz estar preocupado com isso. "Voltamos ao patamar em que estávamos em março e no início de abril, quase 200 casos em 10 dias", diz, referindo-se a Mitte, um dos bairros mais afetados pelo aumento das infecções na capital alemã.

"Alguns dos números da infecção vêm do retorno de turistas, mas também de frequentadores de festas e pessoas que obviamente não cumprem mais as normas de proteção", acrescenta.

Durante a recente partida de futebol da Champions League entre o Bayern de Munique e o Barcelona, a equipe de von Dassel contabilizou 80 infrações em um único bar. O local estava superlotado, e os fregueses não respeitavam a distância mínima.

Von Dassel admite que ele e seus quase 50 funcionários não podem fiscalizar cada um dos 2.800 bares e restaurantes em seu distrito, então ele enfatiza ser necessário que os donos de bar e os frequentadores também tenham senso de responsabilidade.

Bares e restaurantes devem garantir que haja espaço suficiente entre as mesas e manter listas de visitantes para rastrear infecções. Os garçons devem usar máscaras de proteção e devem garantir que os convidados também as usem quando não estiverem em suas mesas.

Pato Donald

Não muito longe do escritório de Von Dassel fica um dos bares cult de Berlim, Klo, que em alemão significa vaso sanitário. O bar está aberto desde a década de 1970 e faz jus ao seu nome: escovas de toalete penduradas no teto e os frequentadores podem sentar-se em vasos sanitários.

O lugar é apertado e cheio de surpresas. Coisas parecem querer cair do teto ou pular das paredes, os visitantes são esguichados com água, e as mesas podem subir ou descer sem aviso prévio. Até mesmo uma ida ao banheiro é, neste bar com temático inspirado em banheiros, tudo menos normal.

Mario Kreibe trabalha no estabelecimento como garçom há mais de 20 anos e diz que a maioria dos visitantes reconhece que cometeu um erro ao se dar conta de que não está respeitando as regras. "Mas também há pessoas que dizem, assim que chegam, 'ei, ali eu não precisei de máscara, então por que deveria precisar de uma aqui?' E então saem do nosso bar", afirma, acrescentando ter a sensação de ser punido pelos fregueses exatamente por estar seguindo as regras.

"Infelizmente, é assim que as coisas são", lamenta. Ele afirma que as listas com dados de visitantes que é obrigado a manter às vezes podem se tornar um problema. Ao falar isso, mostra pedaço de papel em que um convidado se identifica como "Pato Donald", "de Patópolis".

"Isso dói", admite. "Quando algumas pessoas não se importam, isso é mais do que negativo, especialmente para um bar que realmente segue as regras."

Em outro lugar da vida noturna do centro de Berlim, dois jovens austríacos dizem que gostam de sair de noite e que sempre usam máscaras e respeitam o distanciamento social. De repente, um homem mais velho interrompe a conversa. Ele se identifica como médico e pergunta aos dois jovens por que usam máscaras. "Usar máscara do lado de fora é besteira total. Não há risco de infecção", garante. "Mantenha distância, mas usar máscara do lado de fora é bobagem", completa.

Os dois jovens respondem: "Melhor prevenir do que remediar." Depois que o suposto médico se afasta, um dos austríacos comenta: "E depois dizem que os jovens é que são irresponsáveis, fazem o que querem, não usam máscaras e são sempre os estúpidos". Eles ajeitam suas máscaras e se despedem para desfrutar a vida noturna berlinense.