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Reportagem

Como uma garrafa de champanhe salvou a vida de três remadoras no Atlântico

Era véspera do último Rèveillon, e aquelas três remadoras inglesas (Grace Gilbert, Maddie Difazio-Wright e Grace Pybus, todas na faixa dos 30 anos de idade) estavam, literalmente, no meio do Oceano Atlântico, quando sentiram uma pancada no fundo do barco no qual estavam — um modelo especial para competições a remo de longa duração. Em seguida, outra pancada. E mais uma — e esta produziu um furo no casco, por onde, instantaneamente, começou a verter água para dentro do barco.

Era preciso agir rápido. E elas agiram. Pegaram tudo o que pudesse vedar aquele rombo (roupas, travesseiros, um balde...) e tentaram estancar a entrada de água. Não conseguiram. Mas, ao menos, o ritmo da inundação diminuiu e elas ganharam tempo para pensar em uma solução mais eficaz.

Foi quando uma delas teve uma ideia que, a princípio, parecia absurda demais para dar certo — mas deu.

Uma garrafa no buraco

Como o buraco no casco tinha o diâmetro de uma garrafa, por que não usar uma própria garrafa para tapá-lo?

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Imagem: Vibe The Wave

E foi assim que uma garrafa de champanhe, que elas estavam guardando para celebrar a chegada do ano novo, no dia seguinte, serviu para salvar a travessia — e, talvez, a própria vida — daquelas três jovens inglesas, na mais implacável competição de barcos a remo do mundo: a The World's Toughest Row, a travessia do Oceano Atlântico com barcos a remo, que, como o próprio nome diz, é a mais dura competição do gênero no mundo.

Chegaram 30 dias depois

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Imagem: Vibe The Wave
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No final da tarde de ontem, terça-feira, elas finalmente cruzaram a linha de chegada, na ilha de Antigua, no Caribe, após 49 dias remando, desde as Ilhas Canárias, do outro lado do oceano.

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Imagem: Vibe The Wave

As três inglesas terminaram apenas em 24º lugar (e 9º entre as mulheres), entre os 40 barcos inscritos. Mas, por conta do imprevisto que as levou a usar uma prosaica garrafa para tapar um furo no casco do seu barco, foram mais aplaudidas e festejadas do que os vencedores.

"Foi uma jornada incrível", disse, ao desembarcar, Grace Gilbert, uma das três remadoras — que, a exemplo das companheiras, nunca havia participado de uma competição de barcos a remo, muito menos tão longa assim.

A começar pelo uso daquela garrafa como rolha. E não é que deu certo?

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A culpa foi de um peixe

O que obrigou aquele trio de mulheres a usar a imaginação — e contar com a sorte — para conter a inundação do barco (que, fatalmente, resultaria em naufrágio) foi um peixe: um grande exemplar da espécie marlim, cuja principal característica é possuir um bico longo e afiado, feito uma lança, que usou para perfurar o casco do barco das remadoras — possivelmente, por tê-lo confundido com o dorso de uma presa de grande porte. Ou seja, comida — já que marlins não atacam seres humanos.

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Imagem: Vibe The Wave

"Enquanto uma de nós corria atrás da garrafa, para tapar o buraco, eu peguei minha filmadora e a enfiei na água, para ver o que tinha nos acertado. E lá estava aquele grande marlim indo embora. Ele era lindo. Devia ter uns três metros de comprimento", contou outra remadora, nas redes sociais da sua equipe, a Vibe the Wave.

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Cortaram um dos remos

O reparo completo do barco levou mais de três horas, e incluiu serrar um pedaço de um dos remos (o que foi feito com as poucas ferramentas que elas tinham), para também enfiá-lo no buraco.

Apesar de precário — e inusitado —, o remendo resistiu até a chegada do trio ao Caribe, um mês depois.

A mais dura competição do gênero

A The World's Toughest Row é uma espécie de corrida maluca de respeito. Se atravessar o Oceano Atlântico com um barco a remo já é um feito e tanto (que dirá o brasileiro Amyr Klink, que fez isso na década de 1980), imagine correndo contra o tempo, competindo contra outros barcos.

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A competição acontece todos os anos, sempre em dezembro, e costuma reunir mais de 100 remadores — que podem competir sozinhos ou em equipe, como no caso das inglesas.

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Imagem: Vibe The Wave

O regulamento é rígido: nenhum barco pode pesar menos de 750 quilos e todos têm que possuir um dessalinizador, equipamento que transforma água do mar em potável, além de um curioso sistema de lastro, com 150 litros de água doce em um reservatório na parte de baixo do casco, que, se necessário, pode ser bebido, embora o competidor seja penalizado por isso — mas, pelo menos, não morrerá de sede.

5.000 calorias diárias

Dependendo das condições do mar, dos ventos e dos braços dos competidores, a travessia, de quase 5.000 quilômetros, dura entre um mês e dois meses e meio (o recorde são 29 dias e 14 horas), e consome algo em torno de 1,5 milhão de remadas. O gasto de energia dos remadores é o equivalente a correr 115 maratonas.

Mesmo com dietas alimentares (em pó) de mais de 5.000 calorias diárias, os competidores da The World's Toughest Row costumam perder cerca de 10 quilos de peso na prova, que também é marcada pelo total desconforto, já que os barcos, que medem pouco mais de sete metros de comprimento, possuem apenas o mínimo necessário — o vaso sanitário é um balde, e banho, só quando chove.

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Imagem: Vibe The Wave

O primeiro levou seis meses

Mesmo assim, a cada nova edição, mais remadores participam desta radical competição, que transformou uma grande aventura (a travessia do Atlântico com um barco a remo) em um desafio, também, contra o tempo. E a evolução tem sido notável.

O vencedor da prova individual este ano (ou seja: remando sozinho no barco) gastou 43 dias e noites para cruzar o Atlântico — quatro meses e meio menos do que o primeiro remador solitário da História a fazer esta travessia, o inglês John Fairfax, que levou seis meses para vencer a mesma distância, em 1969 (15 anos depois, o brasileiro Amyr Klink repetiria o seu feito, e se tornaria o primeiro homem a atravessar o sul do Atlântico com um barco a remo).

Mas, na ocasião, a façanha de Fairfax foi totalmente ofuscada — e ignorada —, porque ele teve o azar de completar sua inédita travessia no mesmo dia em que os primeiros homens chegaram à Lua. E, jornada por jornada, a dos astronautas foi bem mais histórica — clique aqui para conhecer esta interessante história.

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Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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