PUBLICIDADE
Topo

Coluna do Veterinário

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Não é só chocolate que é tóxico para pets. Saiba comidas e remédios vetados

Cebola, mais alimentos e remédios estão entre itens tóxicos para cães e gatos - Getty Images/iStockphoto
Cebola, mais alimentos e remédios estão entre itens tóxicos para cães e gatos
Imagem: Getty Images/iStockphoto
André Marchina Gonçalves

André Marchina Gonçalves é médico veterinário formado pela FMVZ-USP em 2012. Possui pós-graduação lato sensu em Anestesiologia Veterinária pela PAV e Anestesia Regional Veterinária pelo IEP Ranvier. Trabalhou em alguns dos principais hospitais e clínicas veterinárias de São Paulo entre 2013 e 2019, quando mudou-se para a Espanha. Atualmente é aluno da Universidade de Murcia, onde faz um masters em Medicina de Pequenos Animais.

Colaboração para Nossa, em Murcia (ESP)

01/04/2021 04h00

Estamos nos aproximando da Páscoa, e você já aprendeu aqui em Nossa que não deve dar chocolate ao seu pet. O cacau utilizado para fazer o chocolate possui uma substância chamada teobromina, uma substância do tipo metilxantina, que é tóxica para os cães e gatos.

O risco é maior na combinação entre chocolate amargo, que possui mais teobromina, e cães pequenos, que precisam de menos teobromina para se intoxicar. Porém, mesmo o chocolate branco e o ao leite podem causar intoxicação ou diarreias pelo excesso de gordura, e não existem quantidades seguras de nenhum deles para cães e gatos.

Portanto, se você quer realmente dar chocolate nessa Páscoa, dê ao seu veterinário!

O tema é bem frequente nessa época do ano. Mas a lista de coisas que parecem inofensivas mas que são tóxicas para os pets é bem mais extensa. São comidas que todo mundo tem em casa ou remédios que todo mundo toma.

Café e chá

Outro exemplo de metilxantina é a cafeína, que também faz mal para os animais. Sua ingestão pode levar a sintomas como vômitos e diarreias e em doses muito elevadas, pode produzir hipertermia, taquicardia, convulsões e até levar à morte.

Não parece razoável que alguém tenha a ideia de dar café para um cachorro, mas é importante lembrar que a cafeína também está presente no chá (os cães podem ser atraídos pelas folhas, principalmente as aromatizadas), no guaraná e em altas quantidades em alguns remédios de uso humano e em suplementos alimentares.

Alimentos

Muito comuns no nosso dia a dia, as espécies do gênero Allium sp também podem causar problemas aos cães e gatos. Nele estão incluídas cebola, alho e alho-poró, entre outras. Esses alimentos possuem substâncias que podem causar sintomas gastrointestinais, como vômitos e diarreia, e ainda sintomas neurológicos.

Também podem levar à destruição de hemácias (glóbulos vermelhos), causando anemia — cães de algumas raças, como Shiba e Akita, são mais suscetíveis a esse problema. Em grandes quantidades, podem até causar a morte, e 15 gramas já podem causar alterações sanguíneas em gatos e cães pequenos. Isso vale tanto para os ingredientes crus quanto para os cozidos. Então, se o seu animal come comida caseira, lembre-se de não utilizar esses temperos.

Um ingrediente que é utilizado como uma alternativa dietética ao açúcar é o xilitol. Ele está presente em produtos diet e também pode ser comprado para uso como adoçante. Porém, para os cães, a ingestão de uma pequena quantidade pode levar a um quadro de hipoglicemia importante e a alterações hepáticas.

Algumas frutas também podem ser tóxicas para os animais.

Esse é o caso do abacate. Ele possui uma uma substância chamada persina, que é muito tóxica para diversas espécies domésticas. Para cães e gatos, sua toxicidade não é das maiores, porém isso somado à grande quantidade de gordura presente na fruta pode levar a diarreias.

Já as uvas estão proibidas. Elas parecem realmente inofensivas, e até já vi uma colega veterinária dando uvas para o seu cão. Porém, podem causar vômitos, diarreia e insuficiência renal. A susceptibilidade a essa intoxicação varia de animal para animal. Para alguns, essas frutas não causam sintoma nenhum. Porém para os mais sensíveis, uma pequena quantidade pode ser fatal. Isso vale também para as uvas passas.

Permitidos, com ressalvas

As outras frutas em geral são alimentos que não fazem mal para os animais, mas é preciso estar atento a alguns detalhes. Caroços como os do pêssego e da manga podem causar obstrução intestinal. Os da maçã e da pera contêm uma pequena quantidade de cianeto que, em grande volume, pode causar intoxicação. Portanto, é indicado tirar.

Já as frutas ácidas podem causar problemas estomacais para animais mais sensíveis ou que tenham gastrite.

É importante lembrar que as frutas possuem muito açúcar, então devem ser oferecidas com moderação. Isso vale especialmente para os animais pequenos ou que tenham alguma doença crônica. Na dúvida, sempre fale com seu veterinário antes de fornecer alimentos diferentes para seu cão ou gato. Lembre-se também que a ração que ele come já fornece todos os nutrientes que ele necessita.

Medicamentos

As intoxicações alimentares ocorrem mais nos cães do que nos gatos, já que eles têm um costume maior de comer de tudo. Porém, vemos com maior frequência nas clínicas veterinárias, a intoxicação por remédios.

Isso se dá de duas maneiras: por uma substância que não é tolerada pela espécie ou pela dosagem utilizada. A intoxicação pode ocorrer pelo dono, que médica o animal sem consultar o veterinário, ou de maneira acidental, quando o animal come uma caixa de remédios que estava acessível.

Os problemas de dosagem são muito frequentes. É importante ter claro que os remédios que você compra em uma farmácia são elaborados para um ser humano adulto. Não tente achar que o que vale para uma pessoa vale para o seu animal.

"Ah, então é só comprar a versão pediátrica do medicamento!"

Também não! Seu animal pode ter o tamanho de uma criança, mas suas características e seu metabolismo são completamente diferentes. As dosagens não podem ser extrapoladas de uma criança para um animal.

Também não é correto dar um remédio para um animal seu, porque outro já o tomou antes. Muitas vezes atendemos clientes que dizem: "Meu outro cachorro (labrador, de 40 kg) tomou 2 comprimidos de dipirona que o veterinário prescreveu depois da cirurgia dele. Hoje, como a Mel (yorkshire, de 1 kg) estava um pouco quietinha, eu dei um comprimido para ela. Mas foi um só, porque ela é menorzinha".

Dipirona parece inofensivo, até os bebês tomam quando tem febre.

Nesse caso a dipirona em si não é um problema, já que utilizamos ela de maneira segura em nosso pacientes. O problema é, que no caso da Mel, esse comprimido de dipirona representa uma quantidade 20 vezes maior do que o adequado e pode causar efeitos colaterais importantes. As doses de medicamentos para cães e gatos são cuidadosamente calculadas em função de seu peso ou superfície corporal e, mais uma vez, não têm relação nenhuma com as doses utilizadas em pessoas.

Já a lista de remédios humanos tóxicos para cães e gatos é bem grande. Vou utilizar os exemplos mais comuns, que frequentemente levam cães e gatos às urgências dos hospitais: os analgésicos e anti-inflamatórios.

Para os donos de gatos, o mais importante deles é o paracetamol, um analgésico e antipirético dos mais usados por nós. Nunca, em hipótese alguma, dê um remédio que contenha paracetamol para o seu gato. Um único comprimido pode ser fatal para eles. Os cães são um pouco mais tolerantes que os gatos para ele, mas uma dosagem errada também pode causar grandes estragos.

Existem dezenas de outros medicamentos dessa classe à disposição de nós humanos. Porém, a grande maioria deles não é bem tolerada pelos nossos amigos, que podem ter diversos problemas decorrentes de seu uso: gastrite, insuficiência renal, insuficiência hepática e anemia, entre outros. Podemos citar entre esses medicamentos o ibuprofeno e diclofenaco, que são muito utilizados por nós.

Portanto, mantenha os medicamentos fora do alcance do seu animal, principalmente se ele tem o hábito de destruir coisas. Se o seu pet estiver doente ou com dor, a única coisa que você deve fazer é levá-lo ao veterinário. Nunca dê um remédio sem antes consultar um veterinário. Se você não errar no tipo de medicamento provavelmente vai errar na dose, e as consequências podem ser bem graves.

Na hora de comprar um medicamento devidamente receitado, dê preferência pelas apresentações veterinárias. Elas são desenvolvidas pensando nas características do animal, com dosagens apropriadas, e muitas vezes contam com comprimidos palatáveis e outras características que auxiliam a administração e absorção do medicamento.