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Coluna do Veterinário

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Quer um bichinho? Adoção é opção mais barata e segura para pets e tutores

Pensando em ter um novo pet em casa? Conheça as opções mais seguras para isso - Getty Images
Pensando em ter um novo pet em casa? Conheça as opções mais seguras para isso
Imagem: Getty Images
André Marchina Gonçalves

André Marchina Gonçalves é médico veterinário formado pela FMVZ-USP em 2012. Possui pós-graduação lato sensu em Anestesiologia Veterinária pela PAV e Anestesia Regional Veterinária pelo IEP Ranvier. Trabalhou em alguns dos principais hospitais e clínicas veterinárias de São Paulo entre 2013 e 2019, quando mudou-se para a Espanha. Atualmente é aluno da Universidade de Murcia, onde faz um masters em Medicina de Pequenos Animais.

Colaboração para Nossa, em Murcia (ESP)

18/03/2021 04h00

Vemos com grande frequência notícias de descobertas de canis e gatis clandestinos no país. Nesses locais, animais são criados sem as condições adequadas, e não são raras as situações absurdas de maus tratos.

O que se vê nesses casos são animais sem a mínima condição de higiene, criados dentro de gaiolas superlotadas, e fêmeas colocadas para criar cio atrás de cio. Eles não recebem nutrição adequada e apresentam pulgas, carrapatos e outros parasitas. Muitos também têm doenças infecciosas, já que não são adequadamente vacinados e têm um sistema imune comprometido pelas condições ruins de criação.

Infelizmente, é muito comum chegarem nas clínicas veterinárias filhotes que foram adquiridos de criadores suspeitos e que apresentam doenças infecciosas graves, como a cinomose e a parvovirose.

Mas por que isso acontece?

A criação de cães e gatos é um negócio e, como tal, muitas vezes leva as pessoas a fazer de tudo para maximizar seus lucros. Assim, de maneira a diminuir seus custos, esses criadores de fundo de quintal começam a adotar práticas inadequadas, como fornecer comida de baixa qualidade, não vacinar, aumentar a quantidade de animais sem ter espaço, e por aí vai...

Para um canil ou gatil comercial funcionar de maneira legal, ele tem que ter uma série de registros, que variam de cidade para cidade, e também tem que estar registrado no Conselho Regional de Medicina Veterinária do estado. O estabelecimento ainda é obrigado a ter um Médico Veterinário como responsável técnico, a fim de atestar as condições adequadas do local. Essas são outras coisas que envolvem burocracia e dinheiro e que são frequentemente deixadas de lado por esses criadores.

Além do sofrimento dos animais criados em condições inadequadas, estes criadores também contribuem para o sofrimento animal de outra maneira. Essa é uma atividade que envolve uma grande responsabilidade: quando escolhemos os pais de uma nova ninhada, estamos selecionando artificialmente características deles. Criadores sem preocupação ou conhecimento adequado são responsáveis pelo nascimento de animais com características inadequadas, ou até mesmo perpetuam a existência de doenças genéticas.

São muitos os casos de problemas vindos da seleção desses animais. Isso pode ser visto, por exemplo, nos braquicefálicos, os cães e gatos de focinho curto. A característica selecionada do focinho curto leva aos problemas respiratórios dessa raça. Criadores éticos já sabem do problema e têm trabalhado para selecionar os animais que são menos afetados. Porém, certamente essa não é uma preocupação do criador de fundo de quintal.

Muitas doenças com componente genético também podem ser evitadas por meio de uma criação cuidadosa. Podemos citar distrofia muscular do golden retriever e displasia coxo-femoral, cegueira e surdez causadas pelo cruzamento de animais com gene Merle (aqueles animais manchados de raças como daschund ou pastor australiano), entre outras.

Por isso tudo, se você está pensando em adquirir um filhote, tenha muito cuidado. Não contribua para essa indústria de canis e gatis clandestinos. Mais do que financiar os maus-tratos, você pode acabar levando para casa um animal que tenha alguma doença infecciosa ou genética, ou que tenha algum problema em função de suas características corporais.

Para evitar isso, pesquise com calma em sites confiáveis e converse com um veterinário de confiança. Procure canis que sejam reconhecidos, que estejam devidamente registrados, que tenham um veterinário responsável. Se possível, peça para conhecer os pais dos animais e as instalações onde são criados. No caso da displasia coxo-femoral, algumas raças já têm um controle mais rígido, e você pode pedir o atestado radiológico que certifique que os pais são livres da doença. Isso irá diminuir muito os riscos dela estar presente no filhote .

Porém, já posso te adiantar uma coisa: não será barato.

Como já disse anteriormente, criar um animal nas condições ideais necessita de um grande investimento: registro do estabelecimento, registro em associações de criação, animais e material genético de alto valor, comida de qualidade, medicamentos, vacinas, espaço adequado, limpeza…. Então sempre desconfie de um filhote vendido na internet por um preço abaixo do mercado. Alguma coisa não estará certa.

Quer uma opção barata e com baixo risco de problemas? Adote!

Como já escrevi no último texto, o Brasil tem uma população gigantesca de animais em situação de rua. Com a crise causada pela pandemia, os abrigos de animais estão mais cheios do que nunca, e a grande maioria deles são vira-latas. Esses cães e gatos geralmente são os que sobram, já que infelizmente existe a preferência pelos de raça.

Por que essa preferência existe?

Muitas vezes se usa a desculpa de que um animal de raça tem porte e temperamento mais conhecidos, que não se podem prever em vira-latas. Isso não é verdade: o temperamento deles também pode variar, e a criação do animal é um fator muito importante para a determinação do seu comportamento. Normalmente, as pessoas que trabalham com adoção já têm uma ideia de como é o comportamento do animal que estão disponibilizando e podem te informar melhor. Já o tamanho que irá ficar um vira-latas filhote é facilmente estimado por um veterinário.

As propagandas com animais de raça e os famosos mostrando seus animais nas redes sociais também ajudam a despertar o desejo nas pessoas. Ter cães e gatos de algumas raças infelizmente também é associado a uma posição de status.

É importante dizer que não sou contra a criação de cães e gatos de raça, desde que ela seja feita de maneira ética e responsável. Entendo que estes animais podem ter características únicas que despertam o interesse nas pessoas — inclusive um dos meus cachorros é uma golden retriever. Porém, a sensação de adotar um animal abandonado é muito melhor do que a de comprar um!

Quer mais um motivo para a adoção? Essas doenças todas que eu citei que existem em cães de raça são muito menos frequentes nos vira-latas. A seleção que fazemos para ter os padrões raciais também acaba selecionando genes ruins, que levam à aparição de doenças. Já os vira-latas têm o que chamamos de vigor híbrido - a grosso modo, a mistura genética que possuem acaba diminuindo a prevalência desses genes ruins.

Em resumo, ao adotar um animal você ajuda a diminuir o problema do abandono, não contribui para a indústria de canis e gatis clandestinos, não paga nada e tem menos problemas de saúde, o que leva a menos preocupações e gastos com veterinário!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL