Um Zagallo para mim

Tite procura assistente para ser seu antagonista na Copa do Mundo; entenda o perfil e a função

Gabriel Carneiro e Igor Siqueira Do UOL, em São Paulo e Rio de Janeiro Lucas Figueiredo/CBF

O círculo mais próximo de Tite na seleção brasileira é formado pelo seu corpo de auxiliares. O último a chegar ao grupo foi César Sampaio, em 2019. Ele e Tite dividiram a sala de aula da CBF Academy e desenvolveram uma afinidade que serviu para preencher a lacuna gerada pela saída de Sylvinho, que trabalhava com o técnico desde os tempos de Corinthians.

Então presidente da CBF, Rogério Caboclo não estava tão satisfeito com essa formação. Tentou impor uma figura no corpo técnico da seleção e primeiro pensou no francês Thierry Henry, campeão do mundo em 1998, carrasco do Brasil em 2006 e que estava na comissão técnica da seleção da Bélgica que derrotou o Brasil na Copa do Mundo de 2018. Não rolou —o francês segue trabalhando com o espanhol Roberto Martinez. Depois, veio a ideia de Xavi. O espanhol, porém, já estava interessado em treinar o Barcelona quando veio a sondagem verde-amarela. Também não deu corda.

Mas foi o terceiro nome que mudou as coisas. Quando Muricy Ramalho foi ventilado para ocupar uma função na comissão técnica, Tite viu no antigo rival alguém com capacidade de dar uma contribuição valiosa em tempos de Copa do Mundo. Muricy não aceitou. O técnico da seleção, então, chegou a sondar Junior, o Maestro, hoje comentarista da Globo. Também não deu certo, mas era a confirmação de que Tite tinha aceitado a necessidade de ter mais uma pessoa em seu círculo da seleção.

Mas o que, afinal, Tite queria com esse movimento? Parcerias como a de Carlos Alberto Parreira e Mario Jorge Zagallo, na Copa do Mundo de 1994, ajudam a explicar.

Lucas Figueiredo/CBF
Lucas Figueiredo/CBF

Olhar do inimigo

O fascínio de Tite pela possibilidade de trabalhar com Muricy Ramalho tem como princípio a busca de um antagonista dentro da própria comissão técnica. A ideia é ter alguém para discutir e partilhar conhecimento que supere a ideia de hierarquia da equipe, razão pela qual o treinador já elogiou Zagallo publicamente.

Não é que haja insatisfação com Cleber Xavier, parceiro há 21 anos, com o próprio César Sampaio ou com o filho Matheus Bachi. Mas Tite vislumbrou em Muricy alguém capaz de trazer um olhar de fora, mais amplo, imaginando o que o adversário faria nos enfrentamentos contra a seleção brasileira. Alguém que proponha desafios a Tite que podem surgir contra os adversários. No popular, um "advogado do diabo".

Na cabeça de Tite, memórias de clássicos equilibrados contra os times de Muricy, especialmente no futebol paulista, pesam muito. Historicamente, a estatística dos enfrentamentos entre os dois treinadores corrobora o equilíbrio: em 15 jogos, são sete empates e quatro vitórias para cada lado, de acordo com o site O Gol.

Se tivesse aceitado o convite, Muricy não seria um coordenador — cargo mais similar ao que tem no São Paulo atualmente —, tampouco chefe de Tite, a ponto de decidir quem joga ou não. O papel seria de consultor. O mais perto que Muricy chegou da seleção até hoje foi via convite para ser treinador em 2010. À época no Fluminense, ele disse "não" a Ricardo Teixeira, então presidente da CBF.

Quando foi para a Copa de 2018, na Rússia, Tite era estreante. A maior parte a comissão técnica, aliás, também estava em seu primeiro Mundial. Os ex-jogadores, como o auxiliar Sylvinho e o coordenador Edu Gaspar, não tinham experiência em Copas. Os profissionais mais próximos de Tite que já tinham ido a uma Copa não eram do núcleo direto de tomada de decisões de campo. Um era o preparador de goleiros Taffarel, campeão do mundo em 1994. Os outros, o preparador físico Fábio Mahseredjian e o médico Rodrigo Lasmar.

Michael Regan - FIFA/FIFA via Getty Images

Em 2018, lições vindas 'na marra'

Sem uma figura experiente para se apoiar de forma próxima na campanha da seleção em 2018 — dentro do aspecto técnico de campo e bola —, Tite teve de aprender por si só algumas lições.

Uma delas foi que mudar o time de forma mais rápida é essencial em um torneio de sete jogos. O treinador já admitiu que demorou a tomar algumas decisões, a sacar alguns jogadores que não estavam rendendo bem.

Além disso, Tite tem batido na tecla de que a seleção não pode falhar nas oportunidades que criar. A eliminação contra a Bélgica teve esse enredo, sobretudo considerando o volume que a seleção conseguiu no segundo tempo.

"Criar oportunidades e fazer o gol. Efetividade é fundamental. Transpor isso para a excelência, que é criação e gol, solidez defensiva e vencer", disse Tite, na convocação passada.

Outro ponto no qual Tite tem trabalhado é na versatilidade da equipe e dos jogadores. Até pelo risco de perder algum titular por lesão, como foi o caso de Renato Augusto em 2018. O treinador também tem buscado uma variação tática. Na Rússia, o Brasil tinha um jeito muito bem desenvolvido de jogar, o 4-1-4-1. Até recorreu a um 4-4-2, como na partida das oitavas de final, diante do México. Mas não atingiu o nível adequado, como um todo, durante o Mundial. A leitura de Tite é que a equipe atingiu o ápice antes da Copa. E não durante a Copa.

"Versatilidade é importante porque te amplia o leque de opções", resumiu.

Quem é quem na comissão técnica atual da seleção?

  • Cleber Xavier

    Auxiliar técnico, trabalha com Tite desde o começo dos anos 2000, sem interrupções. É o braço direito do técnico.

    Imagem: Lucas Figueiredo/CBF
  • César Sampaio

    Auxiliar como Cléber, supre uma lacuna que o outro não poderia: foi jogador e com experiência de Copa do Mundo, em 1998.

    Imagem: Lucas Figueiredo/CBF
  • Matheus Bachi

    Auxiliar técnico, é filho de Tite. No começo, era mais ligado à área tecnológica. Hoje, é quem faz o trabalho de campo com os jogadores.

    Imagem: Lucas Figueiredo/CBF
  • Fábio Mahseredjian

    Preparador físico, conheceu Tite quando trabalhava no Corinthians. Está na seleção brasileira desde a Copa de 2010.

    Imagem: Lucas Figueiredo/CBF
  • Bruno Baquete

    Analista de desempenho, trabalhava no Athletico-PR antes do convite da seleção.

    Imagem: Lucas Figueiredo/CBF
  • Thomaz Araújo

    Analista de desempenho, trabalhou no Fluminense antes do convite da seleção.

    Imagem: Divulgação
  • Taffarel

    Preparador de goleiros, está na seleção desde 2014, com Dunga. Também trabalha no Liverpool nesta função.

    Imagem: Eduardo Anizelli/ Folhapress
  • Observadores

    Ricardo Gomes (foto) e Marcinho, ex-jogadores, são enviados à Europa junto com dois analistas.

    Imagem: Ivan Storti/SantosFC
Erico Leonan/São Paulo FC

Jantar e cafezinho envolvidos

Tite investiu tanto na ideia de trazer Muricy para a seleção que rolou até um jantar na casa no atual coordenador do São Paulo para tentar convencê-lo. Mas a resposta final foi não. O argumento era que Muricy não poderia deixar o clube em meio ao processo de recuperação para o qual foi contratado no começo do ano passado.

Hoje, o interesse em Muricy Ramalho não existe mais. Pelo que ouviu o UOL, nem que ele volte atrás na decisão de permanecer no São Paulo. Caso encerrado.

Diante da negativa de Muricy é que Tite se animou com o nome de Junior para o projeto. Não aconteceu uma proposta formal, como foi o caso anterior, mas um questionamento durante uma reunião de mais ou menos três horas na CBF. O intuito era descobrir se o ex-jogador estava aberto para ocupar o cargo. Tite costuma chamar algumas figuras da bola, mesmo da imprensa, para algumas conversas mais densas.

Com o Maestro, foram pelo menos dois contatos a respeito, movidos a cafezinho, o mais recente em dezembro. Nele, Tite viu um perfil um pouco diferente de Muricy. Trata-se de um jogador com longo histórico na seleção e que fez parte da geração do Mundial de 1982 — a segunda na preferência de Adenor, perdendo só para a de 1970. Além disso, o ex-lateral também chegou a ser técnico.

Assim como Muricy, Junior recusou, mas desta vez por causa da duração do projeto. Como Tite vai sair da seleção depois da Copa do Mundo, trata-se de um tempo que o ex-jogador considera curto para valer a pena pedir demissão da Globo, em que trabalha desde 1995 como comentarista. Também já é caso encerrado para a CBF.

O próprio Junior foi quem tornou público o convite feito por Tite durante participação no programa "Bem, Amigos!" em 31 de janeiro. No caso de Muricy, foi Tite quem falou pela primeira vez sobre o assunto, em junho.

Tem jogador garantido na Copa? Veja a opinião de José Trajano

Antonio Scorza/AFP

"Certo, beleza, ótima ideia"

A importância de alguém como Junior ou Muricy para a seleção brasileira pode ser ilustrada por uma história. Carlos Alberto Parreira voltava de Angra dos Reis para o Rio de Janeiro após um fim de semana de descanso em 1993. No rádio do carro, o então técnico da seleção brasileira ouviu que a Bolívia tinha se classificado para a Copa do Mundo. E o Brasil, àquela altura, ainda não tinha a vaga. O jogo contra o Uruguai, que poderia ter um caráter de amistoso, virou vida ou morte.

Chegando em casa, a primeira coisa que Parreira fez foi ligar para Zagallo. Precisava falar com ele sobre Romário. A amizade com o Velho Lobo começou em 1970, quando Parreira foi preparador físico da delegação que tinha Zagallo como treinador. Veio o tricampeonato no México e o começo de uma parceria reeditada em diversas ocasiões posteriores.

A Eliminatória para o Mundial de 1994 foi uma delas. O Brasil estava com a corda no pescoço antes do jogo diante dos uruguaios no Maracanã. Um motivo a mais para falar sobre Romário.

"Estava matutando. Romário fazendo um monte de gol, pensei: 'É hora de o Baixinho voltar'. Liguei para o Zagallo e falei: 'Estou trazendo o Romário'. Na hora, ele disse: 'Certo, beleza, ótima ideia'".

A resposta foi curta. Mas o que Parreira ali buscava era o apoio daquele que hoje classifica como "guru". E uma figura admirada por Tite. "Não teve blá-blá-blá. A seleção está acima de qualquer outro problema. Romário veio e você sabe o que aconteceu", contou Parreira.

A dupla repetiria a parceria no ciclo que culminou com a Copa de 2006. O hexa não veio, mas a fluidez da relação foi valorizada.

"A parceria é fundamental. Futebol é um mundo complexo, vasto, para você ser o dono de todas as decisões. A última palavra é do treinador, sim, mas você pode compartilhar uma dúvida. Com alguém de confiança, com conteúdo. A gente não fica dando aula um para o outro. Mas aquela conversa no almoço, na janta, no lanche, no ônibus, no treino. Tudo isso vai se somando. É bom que o Tite pense nisso", comentou o tetracampeão.

O próprio Parreira já atuou na função: em 2014, foi coordenador da seleção na Copa do Mundo do Brasil, trabalhando ao lado do técnico Luiz Felipe Scolari e do auxiliar Flávio Murtosa.

Orlando Kissner/AFP

O efeito das caminhadas

Outra história é de 2000. A seleção brasileira vinha de resultados ruins e o então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, chamou Antonio Lopes para uma conversa. O delegado, dois anos antes, tinha sido campeão da Copa Libertadores com o Vasco e estava trabalhando no Atlético-PR (à época, sem h no nome).

A oferta foi feita em um sítio em Piraí: "Ele disse que eu iria ser o presidente da comissão técnica. Eu ficaria com a situação de formar a comissão técnica, convocar os treinadores". Ali, começava mais um exemplo de técnico que, fora da sua função original, participou de uma campanha vitoriosa na seleção brasileira — um formato que se parece com o que Tite buscou nos últimos meses.

O efeito, no entanto, não foi imediato. Lopes, primeiro, apostou em Emerson Leão. O Brasil perdeu a Copa das Confederações em 2001 e o técnico foi demitido. Chegou, então, a vez de Luiz Felipe Scolari. Em 2002, veio o penta. Antonio Lopes não era o principal conselheiro, já que Felipão tinha Murtosa como escudeiro de longa data. Mas tinha abertura para colaborar.

"A tomada de decisão era dele. A gente, se tivesse que falar, falava. Mas era ele que mandava. Eu me colocava no meu devido lugar. O treinador era ele. Eu era apenas o coordenador", lembra o Delegado. Durante a campanha na Copa do Mundo, o entrosamento da comissão técnica foi aperfeiçoado com um hábito em comum: "Fazíamos as nossas caminhadas antes do treino. A gente fazia junto, até nisso aí a gente estava bem entrosado. A comissão técnica era unida, ninguém queria aparecer mais do que o outro", contou.

Você lida com tantas situações e cada detalhe sempre soma. As experiências anteriores são fundamentais para a próxima oportunidade, como é o caso do Tite. Eu, quando fui em 1994, eu não tinha sido técnico em 1990 da seleção brasileira. Tinha sido de outras seleções. Não do Brasil. É uma coisa única, é diferente de tudo. Pela responsabilidade, pela cobrança de ter que ganhar. É uma pressão permanente. E mesmo quando ganha tem gente que não fica satisfeito. 'Ah, mas não jogou bonito'. É complicado."

Carlos Alberto Parreira, técnico da seleção brasileira nas Copas de 1994 e 2006

Fernando Moreno/AGIF

Assunto não é prioridade na CBF

A busca por este novo membro da comissão técnica não é um assunto tratado como urgente nos bastidores da CBF. Não é algo que se discuta diariamente ou que alguém imagine que atrase os processos internos se não for resolvido rápido. Como é um cargo de confiança, a única certeza é que dependerá 100% das reflexões e decisões de Tite, como foi com Muricy e Junior.

Apesar de não ser prioridade, a tendência, se o plano for adiante, é de que este profissional seja escolhido antes dos amistosos internacionais de junho, ainda sem adversários definidos — um deles deve ser a Argentina, para ao mesmo tempo resolver o jogo suspenso das Eliminatórias.

O que a CBF de fato tratou com senso de urgência nas últimas semanas foi a contratação de observadores técnicos na Europa. Os ex-jogadores Ricardo Gomes e Marcinho, ambos com experiência na área técnica, e os analistas de desempenho Lucas Oliveira (Palmeiras) e Gabriel de Oliveira (Fluminense) se dividiram em duas equipes para acompanhar presencialmente seis jogos válidos pela repescagem das Eliminatórias da Copa do Mundo e Liga das Nações, inclusive um possível Itália x Portugal.

A ideia passa por compensar a falta de jogos contra seleções do continente no ciclo até a Copa e municiar Tite com informações e observações colhidas de perto sobre possíveis adversários.

Agora que essa parte está resolvida, há espaço para as outras buscas. Como a do novo auxiliar, por exemplo. O sonho do hexacampeonato mundial no Qatar passa por tudo isso, fora dos olhares até de torcedores mais atentos.

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