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As 'Olimpíadas Verdes' de Sydney-2000 ainda não foram superadas

Estádio Olímpico de Sydney, em 2000 - Nick Wilson/Getty Images
Estádio Olímpico de Sydney, em 2000 Imagem: Nick Wilson/Getty Images

Denise Mirás

Colaboração para o UOL, de São Paulo

29/07/2021 04h00

Camas de papelão dos atletas na Vila Olímpica provocaram posts bem-humorados na primeira semana dos Jogos Olímpicos de Tóquio-2020. Começaram com a falsa informação de que seriam anti-sexo, uma forma dos organizadores forçarem distanciamento social. Nada disso, disseram os fabricantes. As camas foram desenhadas para aguentar 200 quilos - acima do peso de qualquer hóspede-atleta e, convenhamos, não impediriam ninguém de levar adiante a... obrigatoriedade de distanciamento.

Bom humor à parte, várias outras providências foram tomadas para ajudar o planeta. A pira olímpica tem sua chama alimentada por hidrogênio, que não emite dióxido de carbono quando queimado (e, em termos simplificados, a reação que produz o hidrogênio vem do sol).

Também as medalhas olímpicas foram feitas de metais reciclados de equipamentos eletrônicos. Ouro, prata e bronze saíram de componentes como placas de circuito, com o desmonte de computadores, celulares e câmeras digitais.

Nada de novidade. As medalhas do Rio-2016 já eram feitas do mesmo material reciclado. Os pódios aproveitaram madeira certificada e seriam levados a parques da cidade posteriormente para serem utilizados como bancos... A marca da sustentabilidade também marcou as Olimpíadas cariocas.

Modelo para o mundo

Ok, mas na virada de milênio Sydney-2000 foi imbatível no quesito "Olimpíadas Verdes", como foram chamadas por seu Comitê Organizador. Formulou-se um projeto ambiental para virar paradigma às cidades candidatas seguintes, como o Comitê Olímpico Internacional (COI) determinou.

E os australianos brilharam ao seguir com o determinado: conservar energia e água, evitar lixo, controlar poluição, proteger o meio ambiente natural e cultural.

Primeiro por tratar a poluidíssima Baía de Homebush, onde foi levantado o Parque Olímpicos. Depois, pela raspagem do solo da área onde foi construída a Vila Olímpica, porque ali ficava a Union Carbide, fabricante do "agente laranja" usado na guerra do Vietnã. Os resíduos industriais retirados, com potencial cancerígeno, foram armazenados em barris comprados pelo governo australiano.

Todos os projetos de construção tiveram assessoria do Greenpeace. A Vila dos Atletas foi o maior projeto habitacional do mundo a usar energia solar, com aproveitamento de água de chuva, ventilação natural - e já com os tais móveis de papelão! A indústria nacional também apostou em fibras naturais e tecidos anti-UV para confecção de roupas. Havia distribuição gratuita de protetores solares, quando o mundo ainda pouco se preocupava com os perigos dos raios de sol.

Vergonha e aprendizado

Em Sydney-2000, pela primeira vez em cidades-sede, se viam lixeiras com as diferentes cores oficiais para separação de recicláveis. Jornalistas, sempre apressados e mais ainda pelas poucas horas de sono no trabalho do outro lado do mundo, passávamos vergonha.

Todos éramos constantemente chamados por voluntários, que muito educadamente indicavam os lugares certos para se colocar o lixo separado. Que alguns visitantes, muito deseducadamente, ostentavam se fazer de desentendidos, mostrar cara feia ou sair de gozação, em resposta às sugestões. Havia mesmo quem fizesse questão de jogar baforadas de cigarro no rosto de quem se apresentava para ajudar ou indicar que o local era smoke-free.

Para todos ainda era difícil identificar, por exemplo, onde se jogar talheres e pratos descartáveis dos restaurantes. Eram feitos de bagaço de cana-de-açúcar...

Não havia carros circulando nas proximidades do Parque Olímpico. Atletas podiam ir a pé para as competições, jornalistas e público foram obrigados a saudáveis caminhadas - na correria -depois de chegar de ônibus e trens na estação mais próxima de instalações concorridas como o Parque Aquático e o Estádio Olímpico, por exemplo, que tinha seus 18 quilômetros de tubulação em polietileno, em vez de PVC.

Festa no Parque Olímpico de Sydney, pelos dez anos dos Jogos-2000 - Mark Metcalfe - Mark Metcalfe
"Cangurus" no Parque Olímpico de Sydney, em festa pelos dez anos dos Jogos de Sydney-2000
Imagem: Mark Metcalfe

O Centro de Imprensa dentro do Parque surgiu de estrebarias (!) remodeladas, numa região que já tinha sido de matadouros. Eram celeiros compridos, sem portas nas pontas, para ventilação natural (se bem que tiveram de colocar uns plásticos mais grossos, transparentes, porque o vento era muito forte - e tinha horas que ninguém aguentava de frio....). Estranho, não?

Ah, a Vila de Imprensa, com um edifício principal e chalés com sala, cozinha e quatro suítes, havia sido um leprosário no século anterior. Atravessando a rua ao lado do condomínio... um cemitério.

Está certo que jornalista quase se mata para cobrir Olimpíadas, ainda mais com horário do avesso. Mas não era pra tanto.