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Coreia ganha 9º ouro seguido em meio a tensão diplomática com o Japão

Sul-coreana San An quebrou o recorde olímpico no tiro com arco ao fazer 680 pontos - REUTERS/Clodagh Kilcoyne
Sul-coreana San An quebrou o recorde olímpico no tiro com arco ao fazer 680 pontos Imagem: REUTERS/Clodagh Kilcoyne

Adriano Wilkson

Do UOL, em Tóquio

25/07/2021 10h46

A arqueira sul-coreana San An exibia com orgulho sua medalha de ouro no mesmo uniforme em que pendurava um pingente da banda de k-pop Mamamoo. Aos 20 anos, a atleta, que no primeiro dia das Olimpíadas de Tóquio havia batido um recorde cinco mais velho que ela, chegou a pedir que o DJ tocasse música da banda coreana BTS durante a competição.

Embalada pelo ritmo, ela e suas companheiras conquistaram a medalha de ouro superando as russas e garantiram o nono título olímpico feminino por equipes seguido para a Coreia. Desde 1988, as arqueiras coreanas não dão chance pra ninguém, a maior hegemonia da história olímpica.

A cena poderia não ter acontecido. Na Coreia, houve quem defendesse um boicote aos Jogos no Japão devido às rusgas diplomáticas que envolvem os dois países. Coreanos e japoneses permanecem com questões históricas, políticas e econômicas mal resolvidas, que se agravaram ainda mais após o presidente coreano Moon Jae-in cancelar de última hora sua presença na cerimônia de abertura dos Jogos.

O cancelamento ocorreu depois que um diplomata japonês disse em entrevista a um jornal vizinho que Moon estaria "se masturbando" ao desejar ter um encontro longo com o primeiro-ministro japonês, Suga Yoshihide. O diplomata acabou sendo afastado das negociações bilaterais.

A lista de assuntos sobre os quais os vizinhos brigam é extensa e vai desde disputas territoriais à memória das "damas de conforto", coreanas que os japoneses tornaram escravas sexuais no período em que ocupara a península da Coreia, entre 1910 e 1945.

As Olimpíadas ajudaram a inflamar os ânimos. Em junho, o site dos Jogos exibiu um mapa do Japão com os disputados Rochedos de Liancourt, que oficialmente pertencem à Coreia, o que provocou uma moção de repúdio do parlamento local. As rusgas desembarcaram em território olímpico. Na semana passada, tão logo os atletas se instalaram no país, sacadas da Vila Olímpica foram enfeitadas com frases em coreano vistas como provocativas aos japoneses.

Coreana - NurPhoto via Getty Images - NurPhoto via Getty Images
Estudante coreana queima bandeira associada ao imperialismo japonês depois de polêmica na Tóquio-2020
Imagem: NurPhoto via Getty Images

"Eu ainda tenho o apoio de 50 milhões coreano", foi a frase escrita nas faixas. Trata-se de uma referência ao que teria dito um conhecido almirante coreano antes de afundar navios japoneses em uma guerra entre os dois países no século 16. Em contrapartida, ativistas de movimentos nacionalistas do Japão foram vistos erguendo a antiga bandeira do sol nascente com 16 raios, interpretada na Ásia como uma provocação japonesa aos vizinhos.

Segundo a imprensa coreana, o COI avisou que essa bandeira seria proibida nas sedes olímpicas caso o comitê coreano concordasse em retirar as faixas das sacadas.

Até a alimentação virou cenário das desavenças entre os vizinhos. O comitê olímpico coreano afirmou que submeteria a testes todos os ingredientes das refeições oferecidas a seus atletas, alegando a possibilidade de contaminação radioativa em decorrência do desastre de Fukushima em 2011.

No quadro de medalhas, Coreia e Japão também devem brigar colados uns aos outros, ao menos por um tempo. Os anfitriões estão com cinco ouros. Com os dois títulos no tiro com arco (duplas mistas e equipe feminina), os visitantes vêm atrás. Mas ainda há três medalhas em jogo no esporte da hegemonia sul-coreana.