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Brasileirão - 2019


Rafinha: "Não adianta campanha maravilhosa sem o título"

Rafinha, durante partida entre Flamengo e Grêmio - Thiago Ribeiro/AGIF
Rafinha, durante partida entre Flamengo e Grêmio Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF

01/11/2019 05h00

A experiência nas 14 temporadas na Europa credenciou Rafinha como uma das contratações de maior peso neste ano no futebol brasileiro. A escolha pelo Flamengo não foi apenas pelos grandes títulos, que podem ser concretizados nas próximas semanas, mas pela relação com a torcida. Em entrevista exclusiva à Lancepress, o lateral-direito falou sobre os primeiros meses no Ninho do Urubu e o momento em que o sonho da torcida passou a ser realidade e ele decidiu vestir rubro-negro. Aos 34 anos, o jogador apostou na bagagem para se consolidar em uma das posições mais carentes do elenco e se tornar uma das lideranças do grupo.

"Fazia tempo que eu tinha o desejo de voltar ao Brasil. Como o Bayern (ALE) sempre estava renovando meu contrato e fazendo proposta, fui adiando por alguns anos. Desta vez eu estava decidido. Em dezembro de 2018 o Bayern me ofereceu mais dois anos de contrato e eu disse que não queria renovar mais. Estava decidido a mudar de ares. Tinha várias propostas do futebol europeu e do Brasil, mas o Marcos Braz (vice-presidente de futebol do clube) encontrou comigo no ano novo. Em 1º de janeiro de 2019, foi uma conversa produtiva. Ele abriu mão de passar o ano novo com a família dele e eu com a minha. Ficamos em um hotel em São Paulo, quase sete horas em um quarto, eu, ele e meus representantes. Conseguimos traçar quais eram os objetivos", afirmou ele.

Recepcionado com festa no aeroporto, o camisa 13 tem no currículo sete Bundesligas, quatro Copas da Alemanha, quatro Supercopas, uma Liga dos Campeões e um Mundial de Clubes - os dois últimos conquistados em 2013. Rafinha deixou o Brasil em 2005, quando defendia o Coritiba. Na Seleção Brasileira, ele conquistou o bronze nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008.

"Era uma transferência que precisava de paciência e tranquilidade, porque eu só poderia no meio do ano. Deu certo. Agradeço a ele que foi me buscar na Alemanha e teve toda paciência comigo. Estou feliz, não me arrependo de nada. Joguei no maior da Alemanha e agora no maior do Brasil. Espero que consiga dar sequência e continuar. Mostrando boas apresentações e ganhar títulos, claro. Em todos os lugares que passei eu ganhei, então espero isso esse ano. Dá gosto de jogar no Flamengo. É um clube com uma torcida muito grande, uma torcida com reconhecimento incrível no Brasil. Em todos os lugares tem flamenguista. Espero que possamos continuar nessa batida para termos sucesso a longo prazo", projetou.

Na conversa com Marcos Braz, Rafinha fez muitas projeções, mas prefere não entrar nesse mérito por enquanto. A saída do Bayern de Munique oito anos depois e com uma proposta de renovação na mesa mostrou como o atleta era importante na equipe alemã. Rafinha fez 26 jogos entre agosto de 2018 e maio de 2019. 16 foram como titular, atuando até na lateral esquerda.

"Não tem como falar agora para você porque é uma mudança enorme. Estou saindo do Bayern de Munique, 23 títulos, ganhei uma tríplice coroa. Fiz 266 jogos, 192 como titular. Ganhei tudo que tinha para ganhar lá e do nada chego para o pessoal e digo que não vou renovar. É uma mudança muito grande. Tive que falar para todos os diretores (Karl-Heinz) Rummenigge (presidente do conselho), (Franz) Beckenbauer, Uli Hoeness (presidente do Bayern), Paul Breitner, Gerd Müller e por aí vai. Todos em uma mesa na minha frente. Para eles foi duro também, um golpe duro. O jogador que procura o Bayern e não o Bayern o jogador. Eles queriam que eu completasse dez anos de clube, mas deixei claro que queria ir embora. Deixei claro para o Barz que era uma mudança muito grande, tinha que me preparar com a minha família. Mas deu certo, convenci a todos. Muita gente na minha família não estava segura, porque é uma mudança muito grande. Mas estão todos felizes" completou.

Veja mais da entrevista:

Como fazer para a empolgação da torcida não entrar no vestiário?

Já vivi muitos momentos na carreira, por ser um dos mais experientes do grupo, ao lado dos dois Diegos, Everton (Ribeiro), Bruno (Henrique), jogadores mais velhos. Sabemos que isso não pode existir. A euforia não nos acrescenta nada. Por isso não deixamos entrar no vestiário. Sabemos que todos os jogos são importantes e decisões. O treinador cobra muito isso. Não temos obrigação nenhuma de falar nada. Nenhum jogador. Até agora está dando tudo certo pois estamos só jogando. Não é hora de falar e nem vai ser. Jogador tem que jogar. Deixa para falar e festejar do lado de fora. Isso tem sido a chave do nosso sucesso. Sabemos que para conquistar termos que ser humildes o tempo todo, pés no chão e respeitar os adversários. Aí sim podemos sonhar com algo no final.

Pelos bastidores que o clube divulga, a gente vê uma liderança sua e o contato com os mais jovens. Era algo pensado quando veio?

Isso não se compra. Fiquei oito anos no Bayern (ALE) e sempre fui o terceiro capitão no tempo em que estive lá. Essa liderança é natural. Fui líder no Schalke 04 (ALE), no Genoa (ITA), no Bayern com tantas estrelas. Sempre fui uma referência no vestiário, quem me conhece sabe disso. Da minha importância. É uma qualidade que eu tenho, de ter bom contato com todos os jogadores, de cobrar. É natural, tenho comigo. É muito importante na vida de um atleta esse espírito de liderança, de passar como ser um pai no vestiário. Isso é bom. Tenho muito tempo de futebol, acho que consigo com cada vez mais naturalidade passar para os mais novos.

Como explicar um sucesso tão rápido mesmo com reforços e o Jesus?

São três etapas. A primeira é a formação do time. O Flamengo investiu para nos trazer no segundo semestre, eu, Filipe (Luís), Pablo (Marí) e Gerson. Então investiu em jogadores. O segundo passo foi o treinador e a comissão técnica. O terceiro era que tudo casasse e desse certo. Essa relação, o trabalho do Mister, que é do futebol europeu, para o futebol brasileiro. A realidade é outra. Fiquei tanto tempo fora do Brasil, 15 anos, então estava acostumado com esse tipo de trabalho. Mas os jogadores brasileiros não. Acreditamos nele e a todo tempo passamos que a ideia é boa. Todos captaram a mensagem que ele quis passar, o que ele gostaria que executássemos dentro de campo. Isso foi bom. O time comprou a ideia dele. O que fazemos nos jogos é um reflexo do treinamento. O Mister tem total crédito nisso, estamos fazendo tudo que ele vem pedindo. Tudo que trabalhamos colocamos em prática. É o resultado da junção de tudo que o Flamengo foi buscar. Espero que possamos continuar assim com uma bela campanha com a experiência do Mister e de todos os jogadores. O Flamengo está dando todo respaldo para nós.

Esperava brigar por títulos importantes tão rápido?

Meu objetivo claro que era fazer um grande trabalho, como sempre na minha carreira. O objetivo maior é conquistar títulos, mas temos que ser realistas. As coisas tomaram um outro rumo muito grande devido ao investimento que o Flamengo fez. O trabalho que estamos realizando também, da forma que estamos fazendo iríamos ter sucesso na temporada. Estamos perto de conquistar títulos e ao mesmo tempo distantes. Sabemos que as coisas só se concretizam depois que terminar tudo e estivermos com a taça na mão. Enquanto isso não tem nada. Não adianta fazer uma campanha maravilhosa como a nossa e não coroar com o título. Tem essa possibilidade e vamos trabalhar forte para conquistar.

Como tem sido a relação com a torcida?

Bem legal. Eles me abraçaram né. Estou fazendo meu trabalho em campo, mas fico feliz porque dá para ver que me abraçaram. Eles sabem que sou um jogador que sempre sou regular, mantenho meu nível em todos os jogos, nunca tive problema na carreira. Procuro me entregar 100%. O torcedor reconhece isso. O que eu puder fazer para ajudar o Flamengo em todos os jogos vou fazer. É o clube que estou defendendo e trabalhando. É muito legal. O torcedor reconhece e eu fico feliz também.

Como vê a final única na Libertadores? Preferia jogar no Maracanã?

É legal ter dois jogos, um na casa de cada clube. Mas na Europa estamos acostumados. É sempre final única, disputei 11 vezes a Liga dos Campeões, cheguei a duas finais e sei como é gostoso jogar em jogo único. A Copa da Alemanha também é uma partida só, a Supercopa, todas em um jogo só. Ficamos felizes por já ter essa experiência em jogo único. É legal. Primeira vez que estou na final da Libertadores, fico feliz de participar e com certeza será um grande jogo.

Tem alguma referência do time de 81?

Não tive o prazer de vê-los jogar. Mas escutamos pelos comentários, já vi vídeos, inclusive do Leandro, que foi uma referência do Flamengo e da Seleção. Foi um lateral de muita qualidade, que fazia o papel dele com muita tranquilidade. Gostava muito de ver o estilo de jogo dele. Mas era uma máquina o Flamengo de 81. Zico, Adílio, Tita, Marinho, Mozer, Júnior, Andrade. Era um time não só com 11 jogadores, tinha 15 ou 16 que eram fantásticos. Qualidade enorme e por isso conquistaram. Esse ano temos essa possibilidade também.

O que você tem achado do futebol brasileiro?

Sabemos que tem uma distância para o futebol europeu. Tem que ser realista. Não é porque estou aqui que vou puxar o saco. O Brasileiro é um campeonato difícil. Em um país grande como o nosso, só pecamos um pouco pelo calendário. Não favorece aos atletas. Uma partida de futebol não é tão boa e com o nível alto devido ao desgaste. Os jogadores brasileiros jogam muitas partidas. Isso não é bom para ninguém. Nem para Flamengo, Corinthians, Grêmio, Botafogo. Todos os times. Se jogar quarta, sábado, quarta, sábado, no terceiro jogo ele já vai estar cansado. O espetáculo não fica bonito. Acho que a organização do campeonato deveria rever essas coisas e encontrar uma forma de diminuir os jogos. Um campeonato com menos jogos para que todos tenham tempo de descansar, para que todas as rodadas sejam um espetáculo. O time chegar inteiro. Tem como melhorar. Eu estou chegando agora, torcemos para que tudo seja organizado e bom, para que os clubes facilitem para os torcedores para que sempre tenha estádio cheio. Às vezes você vai jogar um jogo bom, mas não tem público. Na Alemanha joga o primeiro contra o último e tem 70 mil no estádio. Torcemos para que tenha a revisão no calendário e a organização para a torcida. Todos saem ganhando.

Curtindo o Rio?

Um pouco (risos). Não dá para sair muito aqui não. A torcida do Flamengo é muito grande. Todo lugar o pessoal fica doido, quer bater foto, dar um abraço. Então às vezes não dá para sair muito não. Prefiro ficar em casa. Até porque os treinamentos são muito longos e muitos jogos. Não dá tempo de sair muito.