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Ex-Cruzeiro trabalhou em feiras no Nordeste e reencontrou futebol no CRB

João Paulo em atuação pelo CRB - Francisco Cedrim/CRB
João Paulo em atuação pelo CRB Imagem: Francisco Cedrim/CRB

Bruno Fernandes e Josué Seixas

Colaboração para o UOL, em Maceió

15/03/2023 04h00

João Paulo soube se reconstruir. Desistiu do futebol para trabalhar e ajudar a família, depois recuperou o sonho e deu prosseguimento a ele, apesar dos conselhos lhe dizerem o contrário.

Não é como se a vida de um nordestino fosse fácil. Ele trabalhava em feiras ajudando a mãe ou fazendo frete, entre meninos e homens que pegavam carrinhos de mão e levavam as compras das pessoas às suas casas.

O tempo era pouco, ou seja, lhe fazia perder jogos no futebol de várzea para trabalhar. Às vezes, por perder um jogo importante, esperava o fim do expediente para ir à pelada, só para estar ali, onde se esquecia de tudo.

Hoje, aos 32 anos, João é um nome importante no CRB, time com maior invencibilidade no futebol brasileiro. Fez gol na semifinal do Campeonato Alagoano contra o Coruripe e é titular na formação de Umberto Louzer.

Nascido em Guarabira, no interior de Paraíba, ele voltou ao Nordeste somente depois de cravar seu nome nacionalmente, em times como Atlético Goianiense, Ponte Preta e Cruzeiro.

João Paulo jogador do Cruzeiro comemora seu gol durante partida contra o Pouso Alegre - Fernando Moreno/AGIF - Fernando Moreno/AGIF
João Paulo jogador do Cruzeiro comemora seu gol durante partida contra o Pouso Alegre
Imagem: Fernando Moreno/AGIF

Este último é responsável pelo empréstimo ao CRB. João viu como a oportunidade de se reencontrar após uma ruptura muscular grau 4 na posterior da coxa, ainda no ano passado. Passou por cirurgia, fez trabalhos específicos e não sente dores.

"Eu sempre fui apaixonado por estar em campo. Foi minha primeira lesão séria em toda a carreira, então foi também um baque muito grande. Quando o médico me disse que precisaria fazer a cirurgia, vim para casa e fui para o quarto em silêncio. Minha esposa percebeu, perguntou o que houve, e eu não tinha palavras para explicar", contou ele à equipe do UOL em seu apartamento, em Maceió.

"Chorei bastante naquele dia. Fiz a cirurgia poucos dias depois e comecei o processo de recuperação. O dr. Sérgio Campolina me deu todo o suporte, os conselhos, foi um grande amigo. Falo com ele até hoje. Tive suporte do Waguininho, que hoje está no Avaí, do Márcio Azevedo (hoje no ABC), da minha esposa e dos meus filhos. E hoje estou aqui, 100% pronto para conquistar títulos pelo CRB", complementou.

João e Erivânia, sua esposa, estão juntos há 14 anos. Da relação, nasceram Paulo Henrique (9), Ysis Valentina (7) e Esther (2), que também ficaram de olho na entrevista. Estavam brincando aqui e ali, mas sempre de olho no pai. Paulo Henrique até mesmo colocou uma chuteira, camisa do Brasil, como se estivesse prevendo o seu próprio futuro, aquele do seu sonho.

Foi Erivânia, por exemplo, quem ouviu de João que ele queria tentar mais uma vez a carreira de jogador. Já estava consolidado em uma empresa de distribuição, com um cargo 'quase como de gerente', quando a possibilidade de um acidente lhe tirou dos eixos e resolveu mudar de emprego.

A notícia viria como um baque para a família, que já contava com seu esforço para se manter. João lembra que vivia com a esposa em um quarto dentro da casa de sua mãe e precisava ajudar na subsistência do núcleo familiar.

Tinha sido chamado para um teste no Desportiva Guarabira e foi. Quis desistir no começo, porque o ritmo de treinos e a vida um pouco mais longe da família era difícil. Motivou-se ao ouvir que talvez, e só talvez, aquela vida não fosse para ele.

"Houve um companheiro de time que me disse que eu deveria voltar a trabalhar, porque o futebol é incerto. Falei com minha irmã mais velha e o esposo dela já tinha me conseguido uma entrevista numa empresa quando resolvi continuar. Aquilo ali foi meu combustível para crescer. Fiz todo o período de testes, as dores passaram, e as coisas foram acontecendo", disse.

Apesar disso, após o período, passaram-se 20 dias para que João tivesse alguma notícia daquele período de testes. Sua irmã ligou para casa e disse para ouvirem a rádio, porque estavam 'falando de Joãozinho ali'. Tinha ganho a vaga no time que disputaria o estadual.

"Fizemos a pré-temporada inteira e eu, distraído, só ouvi quando o técnico estava passando uma lista. Do nada, meu nome. Comecei a pensar que eu tinha sido cortado e seria mandado embora. Perguntei o que houve e ele me disse que eu seria titular. Logo eu, o único que ainda não havia se profissionalizado. Minha família toda foi para o estádio, torceu por mim. Minhas mãos tremiam, barriga gelada, aquela coisa toda. Chorei no intervalo porque achei que tinha ido mal, mas o técnico me deu força e, no segundo tempo, fiz o gol que nos garantiu o empate na partida", lembrou.

João Paulo durante entrevista em seu apartamento, em Maceió - Bruno Fernandes - Bruno Fernandes
João Paulo durante entrevista em seu apartamento, em Maceió
Imagem: Bruno Fernandes

Se ainda não tinha noção do que significava mexer com paixões, João aprendeu na volta para casa. Voltou caminhando com a família direto do estádio. As pessoas lhe cumprimentavam, agradeciam pelo jogo, desejavam sucesso. A temporada foi boa, com gols, embora João ainda tivesse que complementar a renda participando de uma partida ou outra na várzea.

Dali, ele migraria para outros clubes na região, como o Botafogo-PB. Teve até uma passagem por Alagoas, pelo Penedense, depois foi para o Ypiranga, na Bahia, e Estanciano, até voltar para Alagoas, no Zumbi. Passou por Globo-RN, Sergipe, Coruripe, ASA, Tombense e foi crescendo.

Da Tombense, vieram empréstimos para Santa Cruz, Paraná, Atlético Goianiense (duas vezes), Avaí, Ponte Preta, Fortaleza até a venda para o Cruzeiro, em 2022, antes do time se tornar SAF. Manteve-se no time apesar disso.

"Lembro do dia em que conheci o Ronaldo. Estava chovendo bastante e ele parou para falar com todos os jogadores no treinamento. É o tipo de atitude que explica porque ele chegou onde chegou. Ele não precisava fazer isso, mas fez. Parou, abraçou. Foi um bom momento que vivi. Tenho muita consideração pelo Atlético-GO, que passei duas vezes e me senti em casa, como uma família, por exemplo."

Entre todas as coisas, João se alegra de sua estreia pelo CRB, contra o Náutico. Sofreu um pênalti, mas nem foi o desempenho que lhe trouxe tanta felicidade. "Foi bom porque não senti nenhuma dor, corri muito, me esforcei bastante e parecia que nunca tinha me machucado."

Entre todos os seus objetivos, no entanto, foi conquistar o primeiro de todos eles, aquele que ainda tinha quando criança, que lhe trouxe a melhor das lembranças.

"Tinha pedido a Deus que me desse a oportunidade de comprar uma casa para minha mãe. Para quem é pobre, somente o futebol pode mudar a realidade de um dia para o outro. Isso, lhe digo com toda a certeza, foi o que aconteceu comigo."

Com João Paulo, o CRB enfrenta o Operário pela Copa do Brasil nesta quarta-feira (15), às 19h30.