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Renato Rodrigues assume perfil 'maloqueiro' na TV: 'Foi libertador'

Renato Rodrigues comentarista da ESPN se livrou das amarras e assumiu perfil "maloqueiro" na televisão - Divulgação
Renato Rodrigues comentarista da ESPN se livrou das amarras e assumiu perfil 'maloqueiro' na televisão Imagem: Divulgação

Bernardo Gentile

Do UOL, no Rio de Janeiro

24/10/2021 04h00

Renato Rodrigues foi criado no bairro de Jaraguá, em Pirituba, em São Paulo. De origem mais humilde, foi criado pelos pais com liberdade para decidir o caminho a seguir. Ansioso para comprar o que queria e ter mais liberdade, optou pelo caminho curto com trabalhos mais braçais - já trabalhou como pedreiro e ficou dois anos em uma metalúrgica. Até que cansou da rotina exaustiva e, finalmente, decidiu pelos estudos, pela faculdade e pelo jornalismo.

A escolha deu certo. Hoje na ESPN, Renato admite que não se sente entre os seus. A realidade da redação é diferente da quebrada onde foi criado. Por muito tempo, inclusive, tentou mudar sua essência, se adequar ao modelo quadrado estabelecido pela televisão. Até que um dia, ele chutou o balde. Quem sintoniza no canal hoje pode se deparar com um comentarista que não tem qualquer receio em utilizar gírias e é livre de qualquer amarra.

Renato Rodrigues, comentarista da ESPN, na praia - Reprodução - Reprodução
Com tatuagens, barba grande e gírias: Renato Rodrigues foge do formato quadrado da TV
Imagem: Reprodução

"Quando eu entrei nesse mundo, eu senti um tipo de preconceito por ser quem eu era. Se me vissem dez anos atrás, eu era praticamente um rapper, que era minha vivência, era o meu dialeto e como falava a minha vida inteira. E eu senti uma pressão e, em vários momentos, tentei me enquadrar. Só que a gente vai ficando mais maduro e percebi que aquilo não era eu. Fiz terapia e concluí que eu tinha que ser eu mesmo na televisão. E, para mim, foi o momento que a minha carreira realmente fluiu. A partir do momento que eu parei de ligar, que a minha barba tem que ser assim ou assado, o meu corte de cabelo pode ter um risquinho aqui e isso não é um problema. Ninguém é melhor que eu por causa disso ou minhas tatuagens", desabafou Renato Rodrigues, ao UOL Esporte.

"Foi realmente libertador, cara, foi libertador. Eu sei que vai ter o grã-fino ali de Higienópolis que vai falar 'mano, o que esse maloqueiro está fazendo na TV?' E beleza. Mas eu sei que os meus vão estar assistindo e vão falar 'porra, é o Renato, é o mesmo cara'. E para mim, é isso que me deixa feliz", disse.

Mas não se engane. A ESPN é justamente o lugar onde ele gostaria de estar. Hoje valorizado pela empresa, diz viver seu melhor momento. Mas nem sempre foi assim. Ele chegou à emissora após deixar a equipe de estatísticas do Corinthians para criar o Data ESPN. Aos poucos foi ganhando espaço e migrando para a carreira de comentarista. Mas demorou até se sentir realmente parte do projeto.

Renato Rodrigues comentarista do grupo Disney (ESPN E Fox) - Divulgação - Divulgação
Mas ele também segue as normas da empresa e usa um terno quando é necessário
Imagem: Divulgação

"Já tive em vários momentos insatisfeito na ESPN, já tive perto de sair e aí é o exercício de você olhar para trás e refletir. Não só para metalúrgica, mas meus parceiros que cresceram comigo. Uns morreram, outros estão presos, alguns mantêm uma vida digna mais ali no limite, trabalha para viver. Eu tenho perfil muito diferente do jornalismo em si assim. Se eu falar para você que eu me sinto bem, que eu estou entre os meus, quando eu estou na redação, eu não estou, não estou", afirmou.

"São mundos muito diferentes, mas eu olho muito para trás, lembro do período na metalúrgica, um momento muito difícil porque era um trabalho muito braçal. E com muitas histórias dentro da metalúrgica de caras que estavam ali 30 anos, sabe, 30 anos e não ter conseguido comprar uma casa própria. E aí, o meu pai me dando essa oportunidade de estudar e eu todo bravo 'não, quero meu dinheiro, quero fazer minhas coisas, pô, sou machão, sou pá'. E aí foram dois anos para meter a cabeça no vidro e voltar. Eu dei vários passinhos para trás para avançar depois", completou.

Renato entende que hoje a pluralidade é real. Há alguns anos, a resistência ao seu trabalho era bem maior. Há o entendimento que sempre pode melhorar mais, mas cada vez mais a representatividade se torna mais presente.

"Já ouvi piadinha do meu boné, da minha barba, do meu cabelo, das roupas que eu visto. Hoje acho que esse tipo de coisa é mais discutida, graças a Deus. Talvez eu tenha dado a sorte de pegar esse momento, mas muita gente boa se perdeu no caminho. Tem que ter espaço para todo mundo. Tem que ter espaço para maloqueiro, preto, mulher, gay, trans, tem que ter espaço pra todo mundo desde que tenha qualidade. Eu também não acho que a gente tem que pegar a mulher e colocar na TV porque ela é bonita, você tem que colocar porque ela tem conteúdo, porque ela vai comentar bem", disse.

Renato Rodrigues, comentarista da ESPN, gosta de falar sobre tática - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

"Tatiquês"

Além do jeito "maloqueiro", Renato tem também uma característica bastante forte que é falar sobre o lado tático do futebol. Podemos dizer que é um pacote completo para alguns medalhões influentes nos bastidores e poucos satisfeitos com a evolução dos comentaristas. Há uma clara divisão entre os jornalistas que estudam a parte teórica do esporte contra os que acham que tudo não passa de uma grande baboseira.

"As pessoas vão buscar alguma coisa para te atacar e aí o primeiro ponto foi esse porque eles não podem falar 'pô, é preto, favelado, pobre, maloqueiro'. Eles não podem falar isso. Então você vê uma figura: ' o cara parece que manja, pô, ainda com esse tipinho aí'. É assim que acontece, o mundo é assim, e olha que eu não sou pretinho, imagina se você pega um cara mais pretinho, mais escuro ainda. É muito complicado", afirmou.

"A pessoa pode não se importar, mas deixa o amiguinho que se importa fazer o trampo dele, mano, entendeu? Para mim, o que rola muito no jornalismo é isso, é pessoas apontando o dedo para o trabalho das outras. É trampo, é comida na mesa. Não tem que desmerecer ninguém, e eu sentia isso. Estourava quando alguém fazia uma piadinha, alguém tirava onda. Agora você não precisa fuder o outro, como alguns caras grandes faziam com o meu trampo, tiravam sarro, sabe. Um milhão de seguidor contra 10 mil, trazendo um monte de gente para me marretar junto, isso, para mim, cara, se não fosse no ambiente de trabalho é pancadão, mano. É sair na mão mesmo. Não tem essa. Sabe, é um negócio muito complicado, então esses tipos de coisas sempre foram me minando. Eu vivia altos e baixos na TV", desabafou.

Isso teve um grande impacto em Renato, que recebeu convite da ESPN quando estava no Corinthians - fazia parte do Cifut (Centro de Inteligência do Futebol). O jovem jornalista chegou à nova empresa com o objetivo de mudar tudo. Finalmente, teria a chance de introduzir a parte tática nos debates esportivos. Mas não foi bem assim.

"Cheguei molecão do Corinthians e pensei que mudaria tudo na TV, que aumentaria o conhecimento do futebol do torcedor brasileiro. 'Filhão, calma'. Era uma pretensão muito grande. Primeiro eu tive que melhorar o meu entorno ali. Depois tive que colocar a minha cara, aprender a falar melhor. Então tive muita resistência. Enquanto muita gente tirava sarro de mim, falaram que era setinha, não sei o quê, essas firulinhas, o Paulo Calçade foi um pai para mim ali dentro", disse.

"Hoje já me sinto mais aceito. Agora é um processo das pessoas passarem a respeitar o que eu falo. Dependendo de com quem você está no programa, eu me sinto mais intimidado, entendeu? Hoje trabalho com uma equipe com que me sinto muito bem, que me respeita e que me deixa muito feliz. Mas se for ver um padrão geral, o cara que tá há mais tempo [medalhão], é o cara que acha que o tipo de conhecimento [tática], a linha que eu sigo, é invenção, é baboseira", finalizou.

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