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Paulista - 2021

Presidente do time que pode eliminar Palmeiras trocou carro por faculdade

Genilson Rocha, presidente do Novorizontino - Ricardo Matsukawa/UOL Esporte
Genilson Rocha, presidente do Novorizontino Imagem: Ricardo Matsukawa/UOL Esporte

Vanderlei Lima

Do UOL, em São Paulo

06/05/2021 04h00

Classificação e Jogos

A expectativa de conquistar a classificação às quartas de final do Paulistão e, de quebra, eliminar o Palmeiras da competição (veja a classificação aqui) é mais um bom exemplo do trabalho de Genilson da Rocha Santos, 49 anos, como presidente do Novorizontino. No comando do clube há 10 anos, o dirigente tem uma história incomum: jogador do clube, ele abriu mão de um carro em troca de bancarem seus estudos.

A conversa inusitada foi com Jorge de Biasi, então presidente na época. Ao invés de sonhar um carro zero quilômetro como a maioria dos atletas, o seu objetivo era cursar uma faculdade. "Eu também queria um carro, mas o próprio presidente falou: 'pensa direito [no que você quer]'. E nessa que ele mandou eu pensar direito foi meio que caiu a ficha: 'nunca nenhum irmão meu cursou uma faculdade, o meu pai e a minha mãe vão ficar contentes'. Foi assim que eu decidi pedir para fazer uma faculdade e ele me parabenizou", conta Genilson, em entrevista ao UOL Esporte.

Ao optar por cursar Educação Física, ele dividiu as salas de aula com os gramados durante quatro anos. "Eu fiz a faculdade jogando futebol e indo para Catanduva todos os dias no período da noite. Naquela época, eu não era obrigado a estudar e mesmo assim eu ia todos os dias e voltava", diz, relembrando que o seu rendimento em campo era cobrado pelo clube. "Eu tinha que ser igual a todo mundo, porque se fosse abaixo eles me trocariam. Eu tinha que ir para a faculdade e fazer minha parte dentro de campo."

O dirigente encerrou a carreira nos campos (foram oito anos como jogador do Novorizontino), virou professor e chegou a ser diretor de escola. Quando surgiu a oportunidade de retornar ao Novorizontino, Genilson pensou na possibilidade de unir o esporte com a educação e "fazer de tudo para esse clube dar certo". Em 2012, o clube voltou à série B do Paulista e deu início a uma arrancada com boas campanhas no Paulistão e o acesso à Série C do Campeonato Brasileiro. Confira a entrevista exclusiva:

Qual a maior diferença da sua época de Novorizontino para os anos atuais?

Foi a profissionalização, principalmente por departamentos, já que hoje a estrutura de um clube de futebol é primordial para a manutenção dos objetivos. Numa época passada, você tinha um bom elenco e dava um básico de estrutura, mas o que fazia a diferença era o plantel de jogadores. Hoje, o nível de atletas está muito parecido, então requer um planejamento muito mais completo em termos estruturais para poder dar suporte para que esse grupo possa ter ali todos os jogadores numa mesma condição.

Novorizontino x São Paulo - Rubens Chiri / saopaulofc.net - Rubens Chiri / saopaulofc.net
O Novorizontino foi o único time do Paulista a derrotar o São Paulo de Crespo até aqui
Imagem: Rubens Chiri / saopaulofc.net

Na sua época de jogador do Novorizontino, alguns jogadores estavam preocupados com carros, gastar dinheiro, noitadas... E você pediu ao presidente Biasi para fazer faculdade?

O Biasi era o presidente, dono do clube, até o estádio tem o nome dele [Dr. Jorge Ismael de Biasi]. Então, foi muito isso mesmo, e até quando eu dou algumas palestras eu conto essa história. O meu querer não era diferente dos outros atletas, eu também queria um carro, mas o próprio presidente falou, pensa direito [no que você quer] e nessa que ele mandou eu pensar direito foi meio que caiu a ficha: 'nunca nenhum irmão meu cursou uma faculdade, o meu pai e a minha mãe vão ficar contentes'. Foi assim que eu decidi pedir para fazer uma faculdade e ele me parabenizou. Ele falou que nunca ninguém pediu isso, então ele pensou em me preparar para fazer um bom trabalho no clube.

Qual foi o curso que você escolheu?

Eu fiz faculdade de Educação Física. Foram quatro anos jogando futebol e indo pra Catanduva todos os dias no período da noite. Naquela época, eu não era obrigado a estudar e mesmo assim eu ia todos os dias e voltava. Apesar dos estudos, o meu rendimento era cobrado dentro de campo, porque se fosse abaixo, eles me trocariam. Então, eu tinha que ir para a faculdade e fazer a minha parte dentro de campo.

Exerceu a profissão de educador físico?

Depois que eu terminei a minha carreira, em 2004, trabalhei como professor de educação física. Eu não tinha o sonho de trabalhar com futebol, eu joguei, mas eu amo trabalhar com educação, então fui para a área educacional. Cheguei a dar aula por um ano, depois fiquei oito anos como diretor de escola. Quando surgiu a oportunidade do clube retornar [o antigo Novorizontino acabou e um novo foi criado em seu lugar], eu, sabendo da potência do futebol e de como a gente pode unir o esporte e a educação, abracei a causa e falei: 'o que eu puder fazer pra esse clube der certo, podem contar comigo'.

Genilson, presidente do Novorizontino - Divulgação/Novorizontino - Divulgação/Novorizontino
Genilson da Rocha Santos, ex-jogador e presidente do Novorizontino
Imagem: Divulgação/Novorizontino

O que você traz do seu aprendizado no futebol e coloca em prática para os jogadores e seus comandados?

Uma série de coisas. Hoje é muito mais prazeroso o trabalho que a gente faz, é um trabalho mais completo. A nossa experiência pode ajudar desde o garoto que chega com 15 anos, até aqueles que vão se projetando no futebol profissional. O primordial é o profissionalismo e você ser disciplinado, você ter objetivos e não medir esforços para conquistá-los. É fazer o melhor que você puder, porque tem sempre alguém olhando. Eu falo isso para todos, independente do treino, faça o seu melhor. Dentro dessa fórmula, nós estamos formando equipes competitivas e atletas que entendem a filosofia do clube e abraçam a causa. Todo mundo se sente muito bem acolhido aqui.

É difícil lidar com o comportamento dos jogadores?

Fácil não é, porque hoje o futebol exige um nível de condicionamento e preparo físico muito alto do atleta. Quem não se cuidar, não se poupar, perder noites de sono, vai cair de rendimento em campo. É claro que não tem como você trancar o atleta, mas você pode educar e orientar para o que eles querem conquistar na carreira. Novo Horizonte é uma cidade pequena e eles sabem que eu não preciso ir atrás para saber se estão saindo, o pessoal liga na minha casa falando onde eles estão. Isso é uma coisa isolada, mas acontece. Eles sabem que tem hora para tudo e estão vivendo um momento que depois não volta mais.

O interior paulista ainda é forte? Consegue revelar bons jogadores?

O interior ainda é forte e tem bons trabalhos, mas eu vejo que perdeu muito na revelação de talentos. Antes, o clube do interior lançava o profissional e hoje não consegue segurá-lo, até mesmo pela necessidade de fazer negócios com clubes maiores.

Eu gostaria de falar sobre a importância de você buscar o conhecimento. Eu fui buscar, eu fui fazer cursos de gestão de administração esportiva, capacitação... E sabe o motivo? Todo o conhecimento adquirido é revertido para o clube, então é primordial que essas sequências não cessem, que todos os profissionais que fazem parte do clube possam estar sempre se aprimorando. Eu costumo dizer para eles [funcionários do Novorizontino] assim: 'se eu tiver que perder vocês, tem que ser para um clube melhor'. Isso quer dizer que o trabalho que eu estou fazendo aqui é bom e conhecimento nunca é demais."