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Intimidação e rebeldia com Joel: como Lima virou "homem que parou Romário"

Lima e seu marcante jogo em que marcou e anulou Romário no Fla-Flu de 1995 - Arquivo Pessoal
Lima e seu marcante jogo em que marcou e anulou Romário no Fla-Flu de 1995 Imagem: Arquivo Pessoal

Bruno Braz, Caio Blois e Vanderlei Lima

Do UOL, no Rio de Janeiro e em São Paulo

28/09/2020 04h00

De uma hora para outra, Lima viu sua vida mudar ao sair do Sport e ser contratado pelo Fluminense. Desconhecido no futebol carioca, de cara teve a missão de marcar ninguém menos que Romário, que um ano antes havia sido o melhor do mundo e campeão mundial com a seleção brasileira. Com o peso dos nove anos sem título estadual pelo Tricolor, o zagueiro - sob a batuta de Renato Gaúcho e seu lendário gol de barriga - ajudou o clube das Laranjeiras a pôr fim ao jejum e, de quebra, ganhou a alcunha histórica de ter sido "o homem que parou o Baixinho".

No total, foram quatro confrontos consecutivos no Maracanã, sendo que nos três primeiros Romário passou em branco e, no quarto e decisivo, fez um, mas que foi insuficiente para levar o caneco para a Gávea.

Passados 25 anos, Lima falou com exclusividade ao UOL Esporte e relembrou as estratégias que adotou e tudo o que viveu para marcar um dos maiores jogadores de todos os tempos do futebol mundial, a começar pela "rebeldia" com o técnico Joel Santana, que na época comandava o Fluminense.

"Tem uma história interessante que o Joel Santana, quando teve esse primeiro jogo contra o Flamengo, chegou para mim, pegou uma fita cassete e falou: 'vamos lá olhar o Romário fazendo gol para você ver o posicionamento dele'. E aí eu falei: 'olhe, Joel, você não fique chateado, mas eu não vou olhar não. Eu sei que você é o treinador, mas imagina eu ir dormir agora vendo só o Romário fazendo gol?' (risos). Ele (Joel) tinha confiança em mim, me chamava de cangaceiro. E aí eu falei: 'pode confiar que eu não vou te decepcionar'. Acabou que não vi as fitas cassetes e no primeiro jogo deu tudo certo, aí o pessoal falou: 'Foi sorte!', aí depois deu tudo certo de novo e hoje sou conhecido como o zagueiro que marcou o Romário (risos)".

"Dava soco nele"

Lima demonstrou toda sua admiração por Romário, mas admite que, dentro de campo, não foi nada gentil com o "Gênio da Área", chegando, inclusive, a agredi-lo. Após o duelo, porém, o ex-zagueiro fez questão de trocar camisa com o craque e pedir desculpas:

"Dentro de campo ele nunca me falou nada, nunca me tratou mal, e era o meu primeiro jogo num time do porte do Fluminense. Eu é quem o xingava muito, mas ele manteve uma postura muito profissional realmente de jogador de seleção brasileira. Eu, molecão, cheio de disposição, xingava, dava soco nele... Na época não tinha o VAR, então eu dava soco nele e falava: 'eu vou te quebrar, vou te encher de porrada, vou quebrar as suas pernas...' Eu dizia um monte de asneiras e ele manteve a postura. Quando terminava o jogo, eu falava: 'desculpa aí, Romário, sou seu fã, sei que te xinguei dessas coisas ruins, mas vamos trocar a camisa...' E até hoje eu tenho a camisa do Romário. Ele é uma pessoa maravilhosa, um grande profissional".

"Renato conseguiu patrocínio de churrascaria para mim"

A grande estrela daquele time campeão carioca de 1995 era Renato Gaúcho, autor do gol do título. Segundo Lima, ele exercia sua liderança no grupo e chegou a arrumar um patrocínio de uma churrascaria para o ex-zagueiro.

"Ele era o capitão da equipe, liderava, era o que falava, muitas das vezes, até mesmo com a diretoria quando tinha algum problema de salários atrasados. O Renato chegou até a pagar salários. Eu tinha contrato na Porcão (churrascaria), ele que conseguiu para mim. Eu usava o boné e ganhava um dinheirinho, uns tickets para poder almoçar ou jantar. Era um cara carismático, amigo de todos", destacou.

Joel Santana era o "Papai Urso"

Figura folclórica do futebol brasileiro, o técnico Joel Santana foi abraçado pelo grupo do Fluminense e era muito querido pelos jogadores. Lima revelou até mesmo o apelido que o treinador tinha no elenco: Papai Urso:

"O Joel era paizão, todo mundo amava o Joel e a relação era a melhor possível. Era um paizão e não se separava dos atletas. Se a gente saía para almoçar, o Joel sentava na mesa junto com a gente, se tinha churrasquinho, o Joel estava sempre presente em tudo. A gente chamava ele de Papai Urso, porque ele era fora de série".

Problemas com álcool, acidente e tentativas de suicídio

Lima teve problemas com álcool, sofreu acidentes de carro e tentou se suicidar mais de uma vez - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Lima teve problemas com álcool, sofreu acidentes de carro e tentou se suicidar mais de uma vez
Imagem: Arquivo pessoal

Lima hoje é evangélico e não bebe, mas nem sempre foi assim. O ex-zagueiro enfrentou problemas com álcool e colocou a vida em risco em algumas oportunidades, quando sofreu acidentes automobilísticos. Foram dois em Recife (PE), dois no Rio de Janeiro (RJ) e um em Belo Horizonte (BH). Com a vida virada do avesso, revelou ter tentado se suicidar mais de uma vez.

"Eu tive um problema de púbis também e os médicos não descobriam o que eu tinha. Eu chorava muito, tentei me suicidar por seis vezes. Por seis vezes eu tentei bater com o meu carro e ouvia uma voz: 'pega o seu carro e bate'. Tentei me jogar do 13º andar, mas graças a Deus nada disso aconteceu", revelou.

Afastado do futebol

Lima é evangélico e, atualmente, trabalha em uma igreja auxiliando um pastor - Charles da Luz - Charles da Luz
Lima é evangélico e, atualmente, trabalha em uma igreja auxiliando um pastor
Imagem: Charles da Luz

Após se aposentar, Lima tentou seguir carreira como treinador, porém, depois de passar por alguns clubes, acabou se decepcionando com os bastidores do futebol, denunciando supostos esquemas que aconteciam em equipes menores de Pernambuco. Agora ele trabalha em uma igreja.

"[voltar para o futebol] só se for algo mesmo da parte de Deus. Se existir uma oportunidade hoje para eu trabalhar, primeiro eu vou orar a Deus pra ter a confirmação dele, e segundo que tenha um contrato, que deixem fazer o meu trabalho e que pague em dia, porque é muita cobrança, é muito sofrimento", disse.

Carinho pelo Fluminense

Fluminense fez evento em homenagem aos campeões de 95 e Lima esteve presente - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Fluminense fez evento em homenagem aos campeões de 95 e Lima esteve presente
Imagem: Arquivo Pessoal

Mesmo não acompanhando tanto futebol atualmente, Lima torce pelo Fluminense. O ex-jogador revelou que há um grupo no Whatsapp com os atletas daquele elenco de 95:

"Eu acompanho pouco, mas com certeza eu torço para o Fluminense. Estou em uns cinco grupos de torcedores do Fluminense e sempre a gente está interagindo. Torço, sim, quando o Fluminense está jogando, mas agora eu não sou assim tão envolvido. Tem o grupo de jogadores de 95, que é como uma família. Até hoje a gente conversa, dá para saber como o outro está e, quando se encontra, tem aquela alegria".

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