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Grêmio mantém hábito graças a Gre-Nal e título ligado à Guerra dos Farrapos

Jeremias Wernek

Do UOL, em Porto Alegre

20/09/2019 04h00

Há 84 anos o Grêmio mantém um hábito ligado à Revolução Farroupilha. Campeão Citadino de 1935, o clube celebra a cada temporada a taça que ganhou mais peso por ser disputada no centenário do movimento separatista que alicerça boa parte da cultura gaúcha. Comemorar a vitória no Gre-Nal decisivo e o título faz parte da programação oficial do clube e atende a um pedido do elenco campeão à época.

O Citadino de 1935 foi batizado de Campeonato Farroupilha por marcar o centenário do levante de latifundiários do Rio Grande do Sul contra o Império. Além da galhardia atribuída aos separatistas, o Grêmio vibra muito pelo fato de ter vencido o rival na decisão.

Depois de vencer o Internacional por 2 a 0, o capitão do Grêmio se empolgou tanto que profetizou sobre a grandeza da conquista.

"Vamos comemorar esse título por 100 anos", berrou Sardinha, em meio aos festejos do elenco.

E assim vem sendo. O Grêmio entrou em campo naquele 28 de setembro em desvantagem. O Inter tinha melhor campanha após dois turnos e podia até empatar para ficar com o título. O placar estava fechado até os 40 minutos do segundo tempo, mas foi inaugurado por Foguinho.

"O Inter era o favorito, tinha uma equipe extraordinária, e nós tínhamos uma equipe muito jovem. A antiga Baixada encheu, lotou desde as primeiras horas do dia. A maior parte do público ficou de fora, até pela visitação à capital pelo mês Farroupilha tinha muita gente nas ruas. A luta foi empolgante e a sorte me brindou para fazer o gol de pé esquerdo", contou Foguinho, em entrevista à Rádio Guaíba, em 1964 e reproduzida diversas vezes desde então.

Além de Osvaldo Rolla e Lacy, o time campeão Farroupilha também contava com Eurico Lara. O goleiro se tornou mítico pelas defesas e por morrer semanas depois do título - o jogador figura na letra do hino oficial do Tricolor dos Pampas.

"Eurico Lara, estava acamado. Desde a partida contra o Santos alguns meses antes, Lara sabia do seu problema cardíaco. Aconselhado pelos médicos a não atuar, ele bateu pé, insistiu e entrou em campo naquele dia. Conseguiu jogar o primeiro tempo, tendo o destaque de sempre. Mas na segunda etapa teve que sair e deu lugar a Chico", conta Fábio Mundstock, jornalista e historiador gremista.

O folclore conta que os colorados, ao verem o empate sem gols perto do apito final, começaram a comemorar. À época, a celebração era bem diferente e hoje soa como inocente. Pombos-correios foram soltos pelos céus do bairro Moinhos de Vento com a missão de espalhar por todo o Rio Grande do Sul a mensagem do novo campeão citadino.

Além das aves, uma matilha de cães pintados de vermelho disparou da parte de trás de uma camionete. O estouro dos cachorros ocorreu quase simultaneamente ao gol de Foguinho e se virou contra o mentor da comemoração bizarra. Alguns dos animais, irritados pelas horas de confinamento, atacaram o próprio dono.

Em 2019, o Grêmio manteve a tradição. Na semana passada, Romildo Bolzan Jr., presidente do clube, abriu o jantar Farroupilha no local onde ocorre acampamento de grupos tradicionalistas que festejam a cultura gaúcha durante todo o mês de setembro.

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