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Palmeirenses exaltam "futebol raiz" e "quebra do sistema" em jogo sem TV

Diego Salgado

Do UOL, em São Paulo

02/05/2019 04h00

São 15h55. Em pé numa cadeira, um torcedor do Palmeiras tenta sintonizar uma estação de rádio num alto-falante pendurado na parede. Ao seu lado, outros palmeirenses não escondem a apreensão com a demora. Faltam apenas cinco minutos para o jogo contra o CSA. A tensão se dispersa quando a voz do locutor passa a ecoar pela calçada do bar vizinho ao Allianz Parque.

O Palmeiras está longe, em Maceió, onde enfrenta o time alagoano em partida válida pela segunda rodada do Campeonato Brasileiro. Única opção para os torcedores acompanharem a partida, o rádio ganha papel de destaque na tarde ensolarada: ele ocupa o lugar exato da televisão, retirada da parede e devidamente guardada pelo funcionário do bar, onde não falta cerveja e churrasco.

A falta de imagens não afligiu os torcedores palmeirenses ontem durante a transmissão da partida que terminou empatada por 1 a 1. Pelo contrário. A maior parte comemorou a "quebra do sistema" e o retorno do "futebol raiz", com costumes das décadas passadas, marcadas pelas transmissões no rádio e por poucas partidas mostradas na televisão.

Torcedores do Palmeiras se aproximam da caixa de som e celebram a volta do "futebol raiz" - Diego Salgado/UOL Esporte
Torcedores do Palmeiras se aproximam da caixa de som e celebram a volta do "futebol raiz"
Imagem: Diego Salgado/UOL Esporte

"Pela primeira vez estamos com essa novidade, de colocar o rádio do lado de fora [do bar]. A televisão está guardada, e o rádio está aqui fora para todo mundo ouvir com a gente", conta Vanderlei Laurino, 49 anos, que voltou a acompanhar uma partida dessa forma depois de 25 anos.

"Antigamente não passava na TV. Lembro que o Palmeiras disputou a final do Paulista de 1992 e escutei pelo rádio. É muito mais emocionante. Juntava todo mundo ao lado do rádio. Ouvir pelo rádio hoje ajuda a resgatar muita coisa. Achei muito especial", afirmou Érica Souza, 41.

Palmeirenses escutam o jogo no feriado, com direito a churrasco e cerveja - Diego Salgado/UOL Esporte
Palmeirenses escutam o jogo no feriado, com direito a churrasco e cerveja
Imagem: Diego Salgado/UOL Esporte

Nos dois bares visitados pelo UOL Esporte em uma das travessas da Rua Palestra Itália, apenas dois torcedores mostraram descontentamento com a situação. Um deles criticou a postura da diretoria do Palmeiras e lamentou o fato de recorrer aos fones de ouvido para saber do duelo enquanto assistia à partida Inter x Flamengo pela televisão.

O outro viveu mais da metade da vida como torcedor de orelha colocada no rádio, da década de 1950 à de 1990. Apesar disso, Luiz Cavatão, de 83 anos, que "não troca a televisão por nada", não gostou tanto assim da mudança. "O rádio dá um pouco de sono. Eu prefiro ver o jogo na TV mesmo", ressaltou.

No gol, o desabafo

A "quebra do sistema" também foi valorizada pelos palmeirenses. Para eles, o clube acertou ao não vender os direitos de transmissão à Globo e acertar com o Esporte Interativo. Tal postura pôde ser vista no momento em que o Palmeiras abriu o placar em Maceió. Na comemoração, torcedores celebraram a opção da diretoria.

"É como se fosse um protesto. É uma mudança. O futebol é para o povo. Espero que mude os horários dos jogos também. É um movimento que todos os clubes deveriam aderir. No futuro pode ser bom, de não criar um monopólio. O futebol é um esporte popular e isso precisa voltar, a raiz precisa voltar. Pode ser um ponto de partida", disse Rodrigo Placeres, 42, pouco antes de o CSA empatar o jogo.

Já Bruno Padalino, de 30 anos, tratou a escolha do Palmeiras como uma "quebra de paradigma". Helcio Netto, 26, acredita que o clube paulista pode servir de exemplo para outras equipes do futebol brasileiro. Érica, por sua vez, ressaltou que a postura do Palmeiras só fará bem ao clube.

Luiz Cavatão, de 83 anos, acompanhou muitos jogos pelo rádio, mas prefere a televisão - Diego Salgado/UOL Esporte
Luiz Cavatão, de 83 anos, acompanhou muitos jogos pelo rádio, mas prefere a televisão
Imagem: Diego Salgado/UOL Esporte

"É preciso ter coragem para fazer isso. Precisa mudar, e qualquer mudança dá trabalho. É um orgulho fazer parte disso. Além disso, ajuda a unir ainda mais os torcedores", frisou Érica.

A bateria acabou antes da hora

Exaltado no retorno triunfal, o rádio deu um susto nos palmeirenses na reta final de jogo. Primeiro, houve uma pequena divergência em relação à estação, pois alguns torcedores apontaram chiado. Buscou-se, então, uma outra estação. Depois, a bateria do alto-falante acabou quando o relógio apontava 44 minutos do segundo tempo, que teve quatro minutos de acréscimo.

Em meio a uma série de explicações do torcedor responsável pelo equipamento, palmeirenses, de forma descontraída, recorreram às telas do celular para acompanhar os lances derradeiros.

Durante o confronto, os mesmos celulares foram retirados do bolso a fim de se obter mais detalhes do jogo ou tentar achar vídeos do gol marcado pelo palmeirense Raphael Veiga no primeiro tempo. "A gente estava meio desacostumado, mas não tem problema", destacou Vanderlei.

A experiência vivida ontem pode virar costumeira. Caso o Palmeiras não chegue a um acerto com a Globo até o fim da atual edição do Campeonato Brasileiro, os torcedores terão que acompanhar mais 25 partidas do clube alviverde pelo rádio.

No próximo sábado, porém, os palmeirenses poderão deixar o rádio de lado se preferirem e voltar para a televisão ou para a telinha do celular. O duelo contra o Inter, marcado para as 19h, faz parte do acordo do clube com o Esporte Interativo. Você pode assistir ao jogo por meio do UOL Esporte Clube, que dá acesso ao conteúdo do Esporte Interativo no app EI Plus, sem precisar de assinatura de TV a cabo. A partida também será transmitida também no canal TNT na TV fechada.

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